Crítica | O Planeta dos Macacos (Marvel Comics – 1974)

estrelas 4

A febre símia iniciada em 1968 com O Planeta dos Macacos logo gerou quatro continuações cinematográficas, fazendo história como uma das primeiras grandes franquias da Fox. Mas o apelo da história baseada no sensacional livro de Pierre Boulle foi além do cinema e atingiu em cheio os quadrinhos. E, por incrível que pareça, a primeira versão da Nona Arte baseada nos filmes foi um mangá – Saru no Wakusei – escrito e desenhado por Jôji Enami que adaptava o primeiro filme e que foi publicado em abril de 1968 no Japão, jamais ganhando versão ocidental até onde pude verificar.

A primeira versão americana em quadrinhos foi a adaptação de De Volta ao Planeta dos Macacos, em 1970, cortesia da Gold Key Comics, famosa, dentre outras publicações, pelas primeiras HQs baseadas em Star Trek. Em seguida, já depois dos cinco filmes originais terem sido lançados, a Marvel Comics interessou-se pela franquia, pois Roy Thomas, à época, queria expandir a linha editorial da empresa, especialmente as revistas em formato diferenciado e preto-e-branco como a saudosa A Espada Selvagem de Conan, que fugiam do famigerado Comics Code. Stan Lee aprovou a ideia de Thomas, que conseguira contato na 20th Century Fox, e uma nova revista de mais de 80 páginas nascia: Planet of the Apes.

As capas dos dois primeiros números da revista Planet of the Apes.

As capas dos dois primeiros números da revista Planet of the Apes.

Tendo 29 edições publicadas entre agosto de 1974 e fevereiro de 1977, a publicação continha artigos sobre os filmes e, depois, séries de TV, além de duas a três histórias em quadrinhos por edição. Nos primeiros seis números, o primeiro filme ganhou uma adaptação e uma história original intitulada Terror no Planeta dos Macacos fazia companhia a ela, ambas escritas por Doug Moench.

Estamos falando de uma época em que as adaptações de obras cinematográficas em quadrinhos eram realmente cuidadosas, com artistas de renome trabalhando no material e com uma boa liberdade editorial, evitando que a produtora ficasse micro-gerenciando o conteúdo. Foi assim que, em 1977, a Marvel Comics publicaria – com roteiro de Roy Thomas, aliás – a que até hoje é a melhor adaptação em quadrinhos de Uma Nova Esperança, em um bem-sucedido começo para as publicações mensais nesse universo. Mas, três anos antes, Doug Moench conseguiria feito semelhante, com um detalhado roteiro baseado no que Michael Wilson e Rod Serling escreveram para O Planeta dos Macacos, de 1968.

Mas liberdade não é licença para se escrever algo completamente divorciado da obra original. Moench é cuidadoso ao respeitar integralmente o original, sendo preciso na escolha do que manter e do que retirar e até mesmo do que levemente alterar. Estão presentes todas as famosas frases de efeito e, claro, a famosa surpresa ao final, além de todos os personagens – humanos e símios – que vemos nos filmes. Há uma clara reverência ao material fonte, pois, afinal de contas, ele já estava consolidado na mente de potenciais leitores, algo bem diferente do caso de Star Wars citado acima, que foi adaptado para os quadrinhos antes mesmo de ser um sucesso nas bilheterias. Portanto, o roteirista trabalha equilibrando bem a expectativa do leitor e sua criatividade, delimitando bem a narrativa e mantendo uma boa fluidez. Por vezes, porém, ele exagera no texto expositivo e na falta de concisão, notadamente na sequência do julgamento de Taylor e, depois, na caverna ao final, em diálogos mais longos entre o protagonista e Zaius, mas, em linhas gerais, Moench sabe trabalhar o roteiro de maneira a manter sua essência sem crivar as páginas de texto.

As capas das duas primeiras edições de Adventures on the Planet of the Apes, que republicaram a adaptação à cores.

As capas das duas primeiras edições de Adventures on the Planet of the Apes, onde a adaptação foi republicada em cores.

Como são seis edições e o filme tem um roteiro enxuto, sem sequências expletivas, o resultado final é uma obra completa, que vai na minúcia do que é colocado em tela, com tempo para alguns momentos que levemente expandem o passado dos personagens e lidam com o relacionamento de Taylor com Nova. A arte, que ficou ao encargo de George Tuska, é muito bonita, com traços fortes e precisos que delineiam personagens poderosos e autênticos. A arte-final de Mike Esposito é particularmente importante aqui, aprofundando os contrastes da versão original em preto-e-branco e criando belos e eficientes quadros.

Mas nem tudo são flores. Tuska perde diversas oportunidades de fazer sua arte “explodir” nas páginas, ajudados por momentos-chave da história. Um claro exemplo disso é quando Taylor, depois de ser novamente capturado pelo símios, solta a famosa frase “Take your stinking paws off me you damn dirty ape!“. Quando isso acontece, ao final de uma das edições, não há um grande quadro dedicado ao momento e tudo fica apertado em um canto que esvazia o poder da sequência. O mesmo vale para a grande reviravolta final. Ainda que Tuska tenha sido inteligente ao criar suspense, a execução do momento deixa a desejar e acaba rápido demais.

Uma comparação da arte sem cores (original) e com cores (republicação).

Uma comparação da arte sem cores (original) e com cores (republicação).

Depois de publicada na revista em preto e branco, a adaptação foi colorida e republicada em Adventures on the Planet of the Apes, HQ em formato tradicional americano, também pela Marvel Comics. Essa versão, porém, é inferior à original justamente pela adição das cores, que ficou ao encargo de George Roussos. A pegada sombria da história se perde em cores vibrantes demais que dão um ar mais leve à toda narrativa. Não é algo que retire o prazer da leitura, mas, na comparação, a versão em P&B é bem superior e a nota dada acima em estrelas reflete a versão original.

A transposição de O Planeta dos Macacos para os quadrinhos se deu, assim, de forma mais do que satisfatória, da maneira que a franquia realmente merecia. A Marvel Comics se consolidaria, assim, em um nicho de adaptações de filmes em HQ que, depois, infelizmente abandonaria.

O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, EUA – 1974/5 e 1975/6)
Roteiro: Doug Moench
Arte: George Tuska
Arte-final: Mike Esposito
Cores: George Roussos (versão colorida)
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: agosto de 1974 a março de 1975 (preto e branco, em Planet of the Apes #1 a #6) e outubro de 1975 a junho de 1976 (colorido, em Adventures on the Planet of the Apes # 1 a #6)
Editora no Brasil: Editora Bloch
Data de publicação no Brasil: 1975 (Planeta dos Macacos #1 a #4)
Páginas: 180

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.