Crítica | O Plano Perfeito

o_plano_perfeito_plano_critico

estrelas 4

Até pode parecer que O Plano Perfeito é uma tentativa de Spike Lee, conhecido por suas obras que abordam questões raciais, produzir algo de caráter comercial. Contudo, com um olhar um pouco mais apurado, percebe-se que há críticas sociais nessa obra, mas, ao contrário de outros trabalhos do diretor, de maneira muito mais sutil.

O filme inicia mostrando quatro pessoas vestidas com uniformes de pintor entrando no movimentado banco Manhattan Trust. Em poucos minutos elas controlam o local, para a realização de um assalto planejado em detalhes. Após a notícia do assalto ser divulgada chegam ao local os detetives Keith Frazier (Denzel Washington) e Bill Mitchell (Chiwetel Ejiofor), que têm a missão de fazer contato com o líder dos bandidos, Dalton Russell (Clive Owen). Quando a capacidade de Frazier começa a ser posta em dúvida surge Madeline White (Jodie Foster), uma poderosa jogadora que solicita um encontro particular com Russell.

Apesar das ótimas críticas sociais presentes, sobre as quais falarei adiante, há também o elemento entretenimento no longa e ele é muito bem construído. Dentro do banco, Spike Lee utiliza planos-sequência para ressaltar o grau de perfeição da estratégia dos bandidos e opta por planos panorâmicos para fazer com que o público tenha percepção dos ambientes onde os eventos ocorrem. A edição contribui pontuando bem a ação de policiais e ladrões, ressaltando como um lado interfere no outro. Todos esses recursos tornam a obra dinâmica, com um bom ritmo e atrativa visualmente.

O longa vai além da disputa entre mocinhos e bandidos, fugindo de alguns clichês de filmes de assalto a banco. Em O Plano Perfeito, os verdadeiros vilões são as pessoas que detém maior poder e capital financeiro, destacando que suas fortunas são construídas às vezes de maneira completamente antiética, como diz Russell em determinado momento “Respeito é a moeda de maior valor. Roubei de homem que trocou o seu por alguns dólares”. Por isso, o roteiro não tenta demonizar os assaltantes, pelo contrário, humaniza-os em diversos momentos, como na cena em que o líder da quadrilha conversa com um garotinho e principalmente quando ele dá conselhos amorosos a Frazier. Enquanto isso, a trama dá um tratamento frio e calculista a quem tenta defender os interesses do banco, o que pode ser exemplificado perfeitamente através da misteriosa Madeline White, interpretada brilhantemente por Jodie Foster, destacando como as ações desse tipo das pessoas do alto escalão são discretas e sem holofotes, sendo o verdadeiro plano perfeito para enriquecer.

Não apenas Foster, mas o restante do elenco também destaca perfeitamente os pensamentos de seus personagens. Denzel Washington traz uma composição carismática, mostrando como encara seu trabalho com bom humor e irreverência, tornando impossível não torcer pelo protagonista. Já Clive Owen possui uma voz serena mas imponente, algo fundamental visto que passa metade do filme com uma máscara, destacando como ele está no controle da situação. Até Christopher Plummer, com pouco tempo em tela, constrói muito bem a imagem de bom homem mas com segredos inescrupulosos.

O longa ainda possui críticas mais discretas, como na cena onde um árabe apanha da polícia apenas por sua religião, ressaltando a truculência e seletividade da polícia americana. Além disso, há ainda um sutil questionamento sobre a ganância humana, uma vez que, todos os personagens ali têm interesses por trás de suas atitudes, o próprio detetive Frazier destaca como aquilo pode ser útil para sua promoção e Russel deixa claro que não pretende ser um mártir expondo as mentiras de Arthur Case, dono do banco, agindo apenas pelo dinheiro.

Spike Lee traz sim um longa com certa preocupação em entreter o público, mas não abre mão de suas críticas sociais, optando dessa vez por denunciar de forma discreta o sistema, algo surpreendente vindo de um diretor conhecido por mensagens contundentes em seus trabalhos. Apesar de ser uma obra que diferencia-se das demais em sua carreira, o resultado final é satisfatório como na maioria dos trabalhos de Lee.

O Plano Perfeito (Inside Man) – EUA, 2006
Direção: Spike Lee
Roteiro: Russell Gewirtz
Elenco: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Chiwetel Ejiofor, Christopher Plummer, Willem Dafoe, Kim Director, Cassandra Freeman, Peter Gerety, Peter Frechette, Ken Leung
Duração: 129 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.