Crítica | O Poder da Província de Kangwon

estrelas 3,5

Ainda muito influenciado pelo texto de Koo Hyo-seo em O Dia em que o Porco Caiu no Poço, Hong Sang-soo escreveu o seu primeiro roteiro e dirigiu o seu segundo filme como uma espécie de visão sequencial dos encontros e desencontros entre pessoas comuns e problemáticas, ou seja, uma crônica sobre o acaso.

O título parece dar conta de uma experiência mística, mas na verdade não é esse o foco do filme. Dividido em duas histórias, O Poder da Província de Kangwon mostra eventos acontecidos no mesmo tempo e espaço, porém exibidos em dois grandes blocos distintos. No primeiro, temos um trio de amigas que vão a passeio até a província. Os motivos dessa visita vão sendo revelados aos poucos, mas o roteiro faz uma notável distinção dramática entre elas e os dois homens, também amigos, que vão a passeio para o mesmo lugar, na segunda parte da história.

A forma de apresentação das tramas segue o mesmo exemplo do filme anterior de Sang-soo: narra-se uma parte com começo meio e fim, colocando nela alguns pontos que mais à frente poderão ser utilizados como links para a trama seguinte. Mais adiante, narra-se outra parte, que apesar de estar afastada conceitualmente da história anterior, se mantém ligada a ela por algum motivo conceitual, nesse caso, pelo cenário, a Província de Kangwon e as Montanhas Taebaek.

O diretor realiza a passagem de um bloco a outro de maneira orgânica e sem pressa, corrigindo um dos maiores erros que cometera em O Dia em que o Porco Caiu no Poço. O que também ajuda a manter as partes unidas é o bom uso do cenário, tanto nas histórias individuais quanto na interação entre elas, seja através de pontos de referências, personagens ou eventos locais.

A despeito do desequilíbrio na exploração das personagens — já citei aqui que a segunda história recebe maior atenção que a primeira — o filme se sustenta pela forma como o diretor compensa essa falha, realizando consistentes eventos comuns para ambas as partes e fazendo da segunda uma jornada realmente notável.

Mas talvez aí resida um grande pesar do espectador em relação ao filme. Sendo a segunda parte mais interessante e melhor dirigida e atuada que a primeira, pensamos se não seria melhor que todo o filme explorasse o universo dos dois amigos, localizando melhor suas famílias e os principais eventos que os levaram até a viagem a Kangwon. Saindo do campo hipotético, vale dizer que mesmo diferentes em qualidade, ambas as histórias trazem momentos muito bons durante sua execução.

Este segundo filme de Hang Sang-soo também apresenta uma coletânea de tipos e comportamentos de personagens que o diretor voltaria a trabalhar inúmeras vezes no futuro. A música econômica, as conversas de bar, bebedeiras, sexo, relacionamentos complicados e vida acadêmica são os tópicos mais importantes. Até o caráter de “passeio pelo acaso” já se mostra evidente e talvez seja este o grande mérito da fita, fazer com que o espectador pense sobre os encontros e desencontros da vida, o que faz as pessoas sentirem culpa e desejo, o que as fazem agir por instinto, falar com sinceridade ou rudeza com os amigos, buscar uma boa colocação no mercado de trabalho, um amor para a vida.

São esses instantâneos do cotidiano que fazem de O Poder da Província de Kangwon um filme interessante. Centrado mais naquilo que move os personagens do que naquilo que eles fazem, Hong Sang-soo conseguiu assinar um segundo filme reflexivo e angustiante ao mesmo tempo, um toque de comportamento humano bastante visto em obras de fim dos anos 90 que se fariam vez cada vez mais fortes, não apenas em sua própria filmografia, mas também na cena cinematográfica pós anos 2000.

O Poder da Província de Kangwon (Kangwon-Do Ui Him) – Coreia do Sul, 1998
Direção: Hong Sang-soo
Roteiro: Hong Sang-soo
Elenco: Jong-hak Baek, Jaehyun Chun, Sunyoung Im, Yoosuk Kim, Yun-hong Oh, Hyunyoung Park
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.