Crítica | O Poder e a Lei

estrelas 4

The Lincoln Lawyer é um filme que explora o crime e o drama que rondam a vida de um descolado advogado vivido por Matthew McCounaghey, ainda em uma fase anterior a True Detective, Clube de Compras Dallas e Interestelar. Sem dúvida alguma, porém, o talento do ator – que à época vinha de diversas comédias românticas esquecíveis – já é possível ser visto em um longa que explora bem a postura e a linguagem de seu personagem em um bom roteiro jurídico.

Baseado no primeiro romance de Michael Connelly que contém um de seus personagens clássicos, o advogado de porta de cadeia Mickey Haller, o filme conta com bom elenco coadjuvante – Marisa Tomei, William H. Macy, Josh Lucas, Michael Peña e até Bryan Cranston, em pequena participação – que acompanha o bom nível da rápida dinâmica na edição e um roteiro que dá à McCounaghey o espaço preciso para brilhar. Logo na introdução, quando os créditos ainda rolam na tela, o diretor Brad Furman mostra diversas linhas intercaladas com imagens do Lincoln que transporta Haller durante o filme, ao excelente som de Bobby “Blue” Band, Ain’t No Love In The Heart Of The City, lembrando o tom cool e suave de um Grand Theft Auto: Vice City, por exemplo.

É com essa pegada que o filme se desenvolve mostrando sutilmente os trâmites de Haller ao se virar em sua profissão, defendendo aqueles que sua ex-mulher e promotora, Maggie, considera a escória da sociedade. Negociando com gangue de motoqueiros, combinando situações escusas e criando uma rede de contatos e informantes, Haller se vê em uma situação única ao defender Louis Roulet, interpretado pelo limitado Ryan Philippe. Trata-se, em sua essência, de um drama de corte, algo visto mais recentemente em O Juíz e democratizado em tantas séries policiais americanas ao longo das últimas duas décadas.

O grande mérito que destaca esse filme de oceano de mesmice que se tornou o gênero, além da ótima atuação de seu protagonista, é o acerto de sua montagem, capaz de trazer dúvida ao público sobre uma trama que toma um caminho inimaginável no início. Furman consegue fazer isso sem deixar o longa mais pesado do que o necessário, entregando as situações de tensão ora nas costas de seus atores, ora em uma câmera tremida, favorecendo a instabilidade que Haller pouco parece sentir neste filme que é, sim, dramático, mas que termina com um dos finais mais felizes que já vi nesse tipo de obra.

O que caracteriza a pouca densidade de O Poder e a Lei é, provavelmente o motorista de Haller, Earl, vivido por Laurence Mason. Não à toa, o chauffeur, em certo momento, diz que seu patrão se daria bem nas ruas. Por mais desequilíbrio que a trama possa trazer, o filme mantém, quase o tempo inteiro, um clima tranquilo o suficiente para se ver McCounaghey abusar de seu texto, no bom sentido, entregando um ótimo roteiro escrito para o embate de advogados no julgamento que toma parte de grande tempo da película. Nesse sentido, um ponto que pode ser identificado como problema é exatamente a invulnerabilidade de seu personagem, que parece estar acima inúmeras vezes, com postura convicta e determinada.

Há, todavia, a utilização de uma câmera recorrentemente atrás dos atores, justificável por um ponto da trama e bem pensada para suscitar dúvida ao público. Da mesma forma, alguns momentos de tensão entre Haller e as personagens ao seu redor tentam adensar um pouco mais o drama, como no caso do rápido debate jurídico-social com sua ex-mulher, expondo a posição de um advogado de defesa e de uma promotora no processo visto. Tudo ligeiro, entretanto, assim como seu enfrentamento com um ex-cliente, vivido por Michael Peña.

O Poder e a Lei mostra de forma bem contemporânea um tema ótimo a ser abordado em salas de aula nos cursos de Direito. A falta de ética e a movimentação grotesca desse cenário acaba restando nas entrelinhas em um filme superficial – o que não é ruim – e leve, lembrando um pouco a série Better Call Saul, ainda que a criação de Vince Gilligan possua episódios muito mais tensos. Em comparação com um filme desse gênero, As duas faces de um crime, com Richard Gere no papel do advogado malandro e um jovem Edward Norton, é inegável que o longa de vinte anos atrás traz muito mais peso e tensão, inclusive, evidentemente, no modo como se arrasta em suas duas horas. Sem hierarquiza-los, ambos tratam de temas relevantes e contam com atuações estupendas. The Lincoln Lawyer, todavia, resolve explorar um lado sutilmente distinto na metade de seu filme, mostrando uma história que foge da maioria das vistas, assim como seu ritmo na sua rápida duração. Rápida graças à qualidade do que é mostrado e do modo como se mostra.

O Poder e a Lei (The Lincoln Lawyer – EUA, 2011)
Direção:
Brad Furman
Roteiro:
John Romano
Elenco:
Matthew McCounaghey, Marisa Tomei, Ryan Phillippe, William H. Macy, Josh Lucas, John Leguizamo, Michael Peña, Bob Gunton, Frances Fisher, Bryan Cranston, Trace Adkins, Laurence Mason, Margarita Levieva.
Duração:
119 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.