Crítica | O Poderoso Chefão: Parte II

estrelas 5,0

Dois anos após O Poderoso Chefão ter mudado não só a história dos filmes de gangsters, como do próprio Cinema em si, Francis Ford Coppola nos trouxe uma segunda obra-prima. O Poderoso Chefão: Parte II – cujo título fora uma das exigências do diretor para fazer o filme – nunca fora algo planejado. Coppola realizou a obra inicial como um filme único, cujo enredo se fecha em si mesmo, trazendo à tela um ciclo que inicia com o pai e termina com o filho. Mas é claro que a Paramount não deixaria de lado a óbvia fonte de renda que seria uma continuação de uma das produções mais bem-sucedidas até então. A escolha dos executivos, portanto, foi trazer de volta Francis, que agora contaria com uma muito maior liberdade criativa, algo que causaria nele até certo estranhamento, considerando a problemática produção do primeiro longa-metragem.

O Poderoso Chefão: Parte II é, evidentemente, uma obra muito mais íntima para o diretor. A metáfora do capitalismo na América do primeiro filme continua, mas aqui enxergamos a nítida tentativa de Coppola em retratar a imigração italiana no princípio do século XX. O jovem Vito Corleone, é claro, é o elemento central desta parte da história e as situações pelas quais o futuro Don Corleone passa são momentos emblemáticos pelos quais milhares de outros italianos passaram em Ellis Island. Com uma fotografia envelhecida e planos de cobertura em movimento, o diretor de fotografia Gordon Willis nos transporta totalmente para o passado e tais imagens assumem a notável intimidade desejada através da, mais uma vez, inesquecível trilha de Nino Rota, que, aqui, já demarca um dos temas a ser trabalhado ao longo da projeção.

A imigração italiana

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A retratação da chegada de Vito à América com uma linguagem documental, transmitindo um maior naturalismo à cena.

Antes de entrarmos no passado, contudo, vemos uma única curta cena de Michael, já como Don, tendo suas mãos beijadas, com uma expressão facial de quase total apatia. Estamos diante do mesmo homem que deixamos em O Poderoso Chefão, uma pessoa abalada por todos os eventos que o colocaram em um caminho que ele jamais quis trilhar. Francis, então, sabiamente insere um claro elemento que se mantém durante toda a narrativa. As cenas onde assistimos a ascensão de Vito são sempre precedidas ou sucedidas por instantes de contemplação de seu filho, Michael já no presente, como se esse olhasse momentaneamente para o passado a fim de buscar alguma possível salvação para a situação na qual ele se encontra agora.

Não, o atual Don Corleone não se encontra em um sério perigo de vida – para o espectador ele é tido como uma figura praticamente invencível. O verdadeiro temor de Mike é perder sua família, algo que deixa claro em um marcante diálogo com sua mãe, na qual ela o reconforta ao dizer: “você jamais poderá perder sua família”. É interessante notar que, desde sua transformação nessa figura monstruosa é a primeira vez que o vemos realmente com medo. Por mais que sua sociopatia aparente dominar sua disposição em relação ao mundo na grande maioria das cenas, o trabalho de Al Pacino garante que enxerguemos o cuidado com que este homem tem em relação ao sangue de seu sangue. A progressão do enredo, porém, continua a transformar o personagem – dessa vez de forma mais sutil que no primeiro filme, é claro – levando-o de uma figura implacável até um homem ainda mais traumatizado, que opta pelo escuro e pelo silêncio, abandonando praticamente todo o calor que demonstrava em relação a seus familiares.

O primeiro dos impactos em Mike no filme, evidentemente, vem da traição de seu irmão Fredo e a descoberta desse fato praticamente tira todo o ar de Michael. O interessante, contudo, é a forma como o roteiro de Francis e Mario Puzo não deixam esse fator somente no preto e branco. Fredo não sabia que eles tentariam matar seu irmão e ele claramente se arrepende depois. John Cazale, que contava com um personagem de segundo plano na obra anterior, dá um verdadeiro show. “Eu deveria cuidar de você” ele repete para seu irmão mais novo, ao mesmo tempo que praticamente treme na cadeira reclinável e balança suas mãos sem a menor força no punho. Temos aqui a mesma figura frágil e infantilizada do primeiro filme, deixando conosco nada mais que uma verdadeira pena pelo seu destino final, o maior pecado de Michael Corleone.

A última conversa entre Michael e Fredo

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A frieza de Michael é ressaltada ainda mais pela neve. O preto e branco em tela reflete sua atual disposição em relação a todos, incluindo a família.

O segundo impacto vem da separação com Kay e a revelação de que ela abortou seu filho. Al Pacino é um ator que notadamente gosta de realizar cenas nas quais seu personagem explode em ira e aqui temos a melhor de toda a trilogia. Vale notar que a perda de sua calma nesses momentos reitera sua preocupação com a família. O monstro que Michael se torna é praticamente desfeito aqui, quando em sua expressão conseguimos sentir toda sua raiva transparecendo. Há um humano por traz dessa figura e chega a ser triste constatar que, após essa explosão, ele cai ainda mais, quase que enterrando por completo aquele jovem veterano que conhecemos no princípio de O Poderoso Chefão.

A tensão gerada no espectador, contudo, não se limita à queda de Michael. Coppola sabe trabalhar com precisão o suspense desses duzentos minutos de projeção. Desde as problemáticas iniciais não sabemos quem o protagonista realmente considera o culpado pelo atentado contra sua vida. Seria Hyman Roth (Lee Strasberg, ator sugerido por ninguém menos que Pacino) ou Frank Pentangelli (Michael V. Gazzo)? Ou os dois? A audiência é deixada no escuro por grande parte do longa e, ironicamente, quando o vilão se revela o outro também se torna um, nos levando para as audiências buscando incriminar os Corleone, elemento que é inserido magistralmente na história pelo uso da narrativa paralela, que oscila entre Vito e Mike.

Um ponto interessante desta Parte II é notar a diferença entre os principais antagonistas daqui e do primeiro filme. Enquanto na obra original tínhamos gangsters e policiais corruptos como vilões, aqui temos uma escala ainda maior. Primeiro, o próprio governo, através do Senador Pat Geary (G.D. Spradlin), mas que, surpreendentemente, se revela como um “peixe pequeno”. Entra em cena, então, Hyman Roth, inspirado em Meyer Lanski, um dos principais responsáveis pela criação do que conhecemos como Cosa Nostra, junto de Charlie Luciano (ambos são retratados em Boardwalk Empire). A presença de Roth evidencia a ênfase no dinheiro do filme, algo sustentado pela direção de arte, que preenche cada sequência (do presente) com elementos dourados, e a fotografia, que adota tons amarelados, seguindo uma lógica visual já apresentada no primeiro filme nas sequências de Los Angeles e Las Vegas.

Através de Hyman as grandes corporações entram em jogo e passamos a ver a Família Corleone como uma delas – “somos maiores que a U.S. Steel”, famosa frase dita por Lanski, é repetida por Roth e traz um nítido vínculo com o final do primeiro filme.  Um dos objetivos centrais de Michael é legitimar os Corleone e o investimento pesado em ações e hotéis corrobora isso. Assistimos a Família ganhar uma maior transparência, algo evidente pelo próprio escritório do Don, que agora dispensa cortinas e vidros escurecidos em favor de uma visibilidade tanto por dentro quanto por fora. Mas os vínculos não param por aí. O roteiro trabalha, enfim, as consequências dos assassinatos durante o batismo da obra original, trazendo para primeiro plano a morte de Moe Greene como um dos grandes causadores do conflito Hyman x Michael. Impossível não se deixar levar pela inesquecível atuação de Lee Strasberg, que consegue garantir em nós a tensão ao mesmo tempo que oferece uma notável contraposição entre a simplicidade e a ostentação de seu personagem – um homem que sabe exatamente o valor do dinheiro, como podemos ver pelo seu desdém em relação à cena do telefone de ouro (algo notado pelo próprio Michael).

Ouro, ouro e mais ouro

O dourado presente em cada cena, desde o discreto estofamento da poltrona, até as paredes, movéis e luz preenchendo a tela.

O dourado presente em cada cena, desde o discreto estofamento da poltrona, até as paredes, movéis e luz preenchendo a tela.

Por fim o último antagonista a ser firmado é Frankie Pentangelli, cujo papel na trama seria originalmente exercido por Peter Clemenza, mas que, devido a conflitos com Richard Castellano, não foi possibilitado. Felizmente o trabalho de Michael V. Gazzo nos faz esquecer de tal fato, ao passo que seu personagem, por mais que tenha sido introduzido nesta Parte II, conta com uma evidente profundidade, que reitera o conflito entre o novo e o antigo, algo que se faz presente do início ao fim da projeção. O fato de um importante membro da Família se aliar com as autoridades é emblemático dentro da narrativa da trilogia, demonstrando o quão diferente é esse “regime” de Michael.

Mas que elemento melhor para evidenciar tais mudanças que a história paralela de Vito? A fotografia cada vez mais fria do presente contrasta diretamente com a sensação de aconchego das calorosas imagens do passado. O Padrinho que conhecemos no filme anterior aqui está em formação e cabe a Robert De Niro desempenhar o praticamente impossível papel de estar à altura da retratação de Marlon Brando. Surpreendentemente, contudo, De Niro dá conta do recado magistralmente, utilizando nuances da atuação de Brando (como movimentar das mãos, tom de voz e olhar) para compor esse futuro Don Corleone. Não é preciso muito tempo para enxergarmos nessa figura o homem que conhecemos em O Poderoso Chefão. E, de forma interessante, o roteiro gera um paralelismo entre ele e  Michael ao tornar sua jornada muito similar à de seu filho muitos anos depois. Vito passa a se tornar Don Corleone (ou Don Vito, como ouvimos da maneira correta dessa vez) com a morte de Fanucci (Gastone Moschin)- assim como Mike atravessou o ponto sem retorno ao assassinar Solozzo e McCluskey.

O caloroso passado

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Das sequências repletas de tensão às mais íntimas temos cores mais quentes. Reparem nas panelas da terceira imagem, para compor o aconchego do ambiente familiar.

A opção de Coppola em deixar as sequências no passado e no presente mais longas funciona perfeitamente, tornando o ritmo da obra fácil de se acompanhar. Cada cena atua como um capítulo dentro da narrativa, nas palavras do próprio diretor, como um curta-metragem. A fragmentação da projeção é, então, disfarçada pelos já mencionados momentos contemplativos que perfeitamente unem o passado e o presente. Desgostar de um lado da história é praticamente impensável, ao passo que ambos conseguem nos engajar do princípio ao fim. A perspectiva de Michael dá continuidade à sua triste queda enquanto que a de Vito introduz elementos que aprendemos a amar no primeiro filme, além de oferecer bem-posicionados alívios cômicos dentro do pesado clima que se instaura desde os minutos iniciais da projeção.

Seria correto, então, afirmar que O Poderoso Chefão: Parte II possui dois protagonistas ou que Vito é o personagem principal aqui? Não e não. A parte da narrativa centrada em Vito atua a fim de construir não só a Família, como para complementar a história de Michael. Sua transformação ganha uma dimensão ainda maior através desse passado dos Corleone que agora conhecemos, as mudanças ganham um propósito ainda maior, ao mesmo tempo que enxergamos as diferenças e similaridades entre o protagonista e seu pai. Além disso, cada sequência no passado permite uma elipse temporal mais discreta dentro do presente, nos distanciando do princípio da obra e oferecendo uma maior sensação de fluidez narrativa.

Michael sozinho

Michael se isola de todos a seu redor.

Michael se isola de todos a seu redor.

 A queda de Michael Corleone se faz completa em O Poderoso Chefão: Parte II, o personagem que era “fora da Família” se torna o líder dela e aqui acaba se isolando de todos a seu redor. Com uma cena que simboliza tal acontecimento – a festa surpresa de Vito – Coppola encerra esta segunda parte de sua trilogia. Diante de todos os elementos que dialogam com o primeiro filme, esta continuação, ainda assim, se sustenta como obra separada, única. Trata-se de um relato mais íntimo sob diversos aspectos, que garante uma maior sutileza não só no desenvolvimento do enredo, como na lenta transformação de cada personagem. Francis Ford Coppola não queria continuar a história de O Poderoso Chefão e acaba nos trazendo mais uma verdadeira obra de arte.

O Poderoso Chefão: Parte II (The Godfather: Part II – EUA, 1974)
Direção:
Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo
Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale, Talia Shire, Lee Strasberg, Michael V. Gazzo, G.D. Spradlin, Richard Bright
Duração: 200 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.