Crítica | O Poderoso Chefão

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estrelas 5,0

Baseado na obra homônima de Mario Puzo, O Poderoso Chefão ficou conhecido, ao longo dos anos, não só como a obra prima de Francis Ford Coppola, mas como um dos melhores filmes já realizados. Estudar os diferentes aspectos da narrativa do padrinho é, por si só, estudar o cinema como um todo – fotografia, montagem, roteiro, design de produção, trilha sonora, todos inclusos. Antes, porém, de entrarmos no longa-metragem em si, caminhemos, brevemente, pela sua conturbada produção.

Com o estrondoso sucesso do livro de Puzo, a Paramount logo adquiriu os direitos de sua adaptação, tentando repetir a mesma estratégia utilizada em Love Story (mesmo sendo duas histórias com públicos alvos completamente diferentes). Coppola, por ter origens ítalo-americanas foi contratado como diretor e desde cedo teve toda sua liberdade criativa rigidamente controlada pelo estúdio. Qualquer decisão do diretor, desde o elenco até a montagem foi contestada de forma veemente pelos executivos da Paramount. Felizmente, Coppola emergiu vitorioso de todos os impasses (uma verdadeira raridade em Hollywood) nos possibilitando ter a obra que conhecemos hoje.

Puzo assinou como roteirista do filme e Francis atuou em conjunto com o autor. A primeira versão apresentava maior fidelidade ao material original, mas aqui foi realizado o que deveria ser feito em qualquer adaptação: a conversão da linguagem literária para algo que realmente se encaixe com o Cinema, por meio de um texto mais livre, mas que ainda respeita o tom estabelecido pelo material fonte. O resultado é o fim dos inúmeros flashbacks e pensamentos dos personagens, oferecendo não só fatos melhor inseridos dramaticamente, como uma ênfase no trabalho de cada ator.

Iniciamos a projeção em um escuro quase que absoluto. “Eu acredito na América“, ouvimos enquanto o rosto de Bonasera, em close, aparece em tela. Não há qualquer som externo, somente esse monólogo do homem que pede um favor ao Padrinho. Lentamente a câmera se distancia, demonstrando a fragilidade do personagem, seu “tamanho pequeno” dentro daquela sala mal-iluminada. As costas de Vito Corleone (Marlon Brando) começam a preencher o quadro e um simples movimento de sua mão já transmite uma ordem, deixando claro onde o poder se encontra ali. O primeiro corte vem pouco depois e, enfim, vemos o rosto de Brando, repleto de uma maquiagem perfeita, que transforma um homem de quarenta e oito anos em um senhor de quase sessenta.

Somente por intermédio de O Poderoso Chefão conseguimos verdadeiramente enxergar o porquê de Marlon ser considerado um dos maiores atores da história, que chega ao ponto de dirigir outros atores em cena. Sua retratação de Vito é rica em detalhes que garantem nossa identificação com o personagem. Ao mesmo tempo que ele, o Padrinho, é um homem temível, que utiliza uma sutil movimentação a fim de compor sua figura inabalável, ele é um homem de família, devoto a sua esposa e filhos e que realiza pequenas e quase imperceptíveis interações com todos a seu redor. É uma pessoa calorosa que atrai qualquer um e que não precisa demonstrar abertamente, em nenhum momento, seu poder.

Esta, porém, não é a história de Vito e sim de Michael Corleone (Al Pacino), o real protagonista da obra, por mais que muitos acreditem o contrário. É ele quem passa pelo maior arco dramático que altera substancialmente sua personalidade. Mike começa na trama como o membro menos conectado da família, um herói de guerra que deixa claro sua vergonha em relação aos negócios de seu pai – sua disposição em relação à sua namorada Kay Adams (Diane Keaton) evidencia o quanto ele quer se afastar de toda aquela vida de crime. Com a progressão da trama, contudo, Michael vai sendo levado, passo a passo, em direção aquilo que mais repudia, sendo forçado a defender o pai, a matar por ele e, enfim, sucedê-lo. E como enxergamos a mudança do personagem? Não só através do óbvio, o roteiro, como das nuances de atuação de Pacino e o excepcional trabalho de direção de arte e maquiagem da produção.

Os tons escuros, acinzentados de Nova York, os ternos e carros pretos, as salas mal-iluminadas que tão bem representam o “por baixo dos panos” daquele modo de vida, perfeitamente contrastam com Michael e Kay. O primeiro, com seu cabelo ainda mais jovial, mais desarrumado e com franja, veste marrom ou verde, fugindo do preto e branco da Família. Ao seu lado, sua namorada em tons ainda mais vivos demonstrando a alienação da moça, sua marginalização em relação àquele meio. Al Pacino, em tais momentos, ainda demonstra feições mais humanas, ele sorri com os olhos e deixa claro sua ainda presente inocência.

Seu exílio na Itália nos traz um choque evidente. A fotografia escurecida de Gordon Willis dá lugar a tonalidades quentes – o amarelo da terra e o verde da vegetação ocupa cada quadro e harmonicamente representam a disposição atual de Michael. Lá ele se apaixona e lá ele dá adeus a grande parte de sua humanidade. Os cortes para Nova York, nessa narrativa simultânea, nos trazem um notável desconforto: a guerra entre as cinco famílias estourou e permanecemos em constante tensão. Novamente a fotografia de Willis vem à tona, utilizando enquadramentos clássicos, planos médios que não fogem do padrão hollywoodiano, mas que destaca cada elemento do design de produção. Nada e repito – absolutamente nada – está em quadro por acaso – da rosa no peito de Don Corleone até o quadro acima da lareira temos elementos simbólicos que reiteram a violência velada daquelas conversas e a instabilidade das inúmeras relações retratadas.

E tais relações, em constante fluxo, do início ao fim, são a beleza de O Poderoso Chefão. Não temos afirmações didáticas, diálogos que explicitam o rumo da projeção através de inúmeras explicações. Trata-se de uma economia narrativa que apresenta o que deve apresentar no momento certo e confia na capacidade do espectador em realizar as devidas conexões através de rimas temáticas, com o clássico “uma oferta que ele não pode recusar”. O que assistimos são conversas realistas que trazem nas entrelinhas a disposição de cada personagem em relação ao outro. Com um simples levantar de sobrancelha ou um tique no olho conseguimos identificar a desconfiança de alguém e, nesse quesito, cada um dos atores realiza um trabalho invejável. Brando, com um simples hesitar na respiração nos transmite o sofrimento de um pai roubado de seu filho; Pacino deixa claro toda sua apatia nos minutos finais da projeção através de seu olhar vazio e sem emoção; James Caan, no papel de Santino Corleone, evidencia sua disposição selvagem, incontrolável através de gestos constantes, alguns animalescos.

Esse cuidado com cada representação ainda nos traz a um ponto notável do roteiro. Cada um dos filhos de Vito (incluindo Tom Hagen, vivido magistralmente por Robert Duvall) herda do pai uma característica marcante, como se fossem, cada um, um diferente fragmento da figura imponente que é o pai. É claro que Michael é, de fato, o melhor sucessor, mas ainda assim ele é incompleto e a morte de sua primeira esposa, Apollonia (Simonetta Stefanelli), é uma das principais causas disso. Lembremos que Vito, como já dito anteriormente, é um homem caloroso e demonstra isso através de sua humildade, amor e respeito – suas ações não são frias como as de Michael, que é implacável em relação a seus inimigos.

Apesar dessa falha do novo Padrinho, contudo, ele é o futuro da Família e isso é deixado claro naquela que considero a melhor cena de toda a obra, com planos emblemáticos, um dos quais, utilizei nesta crítica. A sequência em questão é a logo anterior à morte de Vito. Michael conversa com seu pai no jardim da casa e discutem os planos que se desenvolveriam no clímax do filme. Em um ponto específico, o filho olha para a direita e o pai para esquerda, ilustrando, de uma vez por todas, o passado e o futuro dos Corleone. A tristeza no olhar de Brando é colocada em contraposição ao ódio velado de Mike. E por que digo ódio? Palmas novamente a Pacino que evidencia, em cada entonação, a vergonha que ainda sente de si mesmo, o quanto detesta fazer parte daquilo – “em cinco anos a família Corleone será completamente legítima” – essa é sua meta, fugir dos negócios da família, moldá-la, como se uma parte de si mesmo implorasse pela salvação que deixou de lado quando matou Sollozzo (Al Letieri) e o Capitão McCluskey (Sterling Hayden).

Isso, contudo, não consegue distanciar o protagonista de sua transformação em uma espécie de vilão – algo que a própria fotografia torna evidente, ao fazê-lo sair das sombras nos momentos finais, assim como fez com os diversos antagonistas ao longo da projeção – de Virgil Sollozzo a Don Barzini – trazendo à tona uma lógica quase que de um pesadelo. Michael é, portanto, uma nítida antítese de si mesmo, um homem perdido, mas que, ainda assim, se mantém no controle de absolutamente tudo – mesmo sentado Pacino consegue demonstrar o poder de seu personagem. Essa característica marcante do personagem ainda se encaixa idealmente com seu nome e o clímax da obra. Michael/Miguel, o anjo que derrotou satã e o baniu para o Inferno. No filme temos o homem que se livra de todos os inimigos da família e o faz durante nada menos que um batismo. “Você renuncia satã? Eu renuncio” – e um a um os líderes das famílias criminosas são assassinados em um violento espetáculo que reitera toda a contraposição sagrado x profano, família x Família ao longo do filme.

Mas a trajetória do protagonista e dos Corleone em si só é completada com a morte de Carlo (Gianni Russo). Nos minutos iniciais da obra acompanhamos o casamento de Connie (Talia Shire) e nos finais a mesma personagem se tornando viúva. A melancolia da narrativa não poderia ser criada de maneira mais óbvia e ela se estabelece trazendo consigo uma notável coesão da trama como um todo. Temos a nítida sensação de um longo período de tempo se passou desde que ouvimos “eu acredito na América” e, de fato, dez anos se passaram – novamente, sem a necessidade do didatismo.

Cada transição temporal é realizada discretamente, mas colocando diversos fatores para percebermos, mesmo que inconscientemente, tal mudança. Seja através da neve que cai e deixa de cair, ou de fusões e fade-outs, a montagem, a fotografia e o design de produção atuam em conjunto para garantir todo o realismo dessa trajetória. Ao fim da projeção, enxergamos claramente que nenhum dos personagens é o mesmo do início. Toda a sobriedade da fotografia parece ter passado para o âmago de cada um deles, transformando desde o mais amável indivíduo em uma melancólica caricatura.

Preenchendo, dando vida, a toda essa rica narrativa, temos a emblemática trilha sonora de Nino Rota e Carmine Coppola (nas músicas diegéticas). Cada melodia reitera perfeitamente o que vemos em tela, desde o romance de Michael na Itália, com tons intimistas, até as mais notáveis tensões construídas, como a inesquecível sequência da cabeça do cavalo. A progressão da trama, é claro, também é bem representada pela música, conforme a música tema escutada nos segundos iniciais vai ganhando um tom que ressalta a solidão que se instaura com o avançar da projeção. A frieza adquirida do protagonista é reiterada com melodias que se tornariam o leit-motif do segundo filme.

Com todos esses fatores em mente fica fácil enxergar o porquê de O Poderoso Chefão ser considerado um dos melhores filmes já feitos, influenciando centenas de outras produções, com elementos como o tratamento mais familiar da máfia. De Família Soprano até A Vingança dos Sith, as mais diversas produções beberam desta obra-prima de Francis Ford Coppola. Seja no elenco, no design de produção, roteiro, fotografia ou trilha sonora, cada um dos elementos que compõem essa obra audiovisual merece um cuidadoso estudo. A mágica, porém, está aqui: mesmo não entendendo o porquê podemos e somos cativados pelo filme, solidificando, de uma vez por todas, a harmonia de cada aspecto desta inesquecível obra. Como já dito: estude O Poderoso Chefão e você estará estudando o cinema em si.

O Poderoso Chefão (The Godfather – EUA, 1972)
Direção:
Francis Ford Coppola
Roteiro: Mario Puzo, Francis Ford Coppola
Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton,  Richard S. Castellano, Sterling Hayden, John Marley, Richard Conte, Al Lettieri, Abe Vigoda, Talia Shire, Gianni Russo, John Cazale
Duração: 175 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.