Crítica | O Poderoso Chefinho

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estrelas 2,5

Um dos grandes e mais comuns receios de pais prestes a ter seu segundo filho é como o primogênito irá reagir à inevitável divisão da atenção com esse novo membro da família. Naturalmente que, quando o primeiro ainda é criança a situação se complica ainda mais, visto que não só ele precisa entender que o mundo não gira em torno de si, como começa a questionar sobre a origem dos bebês. O Poderoso Chefinho lida justamente com essas questões, trazendo mais uma leitura criativa sobre os diferentes aspectos de se ganhar um irmãozinho, algo que Cegonhas também trabalhara em 2016.

A história é narrada em off com um tom de flashback por Tim (com a voz adulta de Tobey Maguire e criança de Miles Bakshi) e nos conta sobre o grande acontecimento que mudou sua vida: quando seus pais tiveram outro filho. O protagonista nos conta que sua vida era perfeita, recebendo plena atenção de seus pais, que brincavam com ele constantemente, participando de suas grandes aventuras imaginárias. Evidente que ele enxergaria a chegada do bebê com relutância, especialmente por haver algo claramente estranho em relação a ele, que chega na casa de táxi, usando terno e com uma maleta. Tim precisa, então, se habituar à presença desse novo membro da família, enquanto descobre que ele conta com um plano envolvendo o trabalho de seus pais.

Um dos aspectos mais interessantes de O Poderoso Chefinho (péssimo título, já que o bebê é um empresário e não um gângster) é como a história pode não ser nada mais que parte da vívida imaginação do protagonista. De início presenciamos suas brincadeiras, com a animação em computação gráfica sendo substituída por uma mistura (ainda digital) de animação tradicional com a 3D, dando vida à sua explosão de criatividade, nos entregando as que certamente se configuram como as melhores sequências do longa-metragem. Isso, portanto, nos prepara para o que está por vir, dando a ideia de que toda a aventura e até mesmo o comportamento do pequeno irmão não passa da criativa percepção de Tim sobre a chegada do bebê. E, como deveria ser, em momento algum temos certeza desse fato, tornando a narrativa mais profunda.

Infelizmente, a profundidade de sua premissa morre no desenvolvimento do enredo, que assume um grande teor de previsibilidade. Somente de ouvir a sinopse do filme já sabemos de imediato um possível caminho que ele poderá seguir, claro, e chega a ser triste constatar que o roteiro se mantém exatamente nessa estrada, não nos entregando absolutamente nada de novo, à exceção de algumas gags envolvendo o comportamento do Boss Baby. A construção desse universo imaginário, no qual as crianças vem de uma fábrica, portanto, é desperdiçada, a favor da velha história que já cansamos de ver nos mais diversos filmes de inúmeros gêneros.

A animação em si também não nos oferece nada de novo, não representando nenhum grande avanço tecnológico, o que não chega a ser um defeito, apenas um fato. Afinal, a técnica já se aprimorou muito desde Toy Story (ou Cassiopeia) e, naturalmente, novos avanços se tornam cada vez mais difíceis, ainda que exista, sim, espaço para o crescimento, especialmente em relação à texturas líquidas. O trabalho dos animadores, portanto, cumpre seu papel aqui, transmitindo o grau de “fofura” necessário para que o público se encante com os bebês que vemos no longa, cuja inteligência nos remete imediatamente a Bebês Geniais.

O grande trunfo da obra é aquilo que já esperávamos: a voz de Alec Baldwin. Escalar o ator como dublador original do Boss Baby é simplesmente uma jogada magistral, garantindo o tom irônico perfeito em seus diálogos. O melhor é que Baldwin não tenta mascarar sua voz com um tom mais infantil e a emprega como ela é na realidade, o que certamente garante algumas boas risadas durante a obra. Infelizmente, o caminho previsível da trama diminui a ocorrência de ótimas situações como a da revelação sobre o bebê ser um empresário, sequência, a qual, é mostrada nos trailers. Dito isso, a narrativa assume um teor repetitivo, que rapidamente cansa o espectador.

O Poderoso Chefinho, portanto, é um daqueles clássicos exemplos de uma ótima e divertida premissa sendo transformada em um filme comum, que parece ter vindo direto de uma fábrica tamanha é a falta de ousadia do roteiro em inovar. Por mais que nos entregue alguns trechos bastante cômicos e outros que fazem um belo uso da criatividade de seu personagem principal, o filme acaba cansando, ganhando nada mais que apatia do espectador, que não mais consegue se envolver com a progressão do enredo. Uma verdadeira pena, já que Alec Baldwin como um mini-empresário usando fraldas, que cai no sono de vez em quando, contava com muito potencial.

O Poderoso Chefinho (The Boss Baby) — EUA, 2017
Direção:
 Tom McGrath
Roteiro: Michael McCullers (baseado no livro de Marla Frazee)
Elenco: Alec Baldwin, Steve Buscemi, Jimmy Kimmel, Lisa Kudrow, Tobey Maguire, Miles Christopher Bakshi, James McGrath, Conrad Vernon, ViviAnn Yee
Duração: 97 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.