Crítica | O Porto (2011)

Dirigido pelo finlandês Aki Kaurismäki, O Porto (2011)  aborda de maneira quase fantasiosa a questão da imigração ilegal na Europa. Distanciando-se do pessimismo corrente nos filmes do gênero, o cineasta entrega uma colcha de retalhos cinematográficos para o espectador, o que torna o filme delicioso para um cinéfilo e talvez pouco compreensível para “não iniciados”. Além disso, as referências culturais e históricas podem passar batido para um público pouco conhecedor dessas questões, o que não é algo ruim, apenas um fato. Mas apesar de toda delícia cinéfila, O Porto tropeça porque aposta todas as fichas no subjetivo de seus pontos de cisão e muito nas reações do espectador. As feições propositalmente inexpressivas dos atores, a “atuação-jogral” e o verniz fantástico do filme podem travar um pouco a experiência e impedir que a mensagem chegue de maneira fluída para o público.

A luz difusa e artificial de Timo Salminen, fotógrafo habitual de Kaurismäki, nos engana em seu propósito dramático. O filme é pintado como um produto sombrio, desesperançoso e melancólico. A direção de atores, milimetricamente direcionada para o amadorismo, ajuda a firmar essa intenção geral de um mundo de idiotas que falam pausadamente, imaginando que discursam para um grande público. Mas essa cor geral é uma farsa. Uma farsa que começa no nome do protagonista, Marcel Marx e termina quando toda a história desemboca em um final feliz, sob a imagem de uma cerejeira em flor. Marcel Marx é um engraxate que protege um garoto gabonês ilegal na França. Sua esposa, Arletty, está muito doente e ele passa a viver em prol de ajudar tanto a um quanto a outro necessitado.

O personagem é uma homenagem a Marcel Carné, diretor de Cais das Sombras (1938), filme que se passa em Le Havre, a mesma região onde transcorre a trama de O Porto. É também em homenagem a Marcel Carné que o nome da esposa do protagonista é Arletty, personagem encantadora de diversos filmes do diretor francês, dentre eles, Os Visitantes da Noite (1942). Idrissa, o garoto gabonês, homenageia um dos poucos diretores africanos bem aceitos na França, o burkinense Idrissa Ouedraogo, diretor de Yaaba (1989), longa que recebeu o mesmo prêmio que O Porto, em Cannes, o prêmio FIPRESCI. Vale ainda lembrar as nuances de Jean Vigo no filme, a homenagem ao pintor Monet e à cadela Laika, o primeiro ser vivo a orbitar o planeta Terra (Laika é o nome da cadela de Marcel Marx, que é Marx tanto em referência ao co-autor do Manifesto, quanto à forma humanista e fraterna de ver o mundo, de Groucho Marx). E como última relação interna, Kaurismäki cita ele mesmo referindo-se a um filme seu de 1992, La Vie Bohème, onde o mesmo André Wilms de O Porto interpretava um artista boêmio de nome Marcel. Em dado momento do filme, ele diz a Idrissa que no passado, vivia como um artista boêmio em Paris…

Nesse mar de referências e ligações históricas, culturais e cinematográficas, Marcel Marx (André Wilms) encarna um Jacques Tati social e de pouca fala, e faz o mesmo papel social que o professor de natação em Bem-Vindo (2009), outra obra tocante sobre o translado de imigrantes da França para o Reino Unido. No desenrolar do roteiro, as questões pessoais alternam a importância com a luta de africanos e orientais para permanecerem no país das luzes. Os discursos xenófobos do Ministro da Imigração e do Interior, Claude Guéant, podem ser ouvidos na televisão enquanto manifestações são dispersas com violência pela polícia.

Ao mesmo tempo que traz à tona um cinema quase poético, romântico, fantástico-realista, Kaurismäki critica duramente a posição do governo de Nicolas Sarkozy frente à imigração e o tema, como se sabe, tem sido debate nas mais diversas organizações pelo mundo todo. Só no ano de 2011 foram deportados da França quase 33000 imigrantes. Sob a declaração de que “a França não é um campo de refugiados”, o racismo e a intolerância política de certos grupos soaciais parecem não ter fim. Kaurismäki, que já boicotou duas vezes sua indicação ao Oscar (em 2003 e 2007), por não concordar com a Guerra do Iraque e por oposição ao presidente George W. Bush, volta seus olhos para um problema local e filma-o de uma maneira impessoal, emotiva, simbólica e otimista. O resultado pode ser visto de diversas formas, dependendo da relação do espectador com a Sétima Arte e sua recepção para filmes que receberiam aplausos de Górki, Kafka e Brecht. No mínimo, uma obra que vale a pena ser vista.

O Porto (Le Havre) – Finlândia/França/Alemanha, 2011
Direção: Aki Kaurismäki
Roteiro: Aki Kaurismäki
Elenco: André Wilms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin, Blondin Miguel, Elina Salo, Evelyne Didi, Quoc Dung Nguyen, François Monnié, Little Bob, Pierre Étaix, Jean-Pierre Léaud, Vincent Lebodo, Umban U’kset, Patrick Bonnel
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.