Crítica | O Povo contra George Lucas

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estrelas 4

George Lucas é um dos diretores mais conhecidos de toda a Hollywood, sua fama não é devida a sua cinematografia, afinal, ela não é grande o suficiente para construir a carreira que o criador possui. Todo o nome dele veio devido à saga Star Wars. O primeiro filme, lançado em 1977, revolucionou o cinema, criando filas nunca antes vistas, estabelecendo muitos conceitos de linguagem e narrativa que viriam a ser padrão nos anos vindouros.

As suas continuações, lançadas em 1980 e 1983, também não foram nada mal, fazendo com que a saga dos Skywalker ganhasse uma legião de fãs pelo mundo todo. Lucas, sabiamente, soube capitalizar muito bem todo esse sucesso, abdicando de seu salário como diretor e preferindo obter todos os direitos de merchandising da franquia.

Milhões de produtos foram feitos. O público queria, de certa forma, fazer parte de toda a saga e via, nos brinquedos, uma oportunidade de levar para casa um pouco da galáxia distante. Essa participação do fandom não ficou restrita apenas à compra de bonecos, ela transbordou para a criação de fanfilms, blogs, paródias, cosplays e muitas outras coisas. Esse envolvimento com a obra criou um comprometimento de receptor com o emissor, nunca antes visto. Todos que amavam Star Wars, adoravam George Lucas.

E é sobre isso que todo o começo do documentário dirigido por Alexandre O. Philippe se trata. Esse primeiro capítulo mostra a força que esses filmes tiveram em toda uma geração, contribuindo para a criação de muitos que hoje são roteiristas, cineastas, comunicadores e etc. O diretor também dedica boa parte da narrativa para mostrar o amor das pessoas para com o criador de tudo isso, George Lucas.

A segunda parte do filme dedica-se a narrar um dos acontecimentos mais polêmicos para a saga. Em 1997 o criador decidiu refazer algumas cenas do seu filme, para ele Star Wars estava ficando desgastado com o tempo e com o advento da tecnologia, muitos dos efeitos tidos como ultrapassados poderiam ser refeitos, deixando assim o filme mais atual.Mas George esqueceu de avisar para os fãs que ele adicionaria algumas cenas e alguns detalhes dentro dos longas. Algo que parece tão efêmero para uma pessoa que não é admiradora da obra teve, e ainda tem, um impacto enorme dentro do fandom.

Com toda a certeza essa é a parte do documentário que tem o roteiro mais bem elaborado, aqui entra- se em uma discusão muito válida, um filme, ou obra de arte, pertence ao seu criador ou ao público? Alexandre O. Philippe, que também é o roteirista, faz muito bem em mostrar às pessoas que defendem que o filme pertence aos fãs e, como contraponto, pessoas que preferem dizer que aquilo é do seu criador.

Se as mudanças são polêmicas, os prequels são uma unanimidade. Alexandre mostra, em seu terceiro capítulo todo o ódio que os fãs tiveram, e ainda tem, para com os episódios I, II e III. Chega a ser engraçado ver a empolgação dos mesmos antes dos filmes serem lançados, filas enormes em cinemas só para ver o trailer e um comentário de um amante da saga que dizendo “Deus deve estar triste porque viu que alguém conseguiu criar algo tão bom”.

Todo esse hype criado caiu por terra quando o filme foi para as telonas. Aqui o roteiro vai muito bem novamente, ao invés de simplesmente focar na raiva do fandom,  o roteirista procura entender o porquê todos não gostaram do filme que estavam tão aflitos para ver. Alexandre O. Philippe acerta em dizer que seria impossível criar um filme que fosse tão impactante quanto os primeiros, devido ao público, que agora mudou e está mais velho, entre outros fatores.

Também deve-se comentar à respeito da montagem do documentário. Feita por Chad Herschberger a edição é essencial para o estilo dinâmico de narrativa que Alexandre quer contar. Vemos diversos planos de convenções, fanfilmes, paródias e vídeos da internet intercalados com os narradores, esses que são, em sua maioria, envolvidos com Star Wars, sendo por livros, documentários ou blogs. Vale mencionar que o roteirista e diretor Alexandre O. Philippe não aparece durante todo o longa.

No final vemos aquele diretor, que era chamado de O Criador, se transformar em uma das figuras mais odiadas de toda a Hollywood. Muitos dos depoimentos chegam a comparar a trajetória de Lucas com a do próprio Vader, dizendo que ele se tornou aquilo que ele tanto combateu, referindo-se as grandes corporações, que George tanto lutou contra no início de sua carreira.

É triste ver como um diretor que deveria ser admirado pelo seu trabalho, que impactou de forma positiva tantas vidas, ser julgado e condenado por algumas escolhas de sua carreira. Documentários como O Povo contra George Lucas nunca foram tão atuais, em tempos em que pessoas destilam seu ódio pelos dedos ao digitar, a reflexão que o longa deixa no final é muito válida; Antes de criticarmos alguém, sendo ela o que for, devemos sempre pensar que por trás daquele cargo existe um sujeito que assim como nós, tem sentimentos e merece ser respeitada.

O Povo contra George Lucas ( The People Vs George Lucas) — EUA, 2011
Direção: Alexandre O. Philippe
Roteiro: Alexandre O. Philippe
Com: Joe Nussbaum, Daryl Frazetti, Doug Jones, Damian Hess, Richie Mehta, Brian Comerford, Anthony Waye, Derek Ambrosi
Duração: 93 minutos.

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".