Crítica | O Preço de um Homem

estrelas 4,5

A primeira coisa que nos chama a atenção em O Preço de um Homem é o marcante tema sinfônico de Bronislau Kaper para a abertura, onde a paisagem aparece suprema e ao final da qual um veloz movimento de câmera mostra as esporas de Howard Kemp (James Stewart), um dos elementos simbólicos do longa, cujo título original, The Naked Spur, ganha significados distintos dependendo da forma como usamos a palavra “spur”.

Escrito por Sam Rolfe e Harold Jack Bloom, o filme nos mostra uma jornada de interesses e ganância, mais ou menos na linha de O Tesouro de Sierra Madre (1948), mas vai por um outro caminho de exploração psicológica dos personagens, enraizando-os cada vez mais nas montanhas do Colorado e os aproximando do rio, a artéria cênica do momento-chave da obra.

O cuidado de Anthony Mann em explorar os cenários naturais deu a este filme uma figuração poderosa, talvez a mais sombria de seus westerns, por contar, além do isolamento e dominação do espaço natural sobre um diminuto elenco, com temas que de forma muito curiosa se aproximam do tratamento que o diretor dava ao noir, trazendo daí o jogo de personalidades dúbias, a ação da mulher como cicatriz e ao mesmo tempo cura para a vida do herói e discussões ético-morais que se alteram à medida que a jornada avança pelas montanhas e florestas boreais.

O roteiro molda um vilão maquiavélico que através da manipulação individual tenta alterar a sorte a seu favor, mas essa postura final não é única, e a vemos ser tomada por outros personagens da fita, embora não com a mesma astúcia ou métodos. De uma forma ou de outra, todos possuem alguma culpa ou são seduzidos por algo que lhes farão culpados no decorrer do caminho.

A constante tensão é o elemento que liga os vários estágios da fita e o diretor tenta dar uma visão cíclica para esses eventos, tendo no tiroteio em torno e sobre o rochedo a sua imagem principal. O filme, nesse sentido, é bastante simples. O personagem de James Stewart – que entrega aqui uma interpretação estonteante, a mais intensa dos westerns que faria com Anthony Mann – tem um objetivo principal e, durante toda a projeção, esse intento é mantido e que ganha significado, origem e final diferentes do que imaginávamos no início. Embora revestido de simplicidade, Mann faz do longo cainho percorrido pelo quinteto protagonista uma espécie de penitência cujo término trará morte para alguns e possível felicidade para outros.

O único ponto inaceitável de O Preço de um Homem é o seu final. Após a rudeza e crueza da ganância, valor e desvalorização da vida, traições e paranoia, vemos uma remissão fácil, apaixonada e destoante demais de todo o restante. Diferente do final de Região do Ódio, onde também temos uma remissão, o personagem de O Preço de um Homem dá o seu passo para a felicidade de forma quase banal, uma iniciativa que surtiria melhor efeito se fosse apenas sugerida e não exposta na tela como a caminhada lado a lado do improvável casal. Embora isso não tire o mérito do excelente trabalho de Mann no filme, esta é uma nota dissonante que não passa batido pelo público e dificilmente não será criticada.

Dominados por uma ideia fixa, fugindo do passado ou caminhando em direção a um futuro promissor, o quinteto de O Preço de um Homem encarna a luta e a teimosia de pessoas que já perderam demais e vêm a salvação na primeira (e talvez última) oportunidade possível. Essa possibilidade de agarrar a todo custo a “chance de ouro” é inserida num cenário selvagem, como se fosse preciso um ritual de passagem para chegar ao local onde a riqueza e a felicidade estariam. Anthony Mann retrata o desespero e a busca de pessoas com motivações diferentes e mostra-nos o quão distintos podem ser o status final daqueles que em algum momento sonharam com a mesma recompensa: uma vida feliz.

O Preço de Um Homem (The Naked Spur) – EUA, 1953
Direção:
Anthony Mann
Roteiro: Sam Rolfe, Harold Jack Bloom
Elenco: James Stewart, Janet Leigh, Robert Ryan, Ralph Meeker, Millard Mitchell
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.