Crítica | O Preço de Um Resgate (1996)

Que interesse nos guarda um filme comercial que tem como premissa um sequestro – e nada mais que isso? Talvez mais do que qualquer outro subgênero, o thriller criminal acabou sendo alvo de uma espécie de banalização audiovisual por meio dos eternamente produtivos seriados norte-americanos que, por vezes com mais e por vezes com menos inspiração bombardeiam as telas domésticas com inúmeras tramas sobre as mais diversas infrações ao código penal local. No cinema comercial, a impressão que se tem é que a temática policial foi cada vez mais favorecendo sequências escalafobéticas de ação em detrimento à construção mais cuidadosa de tensão e ao drama, salvo uma ou outra investida mais situada.

O Preço de Um Resgate se esforça em cativar o espectador e evitar as conhecidas armadilhas do subgênero. Felizmente, a película acerta mais do que erra. Sendo uma adaptação do episódio Fearful Decision da antologia televisiva de Rod Sterling The United States Steel Hour, o filme acaba se caracterizando tecnicamente como um remake de Ransom!, drama de 1956 estrelando Glenn Ford. É destas duas fontes que ele empresta uma de suas tramas centrais: o empresário de sucesso que, mediante o desespero frente às complicações do sequestro do filho, passa a oferecer publicamente o valor do resgate como recompensa por quem capturar o sequestrador – e todo o dilema ético envolvido com a decisão.

Não satisfeita com a proposta, a produção importa ainda elementos de King’s Ransom, de Ed McBain, romance que por sua vez já servira de inspiração ao magnânimo Céu e InfernoObviamente a centenas de anos-luz (de uma) da(s) obra-prima(s) de Kurosawa (que exemplifica o máximo da narrativa que o gênero policial é capaz de construir, afinal de contas), a inserção da subtrama envolvendo um escândalo de corrupção corporativa na já atribulada vida do pai desesperado certamente adiciona ao filme, ainda que ao preço de sua coesão e equilíbrio internos. Explicaremos.

Acompanhamos o caso do sequestro de Sean (Brawley Nolte), filho de Tom Mullen (Mel Gibson), multi-milionário do setor de aviação o qual aparentemente passa por um ótimo momento em sua vida pessoal e profissional, tendo recentemente superado uma questão espinhosa envolvendo chantagem e suborno corporativos. A sequência de introdução é bastante eficiente em nos colocar rapidamente a par de tudo que interessa saber, no menor tempo possível, a respeito da família Mullen. Em um desencontro com os pais em meio a um evento a céu aberto organizado por sua mãe Kate (Rene Russo), a criança acaba sendo levada pela funcionária dos eventos da família Maris Conner (Lili Taylor).

O diretor Ron Howard continua em boa fase, após os acertos de O Jornal Apollo 13. Deste último, o diretor traz novamente a precisão em construir a tensão de forma orgânica e convincente, trilhando a linha fina entre o drama-entretenimento e o absoluto desconforto. São vários os momentos em que o desespero tangível dos Mullen consegue estreitar a distância entre o espectador e os personagens, que através destas boas explorações conseguem efetivamente se situar em um drama e não serem apenas dispositivos para construção dos suspenses e viradas e da trama policial, que de resto permanece central e sólida pela maior parte da duração do filme.

De início, o corte da perspectiva do apartamento do casal para o cativeiro de Sean – mostrando um grupo de criminosos totalmente inábeis e desconfortáveis com a situação – parece ser uma má ideia, no sentido em que sabota momentaneamente toda a tensão e o mistério bem construídos com o anúncio terrificante do sequestro (via e-mail de 1996 – aquele que te liga pra te avisar que você tem um e-mail!). Porém a opção dá frutos mais à frente, logo após descobrirmos a real identidade do cabeça da operação, o detetive Jimmy Shaker (Gary Sinise) (revelação fantástica que infelizmente fora arruinada para qualquer um que houvesse visto o trailer antes de assistir ao filme – não é de hoje que aprontam dessas!).

A opção por acompanhar a dinâmica do grupo de criminosos acaba servindo bem à história, em especial para auxiliar na caracterização de Shaker, uma vez que o roteiro acaba se desenvolvendo no sentido de um antagonismo pessoal entre o detetive corrupto e o empresário que de repente se vê sem nada a perder. Escolha arriscada, que se sustenta pela ótima construção de personagens. Neste ponto cabe apontar que o afinamento diretorial de Howard é mais que bem servido pelo roteiro de Richard Price. Veterano dos romances policiais, o escritor já colecionava no curriculo cinemático bons roteiros do gênero como A Cor do Dinheiro e Irmãos de Sangue. Ainda não se convenceu do cacife do cara? Seu trabalho não apenas seria citado como inspiração para a criação de The Wirecomo ele viria a roteirizar para a série a partir de sua 3ª temporada. Posteriormente, ele seria co-criador e roteirizaria The Night Of. Ou seja, seu importante envolvimento na produção destas duas obras-primas do drama criminal para a televisão (diametralmente opostas dos enlatados ao qual me referia no início do texto) garante que os momentos de brilhantismo de O Preço de um Resgate certamente devem muito à escrita de Price.

No campo da atuação, mercem óbvio destaque tanto Gibson quanto Sinise. Gibson consegue convencer bem em um papel que minimiza a ação em favor de uma posição passiva e de desesperança –  ainda que a película acabe por não bancar isso até o fim, decisão que sai cara (mais sobre isso a seguir). Já Sinise, vindo da indicação ao Oscar pelo inesquecível Tenente Taylor de Forrest Gumpencarna muito bem o Detetive Shaker, talvez o personagem mais bem construído do filme. Shaker chama a atenção por ser um sujeito absolutamente medíocre, envolvido em delírios de grandeza justificados por um senso ético torto, cujo absurdo o roteiro não se furta a adereçar. O legal dele é que ele ao mesmo tempo é e não é o terrível vilão que pensa ser – aquele que acredita ser o herói da própria história. Por entre o sequestro aparentemente à prova de falhas e as narrativas apavorantes de que se serve para aterrorizar Mullen (destaque para a criativa parábola com A Máquina do Tempo de H.G. Wells), vemos que o personagem é movido menos por suas ideias auto-engrandecedoras do que por um senso psicopático de vencer a todo custo – que encontra justamente sua contraparte no self-made man imprudente e sem escrúpulos que se revela ser sua vítima.

Mesmo com todas essas qualidades, o filme acaba por escorregar em alguns pontos. A trilha sonora é um dos mais gritantes. Não é raro que cenas bem escritas e bem dirigidas acabem minadas por um score altíssimo absurdamente invasivo, que rende contornos de drama barato a momentos que poderiam genuinamente se sustentar por si mesmos. Detalhe de edição que acaba por fazer muita diferença. Isso é bem marcado na cena do rapto de Sean, que já abusa de pistas visuais explícitas para retratar o desaparecimento do garoto, mas acaba por recorrer a um acompanhamento musical que redundantemente alerta ao espectador “Fique preocupado, veja só que angustiante!”. O mesmo podemos dizer da cena em que Mullen se dirige ao telhado do prédio onde mora, aparentemente contemplando suicídio após ter falhado em negociar com o sequestrador em um acesso de fúria. A música quebra totalmente o clima da cena, forçando a mão ao tentar deixar explícito o turbilhão de sentimentos que melhor ficariam expostos na crueza da cena por si mesma.

O outro grande pecado do filme é de natureza estrutural e, em alguma capacidade, de roteiro. Se por um lado dissemos que o início do filme é bastante eficiente em nos apresentar e contextualizar nosso protagonista, o peso dado ao escândalo corporativo neste ato inicial acaba não trazendo nenhum payoff para além da visita ao sindicalista que serviu de bode expiatório para livrar o pescoço de Mullen no caso, que se dá já no início do segundo ato. Ou seja, embora arme uma subtrama interessantíssima, na qual vemos que Tom Mullen se vê perseguido por esse fantasma de seu passado ao ponto de pensar que o sequestro se trata de uma retaliação, a coisa toda acaba abandonada antes de chegarmos à metade do filme, o que causa uma justificada estranheza ao espectador.

Por sua vez, após o excelente desfecho do sequestro e subsequente resgate de Sean, o filme arrasta mais vinte minutos finais que conseguem até construir uma tensão envolvente ao espectador sedento por um acerto de contas mais resoluto entre os antagonistas, mas que acaba por ser um desserviço ao roteiro no seu todo, apelando para uma perseguição forçada e um mano a mano entre Tom e Jimmy. Embora seja uma sequência de ação muito bem dirigida (sem apelar para os lugares-comuns e exageros característicos), o tom violento e frenético da coisa mais uma vez peca por abandonar a sutileza em direção ao explícito.

Depois do xadrez mental (ou seria truco?) acirrado entre os oponentes, seria interessante um desfecho no qual Tom vencesse Jimmy em seu próprio jogo, como vinha tentando fazer até então – inclusive às custas de tomar uma decisão tão imprudente como aquela que justificadamente fez com que caísse no desgosto popular (recusar-se a pagar o resgate em favor de uma recompensa pela cabeça do sequestrador). O confronto entre eles já era visceral o suficiente, sem precisarmos partir para as vísceras de fato – mas afinal de contas falamos de um blockbuster policial, e como poderíamos passar sem uns carros danificados e trocas de tiros pelas ruas? O standoff psicológico do sequestro dá lugar ao standoff de fato da sequência final, o que significa não que a coisa encerre mal (porque a sequência é, sim, muito boa), mas que faltando aproximadamente vinte minutos para se encerrar, o filme já entregou o que tinha de melhor a oferecer, dando à coisa toda um inusitado ar anti-climático.

No balanço final, O Preço de um Resgate traz um thriller criminal com pitadas de drama que funciona bem mais do que poderia, apoiado em um roteiro sólido, direção cuidadosa e atuações no geral bastante afinadas. Em termos de estrutura, peca por um início que se delonga em temas que acabam jogados para escanteio e um terceiro ato que prorroga o conflito final para além de seu desfecho mais dramaticamente impactante, em favor de uma confrontação mais genérica. Ou seja, um recheio que por vezes é brilhante e na maior parte do tempo definitivamente entretém, entre duas fatias de pão um tanto mal trabalhadas, mas que felizmente não arrastam os méritos da película além do necessário. Uma trama tensa, convincente e bem construída, que conta com uma boa cota de bons personagens em um elenco enxuto e bem aproveitado, valendo ser conferido ou revisitado por aqueles que buscam uma história policial envolvente.

O Preço de Um Resgate (Ransom) – EUA, 1996
Direção: Ron Howard
Roteiro: Cyril Hume, Richard Maibaum, Richard Price, Alexander Ignon
Elenco: Mel Gibson, Rene Russo, Brawley Nolte, Gary Sinise, Delroy Lindo, Lili Taylor, Liev Schreiber, Donnie Wahlberg, Evan Handler
Duração: 121 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.