Crítica | O Presente

estrelas 3,5

Histórias de vingança podem ser a melhor ou a pior coisa do mundo. Podem ser estimulantes e inesperadas como é o caso de Oldboy, ou patéticas e genéricas como é o remake de Oldboy. De qualquer maneira, é sempre sábio se esconder de muitos detalhes da trama, e a dica é fundamental para este O Presente, estreia de Joel Edgerton como diretor.

Assumindo também a função de roteirista e protagonista, Edgerton interpreta um tal Gordo Mosley, uma figura que passa a se tornar particularmente obcecado com o casal Simon (Jason Bateman) e Robyn (Rebecca Hall), quando se mudam para sua cidade, visto que Simon era seu colega de ensino médio. O casal é constantemente surpreendido com presentes amigáveis do sujeito em sua casa, até que… Bem, é um suspense, então pode ter certeza de que as coisas não ficarão assim.

Primeiramente, é admirável o talento de Edgerton como roteirista. Ainda que não seja uma história que grite originalidade, e a reviravolta que explica a relação de Gordo com Simon não impressione tanto, é um texto meticuloso e bem estruturado. Diversos elementos e viradas na história podem ser sutilmente previstos através de pequenas pistas em diálogos e imagens, como quando Gordo retoma a campanha de presidente da turma de Simon, com o bordão “Simon says” – algo que revela-se pivotal no terceiro ato – ou a aparentemente gratuita referência ao medo que o protagonista tem de chimpanzés. Edgerton sem dúvida leu os manuais de Syd Field com muita atenção, sendo ousado ao trazer uma conclusão ambígua para a trama.

Como diretor, Edgerton revela-se igualmente sábio. Aposta em planos mais fechados e que explorem o interior quase que claustrobófico da casa de Simon e Robyn, ao mesmo tempo em que os diminui abruptamente em cenas em que temos o casal diminuto atrás da janela de um edifício, em um plano muito mais aberto. Sua lógica é simples, mas muito eficiente, como a engenhosa rima visual que traz Simon e sua esposa separados por uma janela de vidro em dois momentos distintos da produção; cada um com um significado radicalmente diferente, sobrando até uma clara referência a O Poderoso Chefão.

A tensão vai lentamente se construindo, até alcançar um clímax realmente enloquecedor, especialmente com o suspense e lentidão para se abrir um determinado pacote e a trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans é de um crescendo arrepiante; vale também apontar o uso genial que o longa faz de “Ride of the Valkyries”, citando também o clássico Apocalypse Now. Da mesma forma, funciona a performance de Edgerton, que jamais se entrega ao caricato ou algo essencialmente antagônico, mas sua figura consegue transitar com facilidade de “ameaça” para “compaixão” com naturalidade impressionante. Bateman surge com sua típica persona do homem de negócios ambicioso, mas cujo lado oculto se manifesta de forma fascinante, e Hall limita-se a fazer de Robyn uma vítima, mesmo quando sua personagem passa a tomar controle da situação.

O Presente é uma bela surpresa e um exercício eficaz para que Joel Edgerton trabalhe suas habilidades como diretor e roteirista, ainda que não seja uma história totalmente original ou surpreendente. Mas enfim, já é um trabalho acima da média e que deve garantir novas e empolgantes possibilidades para Edgerton.

O Presente (The Gift, EUA – 2015)

Direção: Joel Edgerton
Roteiro: Joel Edgerton
Elenco: Joel Edgerton, Jason Bateman, Rebecca Hall, Allison Tolman, Tim Griffin, Busy Philipps, P.J. Byrne
Duração: 108 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.