Crítica | O Primeiro Homem

Em seu quarto longa e o primeiro não relacionado de alguma forma com música, o jovem prodígio Damien Chazelle aborda de maneira muito íntima uma cinebiografia que surpreendentemente ainda não havia sido feita, a do americano Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua. O resultado é um belo tour de force técnico que, devido a escolhas conscientes de Chazelle e do roteirista Josh Singer, que se baseou em biografia escrita por James R. Hansen, parte de um evento traumático na vida do protagonista, faz o filme girar muito próximo dele e, interessantemente, acaba sem que efetivamente conheçamos muito mais desse personagem histórico.

Na verdade, se pouco aprendemos sobre Armstrong, absolutamente nada absorvemos dos demais personagens que gravitam ao seu redor, já que nenhum deles, nem mesmo Janet Armstrong, sua esposa vivida por Claire Foy, ganha um arco narrativo. Mas vejam o que afirmei acima: trata-se de uma escolha que, creio, deveu-se muito mais ao quão famoso é o feito de Armstrong (que não é só dele, claro, mas ele representa esse pequeno passo para o homem que é um grande salto para a humanidade), pelo que uma pegada diferente talvez fosse necessária mesmo. É algo diferente de, por exemplo, Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo, já que, por ser um evento razoavelmente menos conhecido, poderia beneficiar-se de uma abordagem mais tradicional, com a boa e velha estrutura de apresentação dos personagens, constatação dos dramas pessoais de cada um e a utilização desses elementos para a construção do esforço de equipe. Em O Primeiro Homem não há nada disso, só Neil Armstrong.

O que Chazelle faz aqui, portanto, está longe do tradicional, bastando para isso percebermos o quanto ele mantém as câmeras próximas aos rostos de seus personagens, em incômodos close-ups que nos colocam investigando feições à cata de sentimentos. Nesse sentido, Ryan Gosling, na segunda parceria com o diretor, mas dessa vez longe da cantoria e da dança (apesar de um flerte de alguns segundos em uma conversa à mesa), foi a escolha acertada para o papel em razão de sua impassividade clássica. Gosling, assim como Clint Eastwood quando jovem, está em seu metiê quando trabalha personagens soturnos, introspectivos, com um quê de mistério, algo que pode ou não ser ditado por sua latitude dramática. Com isso, o ator consegue manter seu personagem fechado em si mesmo a sete chaves, com sentimentos aflorando apenas em função do referido evento traumático (e outros de natureza semelhante que se avolumam), o que se reflete em sua dedicação e força de vontade nos duros treinamentos como astronauta. Neil Armstrong, portanto, é um personagem que tem uma jornada personalíssima e pode dar a impressão de que não há muito desenvolvimento, mas há, com uma bela, ainda que discreta, catarse ao final, no silêncio completo da Lua.

Esse lado extremamente pessoal da abordagem do roteiro é também refletido na maneira com que Chazelle tira o glamour do programa espacial, desmistificando-o. Mas que fique claro que ele jamais o subestima ou diminui, apenas o trata de maneira humanizada, minimizando o destaque do heroísmo clichê e focando na feiura dos detalhes dos interiores das cápsulas dos foguetes, com seu espaço claustrofóbico, rebites e fios à mostra e uma profusão enlouquecedora de botões, luzes e alarmes. Vale como exemplo maior disso a forma “suja” como seguimos o voo da Gemini 8, que tem a função de fazer o primeiro acoplamento em órbita da Terra. Acompanhamos a decolagem e toda a operação integralmente a partir do interior da cabine, por vezes em primeira pessoa, mas normalmente em terceira, só que em extrema proximidade aos tripulantes, o que nos coloca naquele terrível espaço confinado da lata de sardinha voadora, com todo o sacolejo interminável e as verdadeiras explosões que são os foguetes entrando em ignição.

Assim, esqueçam por completo o romantismo lírico de 2001 – Uma Odisseia no Espaço ou o realismo heroico de Gravidade. O que há é, pura e simplesmente, o caos, algo que Janet, gritando com o controlador de voo Deke Slayton (Kyle Chandler), classifica como “um monte de protocolos e procedimentos para fingir que há alguma ordem”. A fotografia de Linus Sandgren, também na segunda parceria seguida com Chazelle, só tem chance de trabalhar planos abertos com mais constância quando Armstrong e Buzz Aldrin (Corey Stoll) pisam na superfície lunar, um momento de calma após as infernais sacudidas que nem filmes baseados em found footage costumam ter (mas que, como dito, fazem todo sentido aqui, mais do que nos found footage da vida, diria…).

Aliás, Sandgren também é importante na transposição do estado de espírito perene de Armstrong para o jogo de chiaroscuro da grande maioria das sequências interiores, normalmente na residência do protagonista e, também, na determinação de uma paleta de cores lúgubre, entristecida mesmo, que torna o filme todo pesado. Isso somado aos close-ups e à “câmera na mão” emprestam uma atmosfera inesperada para uma obra sobre um dos grandes feitos do Homem. E essa é mais uma forma que Chazelle tem para diferenciar O Primeiro Homem de “outros filmes de astronauta”, mas sem que isso seja um artifício divorciado da escolha narrativa. Muito ao contrário, claro.

No entanto, o somatório do que o diretor procura fazer com sua ambiciosa obra a torna cansativa. O peso que ele imprime à abordagem pessoal do drama de Armstrong não é um fardo fácil de ser carregado e a película perde energia depois da sensacional sequência da Gemini 8, até a missão Apollo 11, com sequências que ou se estendem demais ou que tematicamente se repetem. São aqueles 20 ou 25 minutos que esticam a projeção para além do tempo ideal, tentando estabelecer apreensão para o voo final, mas sem conseguir. E não é nem o caso de uma montagem mais dinâmica, pois o filme não pede isso em momento algum, mas sim, apenas, o encurtamento da progressão narrativa entre um ponto e outro, considerando que o grande momento que todos esperam é justamente a alunissagem e ela vem, talvez, um pouquinho mais tarde do que deveria.

Mas não há dúvidas que Chazelle conseguiu novamente, mesmo estando completamente fora de sua zona de conforto. O Primeiro Homem não é exatamente um filme que tem como objetivo empolgar ou mesmo tornar seu biografado um livro aberto, mas sua visão introspectiva e sobretudo humana sobre uma das personalidades mais – e, ao mesmo tempo, menos – conhecidas da história moderna é original e terna, triste, mas esperançosa. Não é a obra que esperamos, definitivamente, e isso é o sinal mais do que positivo de um diretor que não quer apenas entregar o óbvio e que não tem medo de arriscar e, quiçá, errar.

O Primeiro Homem (First Man, EUA – 2018)
Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Josh Singer (baseado em biografia de James R. Hansen)
Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler, Corey Stoll, Patrick Fugit, Christopher Abbott, Ciarán Hinds, Olivia Hamilton, Pablo Schreiber, Shea Whigham, Lukas Haas, Ethan Embry, Brian d’Arcy James, Cory Michael Smith
Duração: 141 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.