Crítica | O Primo Basílio, de Eça de Queirós

Recentemente (2017), durante um debate sobre o plano de ensino de uma das unidades do calendário escolar, uma estudante foi bem assertiva: “Meu Deus, estas obras só falam de adultério?”. Referindo-se ao ciclo de contos e romances focados no que os estudos literários chamaram de vanguarda realista, o questionamento de total coerência veio à tona por conta da sequência de obras que debatem, entre tantos temas, a falência de uma poderosa instituição secular: o casamento. Como já havíamos discutido Dom Casmurro e A Cartomante, romance e conto, respectivamente, mais emblemáticos de Machado de Assis, a chegada de O Primo Basílio, do lisboeta Eça de Queirós, veio para complementar os debates.

Contemporâneos, o ácido crítico da realidade brasileira foi o equivalente ao ferrenho crítico da realidade portuguesa. Tendo como projeto apresentar narrativas que fossem o contraponto das fantasiosas produções do movimento romântico na literatura, Machado de Assis e Eça de Queirós, na mesma época, delineavam seus espaços de inserção social, demonstrando como a sociedade ainda era um rabisco do que se almejava ser no “plano das ideias”.

Em O Primo Basílio, o escritor também conhecido por O Crime do Padre Amaro, A Ilustre Casa de Ramires, A Correspondência de Fradique Mendes, entre outros, deflagra a podridão de um lar aparentemente perfeito, faz críticas ao casamento enquanto instituição falida e traz inovações nas técnicas narrativas. Através do uso do tempo cronológico linear, de um narrador onisciente apegado aos personagens e excesso de detalhes na descrição dos ambientes, Eça de Queirós tece a sua crítica ao excesso de imaginação romântica, tendo a personagem Luísa como a representante das confusões entre sentimentos dicotômicos, tais como amor e desejo, figura que adorna a narrativa como um dos arquétipos da falta de moral e respeito que assolava a sociedade lisboeta nos últimos anos do século XIX.

O romance é parte da segunda fase de produção do realista, intitulada pelo crítico literário Carlos Reis como a “Escrita do Real”, fase que compreende os anos entre 1871-1880. Em uma carta para Teófilo Braga, poeta, político e ensaísta português, o escritor expõe as suas ambições no terreno da literatura e nos faz compreender os mecanismos que engendram O Primo Basílio. No documento, o autor alega que a sua ambição “era pintar a sociedade portuguesa e mostrar-lhe como num espelho”, além de ser necessário “acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo agrícola, o mundo supersticioso, e, com todo respeito das instituições que são de origem eterna”, tendo como foco, “destruir as falsas interpretações e falsas realizações que lhes dá o tom de uma sociedade podre”. Como prometido na carta, o autor cumpre tudo no romance.

Publicado pela primeira vez em 1878, O Primo Basílio faz uma radiografia urbana de Lisboa, um complemento da crítica ao país, já que os provincianos tinha tido a sua fatia de crítica bastante suficiente no tenso e revelador O Crime do Padre Amaro. Na agenda realista do autor, havia o interesse em fazer a classe burguesa, alvo das suas produções, ler e se identificar, numa proposta de autoanálise de comportamentos que segundo o seu ponto de vista moralista, degradavam a sociedade.

Irmão de Dom Casmurro e com traços tangentes que dialogam com os fascinantes mundos de Madame Bovary (do francês Flaubert) e Anna Karenina (do russo Tolstói), O Primo Basílio carrega em suas linhas, críticas ao ambiente de futilidades e mesquinharia dos portugueses, além de explorar, através de sarcasmo e ironias, algumas críticas aos comportamentos sexuais das pessoas da época, cutucando, inclusive, temáticas delicadas, tais como a homossexualidade e a religião.

No romance, um lar aparentemente feliz é alvo de problemas. Neste belo lugar, moram Luísa e Jorge. Ela é uma idealista, carregada pela inconsequência e apaixonada, vai cair nas armadilhas do adultério. Jorge, um engenheiro de minas romântico e caseiro, dedicado totalmente ao lar e a sua esposa, precisará viajar por conta do trabalho. Um pouco antes da notícia, Luísa reencontra um antigo “primo”, Basílio, homem que carrega em si bastante charme e simpatia, elementos que compõem e casca da sua verdadeira índole cínica e oportunista, pedante que busca ser parte de um modelo aristocrático de vida, sempre elegante e arrumado, responsável por seduzir Luísa e leva-la a viver uma aventura que mudará a vida de todos os envolvidos.

Típica dona de casa relativamente fútil, Luísa é demasiadamente grossa e impositiva com a sua empregada doméstica, Juliana, personagem descrita por ser o símbolo do tédio ao que faz profissionalmente, uma mulher tida como uma virgem feia e solteira, típica bastarda que, por conta da dependência financeira, culpa a todos pelas mazelas da vida. Mas isso não demoraria muito, pois Juliana tinha planos de ascensão social e a sua patroa não estava sendo cuidadosa como a cartilha moralista daquela sociedade pedia.

Luísa aproveitara a viagem de Jorge para sair com Basílio. O que seria casual acaba por se tornar um tórrido caso. Leopoldina, amiga de Luísa e considerada uma má companhia, parece dar a força que a dona de casa precisa para continuar o caso proibido. Conhecida por ser adúltera e ter vários amantes, a moça é tudo aquilo que a entediada dona de casa não pode ser: livre para sair e curtir a vida sem as preocupações da agenda moralista e patriarcal da sociedade lisboeta do século XIX.

Juliana não perde tempo: um dia, durante a viagem de seu patrão Jorge, ela pega uma carta da patroa na lixeira. O documento continha várias declarações apaixonadas para Basílio. A partir daí, se estabelece um jogo de ameaçar que incluem folgas, dinheiro, descanso e o caos se estabelece na vida de Luísa. O jogo vira e agora Juliana descansa enquanto a patroa precisa dar conta dos serviços de casa. Sebastião, contraponto de todos os personagens, parece ser o único a exalar “moralidade”, sendo o responsável por passar de vez em quando na casa do amigo Jorge para ver se a sua esposa anda bem.

O que acontece no final nos remete aos tantos livros que se referem às mulheres que agiram de forma inadequada segundo os parâmetros de sua época: Jorge descobre tudo, Juliana tem o seu castigo, Basílio é quem se dá bem e continua sendo um galanteador por outras “freguesias” e Luísa, a imoral da história, morre de febre, surtada ao final deste percurso da sua vida, marcado por uma traição que ceifou, literalmente, a sua vida.

A obra causou bastante polêmica quando publicada. Em 09 de março de 1878, no Jornal do Comércio, o crítico Bastos alegou que O Primo Basílio “era uma bela obra de arte, mas um péssimo livro”. A sua crítica, influenciada pelo despreparo da sociedade da época, reprovava a forma como as instituições eram desrespeitadas. Autor, críticos e alguns leitores, todos, navegando nos meandros do “falso moralismo”, no entanto, como estamos diante de uma obra fruto de um período histórico de repreensão dos desejos femininos e hegemonia masculina em quase todos os circuitos discursivos da sociedade, compreende-se a moral pregada no romance. Por vias diacrônicas, dá para se analisar desta forma, entretanto, se olharmos, atentamente, pelo viés sincrônico, teremos como resultado a demonstração de um painel que nos apresenta algumas posturas que só mudaram de nome e lugar, afinal, não precisa ser bastante culto para sentir a onda moralista que tem ganhado bastante espaço ao redor do planeta, inclusive em nosso país, não é mesmo, caro leitor?

Além dos personagens mais centrais, há alguns tipos que circulam pela narrativa e ganham determinada importância para algumas passagens, sendo eles Dona Felicidade, uma beata cheia de convicções religiosas, mas que pouco pratica o que prega; Visconde Reinaldo, típico homem de sua época, figura similar ao dissimulado Basílio; Senhor Paula, o fofoqueiro da rua, homem que juntamente com a sua esposa, transforma os encontros entre Basílio e Luísa no espetáculo diário de sua existência pouco interessante; Julião, um empregado que pode ser pensado como versão masculina de Juliana; Castro, homem que nutre uma paixão platônica por Luísa, não correspondida, entre outros, modelos planos e esféricos construídos plenamente por Eça de Queirós.

O escritor, que nasceu em Póvoa do Varzim, vivenciou muitas transformações políticas, ideológicas, sociais e estéticas. Foi um intelectual do seu tempo, constantemente atento às mudanças culturais da sua geração. Beneficiado pelo romance, gênero literário que os especialistas consideram o melhor suporte para as críticas realistas, Eça de Queirós se configura como um dos poucos que soube delinear bem traços coletivos e individuais da sociedade em que viveu.

O Primo Basílio foi adaptado algumas vezes para o cinema e televisão. A rede Globo lançou a sua versão em 1988, escrita por Gilberto Braga e dirigida por Daniel Filho, cineasta que também assinou a adaptação de 2007, produção homônima que trouxe o enredo lisboeta do século XIX para o Brasil dos anos 1950, em plena era de transformações sociais, contexto histórico bastante interessante para o conteúdo narrativo da produção literária. Há também uma versão portuguesa dirigida por Antônio Lopes Ribeiro e recentemente, o ator londrino Ben Kingsley anunciou que a sua produtora, a Lavender Productions, em parceria com a Nevision, faria uma adaptação televisiva para o romance reconhecido mundialmente.

O Primo Basílio (Portugal, 1878)
Autor: Eça de Queirós.
Editora: Ática – Série Princípios
Páginas: 375.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.