Crítica | O Príncipe Dragão – 1ª Temporada

Você já viu O Príncipe Dragão antes, tendo ou não assistido à nova série animada adquirida pela Netflix. Uma história milenar, um mundo fantástico populado por dragões, elfos, humanos e outros seres em constante estado de aliança e/ou conflito, mágica sendo tão comum quanto oxigênio, atmosfera medieval e a clássica jornada do herói cheia de obstáculos para alcançar um objetivo nobre são elementos básicos de um sem-número de obras nas mais diversas mídias, com sua popularização, na aurora do tempo, propiciada pela imortal bibliografia de J.R.R. Tolkien, hoje oxigenada, reciclada, transformada e reimaginada de infinitas formas em games, obras literárias, filmes e, claro, séries de TV de grande popularidade como Game of Thrones.

A série, cuja 1ª temporada tem apenas nove breves episódios com um arco batizado de Livro 1: Lua, é capitaneada por Aaron Ehasz, mais conhecido como produtor executivo e roteirista principal da cultuada Avatar: A Lenda de Aang e por Justin Richmond, envolvido em capacidades diferentes na franquia de games Uncharted. Sem receio algum de apoderar-se de uma história repleta de personagens e situações que são claramente pinçadas de um pletora de fontes populares, a dupla trabalha arquétipos e clichês de maneira a criar um universo próprio fascinante que é tão diferente quanto familiar, tão particular quanto lugar-comum, mas que se o espectador perdoar – ou acostumar-se – com a escolha da técnica de animação, trará muito divertimento e muitas recompensas em uma daquelas surpresas que entram na grade do serviço de streaming sem alarde e que vão aos poucos achando seu público, como O Vazio.

A mitologia da série, trazida de maneira didática por um prólogo alongado com narração em off, dá o panorama geral do conflito entre os elfos e dragões contra os humanos, depois que, há mil anos, um humano passou a comandar a magia negra, catalisando a expulsão dos humanos da convivência dos demais seres. Mas o catalisador específico da série é a morte do líder dos dragões e do ovo contendo seu herdeiro, com uma equipe de elfos assassinos sendo despachada para matar o Rei Harrow, de Katoli (voz de Luc Roderique). Os eventos que seguem acabam reunindo Rayla (Paula Burrows), uma jovem elfa do grupo assassino, com os príncipes Callum (Jack de Sena), enteado de Harrow, e Ezran (Sasha Rojen), filho do rei, e horrendamente simpático bichinho de estimação Bait em uma urgente jornada até a terra dos elfos para devolver o ovo do dragão – que eles acham de posse de Viren (Jason Simpson), mago e conselheiro do rei – e conseguir trazer paz ao mundo.

O primeiro elemento que salta aos olhos é o quão relacionáveis são os personagens que compõem a trinca principal. Novamente, são personagens que já vimos antes, mas sua concepção é cativante, os trabalhos de voz logo prendem o espectador e a interação entre eles diverte e tem química imediata. Rayla é a guerreira hesitante, Callum é o jovem que deseja ser um mago e Ezran é a inocência encapsulada. Some a isso o alívio cômico que é o emburradíssimo e colorido Bait e pronto, temos uma quadra de ases que carregam facilmente a narrativa composta dos já mencionados obstáculos que eles precisam ultrapassar como em um RPG (aliás, falando nisso, há um gostoso e nostálgico “quê” de Caverna do Dragão na série).

Mas a boa construção de personagens existe também em relação aos demais personagens, demonstrando a preocupação dos criadores da série em cultivar sementes com enorme potencial de germinação. Se o pouco que o Rei Harrow aparece já nos permite entrever seus conflitos internos, suas dúvidas sobre seus atos e os de seus antepassados, Viren, que é o ponto focal no lado “adulto” da narrativa, ganha um desenvolvimento cuidadoso que é em partes iguais um amigo leal do rei e um manipulador por trás de tudo. É particularmente interessante como os roteiros fogem de pintá-lo tão obviamente como um vilão caricato, algo que percebemos por instinto logo no começo, mas que só ganha proporções mais específicas um pouco para a frente. E, curiosamente, os dois filhos de Viren, jovens adultos, são alvo alvo de um detalhamento que eu não esperava, já que a primeira impressão que fica é que eles são apenas meros enfeites. No entanto, na medida em que passamos a conhecer melhor o soldado Soren (Jesse Inocalla) e a aprendiz de feiticeira Claudia (Racquel Belmonte), percebemos os tons de cinza deles, primeiro com seu inusitado uso como alívios cômicos e, depois, com um desenvolvimento que, mais suavemente ainda que Viren, não deixa evidente o lado para o qual eles verdadeiramente pendem.

Outro cuidado dos roteiristas está em emprestar uma formalidade nobiliárquica aos diálogos que combina muito bem com o ambiente criado, mas que, por diversas vezes, é quebrada por intermédio de boas inserções de humor, inclusive várias referências completamente anacrônicas, mas que funcionam perfeitamente bem, como as duas vezes em que a famosa frase “say hello to my little friend“, dita por Al Pacino em Scarface, é inserida no texto. Aliás, apesar de toda a pompa e circunstância da história, que conta com elementos sombrios como morte e tortura, recebe um tratamento leve e realmente gostoso de se assistir, com uma cadência próxima da perfeita que, ao final dos nove episódios, deixa um gostinho de quero mais.

Os mais atenciosos na leitura até aqui lembarão que eu mencionei que é necessário uma curva de aceitação da técnica de animação e eu explico o porquê. Enquanto os desenhos em si evocam a majestade do universo criado pro Ehasz e Richmond, com personagens e criaturas mágicas que, abraçando a familiaridade da premissa, logo prendem a atenção do espectador, a animação em computação gráfica pode causar estranhamento. O primeiro elemento é o uso do chamado cel shading, que trata a renderização das imagens 3D de maneira que elas simulem um efeito, digamos, retrô, 2D. É algo muito comum em games, como em The Legend of Zelda: The Wind Waker e, mais recentemente, na linha de licenças da Telltale Games. Ou seja, os showrunners tentam passar uma impressão old school à série, principalmente no que se refere a seus personagens, mas que exige paciência do espectador que não estiver acostumado com a técnica. Além disso – e aí está o cerne do problema – eles elegeram reduzir o frame rate da animação para, segundo comentários dos dois, amplificar a sensação de animação clássica que eles queriam imprimir em seu trabalho. Ainda que o resultado funcione bem nas sequências movimentadas de ação e nos belos panoramas dessa terra fantasiosa, o mesmo não pode ser dito das cenas mais lentas. Para isso, basta prestar atenção nos personagens andando ou falando. O frame rate levemente mais baixo causa o “picote” da animação, parecendo que há algum problema na conexão de internet do espectador, algo que é mais evidente ainda nas sequências em câmera lenta. Confesso que essa escolha não me pareceu fazer sentido e espero que eles retornem ao “normal” na próxima temporada.

Sim, você já viu O Príncipe Dragão diversas vezes por aí, não tenha dúvida disso. Mas a série amalgama muito bem todos os clichês do gênero em um conjunto muito agradável, fácil de ver e, diria, viciante, muito na linha do que Joaquim dos Santos e Lauren Montgomery conseguiram em Voltron: O Defensor Lendário. Cadê a 2ª temporada que não chega?

O Príncipe Dragão – 1ª Temporada (The Dragon Prince, EUA – 14 de setembro de 2018)
Criação: Aaron Ehasz, Justin Richmond
Direção: Villads Spangsberg
Roteiro: Aaron Ehasz, Justin Richmond, Devon Giehl, Iain Hendry
Elenco (vozes originais): Jack De Sena, Paula Burrows, Sasha Rojen, Racquel Belmonte, Jesse Inocalla, Jason Simpson, Jonathan Holmes, Luc Roderique, Erik Todd Dellums, General Amaya, Adrian Petriw, Omari Newton, Nahanni Mitchell, Ellie King
Duração: 234 min. (9 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.