Crítica | O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões (1936)

O Prisioneiro da Ilha dos Tubrarões

estrelas 3

Enquanto muitos criticam a postura nacionalista da “comunidade imaginada” Estados Unidos de América, a minha predileção foi observar este filme sob outro viés: o da curiosidade. Após dominar o mercado cinematográfico no período posterior aos terríveis acontecimentos da Primeira Grande Guerra Mundial, época em que a Europa estava em frangalhos e sem muita força para a produção de filmes, os estadunidenses perceberam a força desta modalidade artística ainda incipiente, popularizada ao longo das primeiras décadas do século XX, material importante para massificação dos ideais oriundos do “american way of life”.

Mas você deve se perguntar, caro leitor, os motivos de tal curiosidade. Os Estados Unidos estão sempre envolvidos em conflitos bélicos, polêmicas midiáticas sobre questões sociológicas bastante controversas, mas há um ponto que é preciso creditar: são pessoas extremamente interessadas nos monumentos e ícones dos de sua Memória Cultural. Para o bem ou para o mal, não importa, verdade seja dita: interessam-se pela sua história e pelos seus costumes.

Em O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões, dirigido pelo magistral John Ford, o sentimento de curiosidade também me tomou antes de conferir à narrativa. Por que os estadunidenses adoram filmes sobre mártires e figuras icônicas da sua historiografia? A resposta já foi antecipada: porque eles valorizam excessivamente as suas ‘”raízes”, hoje espalhadas pelo mundo como um rizoma, graças aos efeitos da globalização, tendo o cinema como um forte aliado.

O filme conta a saga de Dr. Samuel Mudd (Warner Baxter), um médico que ao dar assistência a um homem na rua, vitimado por causa da perna quebrada, adentra no período mais infernal de toda a sua existência. É preso e recebe a sentença máxima por realizar a tal boa ação. Somos informados, entretanto, que o homem estava fugindo de uma cena criminal intrigante: o assassinato de Abraham Lincoln, representante do partido Republicano, alvejado por uma arma de fogo durante uma apresentação teatral no Teatro Ford, em 15 de abril de 1865.

Ao chegar à prisão, é submetido à diversas humilhações, principalmente depois de se tornar uma carta marcada do sargento Rankin, interpretado levemente de forma levemente caricatural por John Carradine. Como todo mártir, Dr. Samuel, mesmo angustiado por ter sido considerado um traidor da nação, vai realizar ações adornadas por bondade, como por exemplo, ajudar a curar prisioneiros após uma epidemia de febre amarela. Bonzinho, gracioso e em evolução. É assim que o personagem se desenvolve na narrativa, mesmo diante de tantos maus tratos.

Interessado no resgaste da Memória da sua nação, John Ford nos permite mergulhar no conflituoso século XX, uma era demarcada por tensões políticas que dividiam o país: uma parte da nação estava interessada em reiniciar a Guerra Civil e restaurar a Confederação dos Estados do Sul como uma nação independente. Em meio às negociações, Lincoln não foi poupado: representante do Partido Republicano, conhecido por pregar o conservadorismo na “América”, o então presidente morreu tragicamente, mas assim como o Dr. Samuel, tornou-se um ícone revestido de aura heroica.

Editado por Jack Murray, as imagens podem causar estranhamento nos espectadores adeptos da estética “veloz e furiosa” do cinema contemporâneo, principalmente por ser uma produção de 1936, “filha” fiel do seu tempo histórico. Assim como A Floresta Petrificada, também do mesmo ano, o boom do filme fica por conta dos diálogos. Com 96 minutos de duração, O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões é um clássico que demonstra a eficiência de John Ford na realização fílmica, um maestro das imagens que sabia manipular uma câmera para contar histórias com bastante competência.

John Ford, ao longo dos seus 51 anos de carreira, dirigiu em média 133 filmes. Dedicou-se ao cinema de forma geral, com obras-primas como No Tempo das Diligências e a adaptação do visceral As Vinhas da Ira. Considerado um ótimo registrador de imagens com as suas câmeras, o cineasta deixou marcas profundas no gênero Western, sendo O Prisioneiro na Ilha dos Tubarões uma incursão que ainda tateava o ponto ideal para a linguagem cinematográfico, em busca de algo mais ousado e autoral.

Como apontam os estudos na seara das relações entre Cinema e História, há um fio bastante tênue que relaciona as situações políticas internas (o século XIX e os conflitos políticos nos EUA apresentados pelo filme) e externas (a recepção da obra na década de 1930, período posterior às reformas políticas nos EUA depois do marcante 1929): era a história do presente trazendo á tona tramas sobre o passado, numa metáfora ideológica que liga os períodos, provavelmente no intuito de fazer os estadunidenses pensarem o presente nos mesmos moldes simbólicos do passado. Uma jogada de mestre dos estadunidenses, como dito anteriormente, para o bem ou para o mal.

O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões (The Prisoner of the Shark Island) – EUA, 1936.
Direção: John Ford.
Roteiro: Nunally Johnson.
Elenco:  Warner Baxter, Gloria Stuart, Arthur Byron, Francis Ford, John Carradine, Joyce Kay, Francis McDonald, Harry Carey, Douglas Wood.
Duração: 96 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.