Crítica | O Processo de Joana d’Arc

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Quando assistimos O Processo de Joana d’Arc (1962), de Robert Bresson, é inevitável a comparação com O Martírio de Joana d’Arc, filme dirigido décadas antes, em 1928, pelo mestre nórdico Carl Dreyer. São dois tratamentos bastante distintos dessa figura mítica da História francesa, cada um realizando programaticamente os pressupostos estéticos de seus realizadores. Ambos se basearam nos documentos oficiais do julgamento da jovem que se transfigurou em líder militar posteriormente acusada por heresia pela Inquisição católica que queimava no atacado as chamadas “bruxas”.

Carl Dreyer é uma das principais figuras da chamada Escola Nórdica, movimento de vanguarda artística cinematográfica que construía atmosferas tétricas e tramas góticas e lúgubres, dando muito destaque para a experiência petrificante do místico e do transcendente. Tal movimento foi ainda muito importante para a constituição de uma linguagem que usa ostensivamente a expressividade da câmera, sendo notável a exploração de movimentos de câmera bem ousados, sacadas visuais até hoje surpreendentes e angulações muito realçados que contribuem para a construção da valência moral das personagens. Por essa breve descrição, podemos perceber que a Escola não esteve necessariamente preocupada com a economia dos recursos estéticos, estando antes engajada no estabelecimento de um clima bem eloquente, o que a aproxima em alguns aspectos do Expressionismo Alemão.

Ainda pensando na película do dinamarquês, destaca-se de imediato a belíssima atuação de Maria Falconetti, figura andrógina que conseguiu interpretar com perfeição a santa francesa, com seus traços faciais rústicos (indicativos de um sofrimento que se estende à alma) e as lágrimas que copiosamente se debulham quase ao longo de toda a projeção. Carl Dreyer está a todo momento filmando seus atores em plongée ou contra-plongée, criando hierarquizações imagéticas que narram muito claramente a situação de superioridade ou inferioridade em que se encontram, no momento, as personagens. Os travellings unem os inquisidores no seu propósito de punir a jovem mulher, enquanto esta é no mais das vezes enquadrada isoladamente, como que à deriva de uma conspiração judicial e teológica.

A descrição dos traços de O Martírio de Joana d’Arc pode ajudar na percepção, por meio do contraste ou da clara similitude, do que está em jogo no filme de Robert Bresson. Em primeiro lugar, a escolha da atriz que vive Joana diverge muito daquela de Dreyer: suas feições são mais delicadas, menos sôfregas. Florence Delay se comporta de modo bem mais contido, chorando mais raramente e mantendo a compostura e o controle, pelo menos nos momentos em que está frente a frente com seus algozes.

Em termos de direção, fica claro que o diretor francês prefere planos menos explicitamente significativos se comparados ao de Dreyer. As coisas são tratadas com mais delicadeza, deixando para os espectadores o trabalho de interpretação dos fatos. Por outro lado, no que se refere ao trabalho sonoro, há em O Processo de Joana D’Arc muitas falas em off, estando elas associadas ora à sanha punitiva da turba que grita “queimem a bruxa!”, ora aos exércitos ingleses que têm interesse na morte da líder militar, elemento que adiciona ao filme de Bresson a dimensão dos embates bélicos entre França e Inglaterra na Guerra dos Cem Anos, aspecto negligenciado pela fita de 1928.

A estrutura narrativa d’O Processo… às vezes torna-se morosa. Ela é baseada numa intercalação entre depoimentos aos bispos e cenas mais introspectivas na cela, num enredamento repetitivo que intensifica a sensação de prisão e de fatalidade da situação da protagonista. Por falar nisso, cabe lembrar que o encarceramento sempre interessou ao diretor, preso de durante a Segunda Guerra Mundial; filmes como Um Condenado à Morte Escapou, O Batedor de Carteiras e O Dinheiro voltam ao mesmo tema, sendo novo o tratamento do drama de Joana d’Arc porque ele adiciona uma realidade histórica muito mais distante no tempo.

Mas o problema é que o clima de cárcere implicado pela monotonia do roteiro não compensa a anodinia da progressão dramática. Nesse sentido, o filme de Carl Dreyer é muito superior, realçando efetivamente o martírio de uma santa condenada injustamente. Assisti à obra sem nenhum acompanhamento musical, completamente muda, sem entretanto sentir falta dessa espécie de “muleta” emotiva.

O grande mérito de Bresson é conseguir retratar esse mito histórico francês, enraizado no imaginário do país, sem deixar que ele sobrepujasse suas próprias diretrizes estéticas e filosóficas, coerentemente difundidos em sua filmografia. A paixão de d’Arc reflete a discussão sobre a moral, a predestinação e a graça, tão importantes para esse diretor sensacional. Os gestos da mártir são austeros como os de todos os “modelos” do cineasta, avesso às interpretações espalhafatosas; as torneiras do excesso são desde logo fechadas, estando tudo funcionando ao controle das mãos econômicas desse artífice que nunca precisou de muito para fazer grandes obras.

Mais uma vez, como era de se esperar, a simbologia cristão vem à tona. São várias as cruzes, as rezas e as hóstias. Florence Delay quase vira cristo, apresentando uma conduta irretocável, abnegada e presa às suas convicções espirituais. Na primeira parte da tragédia de Goethe, Fausto, Mefistófeles se apresenta ao doutor pactário na forma de um cachorro, e todo mundo associa, popularmente, o cão à figura do Renegado. Em O Processo de Joana d’Arc não é diferente- no momento em que a mulher é queimada, o bicho aparece como que a celebrar a vitória do mal sobre o bem.

Logo depois, todavia, as pombas alçam voo, numa clara referência ao Espírito Santo, um dos componentes da Trindade. Elas nos lembram que o mal na Terra é imediatamente revertido em graça no céu; que as injustiças do lado de cá serão rapidamente dissolvidas pela justiça inquebrantável do lado de lá. A carga sobre as costas de Joana d’Arc não é senão o caminho das pedras em direção à salvação, e nessa medida o filme reitera o motivo da predestinação, tão caro a Robert Bresson. Esse filme pode ser menor e possuir alguns problemas de estrutura, estando longe de superar seu predecessor nórdico; mas é, sem dúvida alguma, facilmente reconhecível pela digital genial de seu autor.

O Processo de Joana d’Arc (Procès de Jeanne d’Arc)- França, 1962
Direção: Robert Bresson
Roteiro: Robert Bresson
Elenco: Florence Delay, Jean-Claude Fourneau, Roger Honorat, Marc Jacquier, Jean Gillibert, Michel Herubel, André Régnier, Arthur Le Bau, Marcel Derbaud
Duração: 65 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.