Crítica | O Procurado

Suspensão de descrença é praticamente um pré-requisito ao se assistir um filme baseado em quadrinhos, a não ser que a obra original, é claro, preze pelo naturalismo. De KingsmanHomem de Ferro, qualquer uma dessas obras cairia por terra se pegássemos no pé de todo e qualquer detalhe fora da realidade. O Procurado, baseado nos quadrinhos de Mark MillarJ.G. Jones, já se encontra em outro nível e requer mais uma obliteração de descrença do que efetivamente suspensão. O que, surpreendentemente, não quer dizer que essa não seja uma obra capaz de nos entreter, com suas ressalvas.

A trama nos apresenta a Wesley (James McAvoy), um trabalhador de escritório, completamente infeliz com sua vida, seguindo, miseravelmente, a mesma rotina dia após dia. Tudo isso muda quando uma mulher desconhecida, conhecida apenas como Fox (Angelina Jolie), diz que ele está destinado a feitos muito maiores, levando-o para a sede de uma ordem de assassinos, onde ele é treinado para matar o assassino de seu pai. Desde acertar as asas de moscas, até fazer balas darem a curva, Wesley aprende todas as habilidades desse grupo, descobrindo, no processo, que é capaz de enxergar o mundo à sua volta em câmera lenta, feito que poucos no mundo conseguem.

Embora, em grande parte, seja meramente uma cópia descarada de MatrixO Procurado, com sua história bastante linear e divertidas sequências de ação, é capaz de nos entreter por tempo considerável. A evolução de Wesley segue de forma bastante previsível, mas não deixa de ser orgânica, mostrando como o personagem, enfim, obtém controle de sua vida. McAvoy mostra-se essencial para o funcionamento de seu personagem, possibilitando que, de imediato, nos aproximemos dele. Claro que, tirando o próprio protagonista, todos os outros personagens são mantidos na unidimensionalidade, mais notavelmente Fox, que funciona meramente como a treinadora/ sidekick sem voz.

O foco do filme, porém, claramente está em suas cenas de ação e não nos personagens em si, com o diretor, Timur Bekmambetov, querendo mostrar ao máximo as peripécias desses assassinos através do extenso uso da câmera lenta, que, embora funcione em determinados trechos, acaba nos cansando em razão de sua utilização exagerada, dilatando algumas cenas desnecessariamente. Aliás, essa intenção de trazer criativas sequências de ação, acaba deixando a maioria delas longas demais, a tal ponto que chegamos a torcer para que acabem logo – grande deslize em um filme de ação. Em razão disso, os divertidos absurdos executados pelos personagens, acabam ficando cansativos à medida que progredimos na história.

Não podemos descartar, porém, como o diretor nos faz acreditar que todas essas artimanhas são possíveis dentro desse universo, fruto de uma direção que torna cada disparo da arma algo precisamente calculado. O próprio protagonista tem a função de quebrar a nossa descrença imediata, ao passo que custa um bom tempo até ele conseguir fazer suas balas darem a curva. Sabiamente, o texto resguarda essa habilidade a pontuais personagens, impedindo que o filme acaba se tornando uma dança com pistolas na mão. Por outro lado, certos trechos seriam beneficiados por planos mais longos, especialmente durante o clímax, que pode se tornar confuso demais em alguns momentos, com cortes em excesso, que impossibilitam que tenhamos noção completa do cenário apresentado.

No fim, O Procurado prova ser uma boa fonte de entretenimento, ainda que falha em muitos aspectos. Passada a descrença inicial sobre o que é feito pelos personagens no filme, nos vemos diante de uma adaptação de quadrinhos, que sabe usufruir da linguagem cinematográfica a fim de construir sequências de ação criativas, embora longas demais. Com sólido trabalho de atuação por parte de James McAvoy, esse é o típico longa-metragem que devemos assistir com o cérebro desligado.

O Procurado (Wanted) — EUA/ Alemanha, 2008
Direção:
 Timur Bekmambetov
Roteiro: Michael Brandt, Michael Brandt, Derek Haas, Chris Morgan
Elenco: James McAvoy, Morgan Freeman, Angelina Jolie, Terence Stamp,  Thomas Kretschmann, Common, Kristen Hager, Marc Warren, Chris Pratt
Duração: 110 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.