Crítica | O Protetor 2

Com certa regularidade, o cinema estadunidense sofre efeitos da descrença civil na eficiência policial na sociedade. O Protetor – tanto o primeiro quanto o segundo — são demonstrações de como o americano médio busca nivelar os problemas sociais a partir das próprias mãos e cria um culto em volta do herói nacional comum.

Denzel Washington interpreta Robert McCall, que procura viver sob a sombra enquanto trabalha como motorista, onde ouve seus clientes numa espécie de remake revanchista do filme Dez, de Abbas Kiarostami, em que Robert veste o manto de protetor da vizinhança e decide ajuda-los de acordo com sua inclinação moral. É interessante ver como em muito tempo não se via um cineasta mainstream assumindo a noção norte-americana de proteger os seus próprios direitos sem apelar para o Estado ou polícia (que são retratados no filme como piada), pois a Constituição garante a liberdade dos cidadãos de defenderem-se. Concordando ou não com esse pensamento, Antoine Fuqua, diretor do filme, não passa pano no estado social que o país se encontra e retrata os Estados Unidos sob um viés republicano onde Charles Bronson de Desejo de Matar está mais inclinado para o lado dos heróis que dos psicopatas.

O personagem de Denzel é modelado sob a figura mítica do bastião do bem estar social, uma figura paterna que se suja de sangue no lugar daqueles que defende por espontaneidade. Não por menos é transformado em super-herói, que ao invés de voar dirige um Malibu, e carrega o peso de proteger aqueles que ama, algo que muitas vezes acaba machucando-o e infligindo a pior das culpas.

Deixando de lado o comentário implícito, O Protetor 2 segue sendo um veículo para promover Denzel Washington como astro da ação. O ator tem preferência por interpretar homens comuns como já descrito aqui, sendo seus melhores papéis os dirigidos por Tony Scott (Chamas da Vingança, Déjà Vu, Incontrolável, O Sequestro do Metrô 1 2 3) ou algumas outras joias ocultas como O Voo e O Diabo Veste Azul. Aqui ele se garante como um cinquentão republicano que força para esconder toda a mágoa de um passado – recente e antigo, e porque não seu próprio presente? – e esse tom na beira do abismo do próprio controle se inverte nas sequências de ação onde Denzel libera a besta que aprisiona no passado para entrar em frenesi em batalha.

O maior problema é o grande intervalo entre os momentos de ação que são preenchidos por um vazio gritante, que não é capaz de mexer com o espectador à respeito de todas as questões que são propostas. Demora muito para estabelecer uma trama principal, envolvendo corrupção dentro do meio policial e as questões morais entre o certo e errado em matar alguém e seguir ordens. Há pelo menos uma hora de filme que se propõe à analisar o vácuo na vida de Denzel, mas de forma ineficiente. É monótono assistir a relação do protagonista com quase todos os personagens, com exceção de Milius (Ashton Sanders), que estabelece uma amizade quase paterna entre os dois, mas que leva à uma discussão superficial sobre a marginalidade da juventude negra.

Depois de perder metade do filme em discussões e desenrolares de trama pouco interessantes, os últimos vinte minutos ao menos se concentram numa sequência interessante de ação situada numa cidade evacuada durante uma tempestade, dando certa liberdade às coreografias que ainda assim se prendem à falta de talento da equipe técnica. Não há muito que o diretor tenha a oferecer e Denzel se esforça em passar suspense ao lutar contra quatro rapazes que ele certamente duraria um minuto para acabar com eles. São minutos finais menos duros de encarar que maior parte do filme, mas ainda assim não satisfazem e nem fazem valer o ingresso. Já houveram veículos de ação melhores para Denzel Washington, uma pena Tony Scott já ter morrido, porque o diretor fazia milagres com o astro. Acaba que O Protetor 2 segue no nível do primeiro, mas há pior distribuição das cenas eletrizantes no meio de um filme maçante mesmo que haja uma intenção boa em retratar o pensamento americano.

O Protetor 2 (The Equalizer 2 – USA 2018)
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: Richard Wenk
Elenco: Denzel Washington, Pedro Pascal, Ashton Sanders, Bill Puman, Melissa Leo, Jonathan Scarfe, Tamara Hickey, Liam McNeill.
Duração: 121 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.