Crítica | O Quarto Verde

estrelas 4,5

Os mortos nos pertencem assim que concordamos em pertencer a eles.
Julien Davenne

Terceiro e último filme de François Truffaut com ele próprio no papel principal, O Quarto Verde é uma experiência única tanto em termos cinematográficos quanto em termos filosóficos. É personalíssimo para Truffaut que, assim como o protagonista, Julien Davenne, faz do filme seu próprio altar a seus mortos. Em entrevista, ele justificou sua auto-escalação da seguinte maneira, depois que sua principal escolha, Charles Denner, não estava disponível:

Esse filme é como uma carta manuscrita. Se vocês escreve com suas próprias mãos, a carta não será perfeita, a letra pode ficar um pouco tremida, mas será você, sua letra.

E isso é sentido literalmente a cada fotograma dessa obra que será, para muitos, de difícil digestão. Baseado parcialmente em uma tríade de contos de Henry James, o principal deles sendo O Altar dos Mortos, o filme aborda a obsessão de um jornalista, Julien Davenne (Truffaut), com a morte. Desde a abertura, com sequências reais (será?) da 1ª Guerra Mundial em tonalidade azul com o semblante fantasmagórico de Davenne sobreposto às imagens, passando pela cena inicial, no velório de uma jovem e bela loira cujo marido, ouvindo as palavras clichê do padre, não se conforma com a perda e fica desesperado, apenas para Davenne intervir e afirmar que os mortos não podem ser esquecidos, até o encerramento talvez abrupto – mas lindo – da fita, tudo deixa às claras que o protagonista busca se cercar de mortes.

Digo que ele busca se cercar de mortes, pois Davenne, por ter perdido a mulher 10 anos antes (o filme se passa no final da década de 20 e ele perdeu a esposa pouco tempo após a 1ª Guerra), literalmente erigiu um altar em sua memória, no tal “quarto verde” do título, em sua casa. Mas o altar, por si só, não é suficiente. E nem somente uma morte é suficiente. Davenne, ao mesmo tempo que não quer esquecer, não quer viver, pois viver, para ele, significa esquecer. Ele não pode se divertir, namorar ou mesmo ter relações sociais normais. Sua relação com o mundo é silenciosa e sempre de semblante entristecido. Seus mortos incluem sua esposa, seus amigos e até mesmo seus inimigos. E incluem também todos os mortos da cidadezinha provinciana onde trabalha na revista O Globo, já que ele escreve belos obituários. A própria revista, antiga, com assinantes idosos que vão morrendo junto com a publicação e a negativa de Davenne em seguir outros caminhos profissionais é mais evidência sobre sua necessidade patológica de se cercar de morte.

E Truffaut é inclemente consigo mesmo. Não se furta em colocar-se próximo à câmera, sempre amplamente exposto às lentes reveladoras, muitas vezes com fantasmagórica iluminação vinda de baixo. E sua atuação, aqui, consegue dois resultados: ele ao mesmo tempo nos aproxima e nos afasta de Davenne. E isso é essencial para aceitarmos O Quarto Verde. Davenne é obcecado, talvez até louco e isso não permite exatamente que nos compadeçamos pelo personagem. Mas é um criação curiosa, que também não permite que simplesmente viremos o rosto. É hipnotizante dentro de sua proposta um tanto macabra, originada literalmente da fixação do próprio Truffaut com “seus mortos”, nomes como Roberto Rosselini, que falecera um ano antes e outros ainda como Henri Langlois (também morto em 1977) e, claro, seu mentor André Bazin, esse último tendo falecido dias antes de seu primeiro longa, Os Incompreendidos.

É interessante como, em seu altar aos mortos, Truffaut insere fotografias de quem ele gostava, falecidos ou não à época do filme, como Oscar Wilde, Sergei Prokofiev, Jeanne Moreau (essa viva até hoje) e Oskar Werner, com quem trabalhara em Jules e Jim – Uma Mulher para Dois e Fahrenheit 451. Se há dúvidas sobre a intenção de Truffaut, ela desaparece quando as fotos são dissecadas, com especial destaque à de Werner, já que o ator só viria falecer em 1984, criando um momento no mínimo curioso.

Mas a narrativa envolve também a jovem Cecilia Mandel (Nathalie Baye, que atuara em outros dois filmes de Truffaut, A Noite Americana e O Homem que Amava as Mulheres), uma assistente de leiloeiro – novamente, aqui, a ligação com a morte – que também tem um falecimento traumático em seu passado. Os dois têm visões diferentes do que significa respeitar e não se esquecer dos mortos. Ele morre junto com seus mortos; ela vive apesar de lembrar de seus mortos. As visões antagônicas se atraem e os mantêm em uma estranha e fria união hesitante que reflete, de certa forma, a relação de Davenne com um menino surdo-mudo que vive sob sua proteção, menino esse que pode significar a própria incapacidade de Davenne de expor sua voz e seus sentimentos para o mundo.

A fotografia de Néstor Almendros é um espetáculo a parte. Utilizando-se da escuridão e de uma paleta de cores cinza-azul-preta que literalmente nos passa visualmente os sentimentos de Davenne, o diretor de fotografia e Truffaut conseguem enquadramentos antológicos, como a visão de Davenne, deformado, por trás de uma porta de vidro fosco e a fantástica sequência do que apenas posso classificar como um “casamento macabro” na capela/templo do protagonista. Não sei se seria exagero dizer que senti um arrepio na espinha, mas o fato é que senti.

É importante lembrar, porém, que, em sendo o filme uma capela do próprio Truffaut iluminando “seus mortos”, O Quarto Verde é profundamente respeitoso. É uma ode ao passado, mas também um recado para aqueles que ficam: sigam em frente, vivam suas vidas!

O único elemento da fita que me impede de dar avaliação máxima é a tentativa de explicação do comportamento de Davenne por intermédio de um antigo amigo que falece durante os acontecimentos da obra. A coincidência das situações e a mera tentativa de imputar as atitudes obsessivas de Davenne a um momento específico no passado retiram um pouco o impacto do trabalho de Truffaut. Talvez seja a informação nova, que quebra o ritmo da narrativa; talvez seja a racionalização de algo irracional, não sei, mas fato é que esse foi um momento que me pareceu mais distante da proposta honesta do diretor.

O Quarto Verde propõe um discussão. Traz o espectador para dentro da mente de Truffaut e surpreende aqueles que ultrapassarem o inegável incômodo que a premissa carrega. Definitivamente, uma carta manuscrita aberta que merece ser lida e relida.

O Quarto Verde (La Chambre Verte, França – 1978)
Direção: François Truffaut
Roteiro: Jean Gruault, François Truffaut (baseado em contos de Henry James)
Elenco: François Truffaut, Nathalie Baye, Jean Dasté, Patrick Maléon, Jeanne Lobre, Antoine Vitez, Jean-Pierre Moulin, Serge Rousseau, Jean-Pierre Ducos, Annie Miller, Nathan Miller
Duração: 94 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.