Crítica | O Que Acontece Quando um Homem Cai do Céu, de Lesley Nneka Arimah

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Nascida no Reino Unido e de descendência nigeriana, Lesley Nneka Arimah teve, em 2017, o seu primeiro livro publicado: uma coletânea de contos que mergulham o leitor em uma viagem pelos mais diversos temas e através de abordagens, sempre partindo de um estranhamento íntimo e dele mergulhando em cenários que falam sobre um futuro distópico, sobre a Guerra Nigéria-Biafra, sobre conflitos de geração (com maior destaque para relações entre mãe e filha), e ainda pitadas de afrofuturismo e tradições culturais africanas (notadamente nigerianas) em choque com outras culturas (notadamente a americana).

Logo no primeiro conto — o meu favorito do livro –, intitulado O Futuro Parece Bom, temos todos os ingredientes possíveis para que entendamos a forma de escrita de Arimah, seu estilo, estruturas e abordagens que serão observadas em aplicação a distintos cenários no decorrer da obra. A primeira coisa que chama a atenção do leitor é a forma como a autora utiliza um evento [aparentemente] simples do presente para fazer digressões, estas, esparramando-se pelos mais diversos braços históricos e sentimentais possíveis. Claro que existe uma estranheza inicial, um choque de localização da personagem (ou das personagens) no tempo e no espaço, mas o leitor atento entenderá a brincadeira literária e verá o quão bem lapidado foi esse “diálogo mundo” entre “Ezinma que se atrapalha com a chave na fechadura” e a própria trajetória de sua árvore genealógica recente. A história de gerações e de um país através de um desajeito com a fechadura…

Ainda neste primeiro conto, vemos o rigor no tratamento das personagens femininas que difere de quase tudo o que vimos em literatura contemporânea ao destacar mulheres negras nas histórias. É evidente que exitem contos onde o que está sendo narrado atrapalha muitíssimo o fortalecimento ou bom trabalho com o núcleo feminino (e falo especialmente do único conto que não gostei do livro, Quem Vai te Receber em Casa), mas todo o livro nos apresenta uma inserção diferente da autora nessa seara. O que me chamou bastante a atenção foi a maneira madura com que Arimah apresentou mulheres de pouca idade nos contos. Suas meninas e adolescentes, mesmo as mais atormentadas, possuem uma visão de mundo bastante ampla, ciosa, astuta, elemento que torna a narração da maioria de seus trabalhos neste livro algo bastante gostoso de se acompanhar.

Em maior ou menor grau, desde o primeiro texto, fui gostando da caminhada por aventuras de uma garota rebelde na escola e com uma relação em processo de ajuste com o pai (Histórias de Guerra); de uma tocante relação entre duas primas e as muitas aparências familiares (Descontrolada, conto que me fez lacrimejar no final); de uma emocionante história de descoberta do afeto de uma garota na escola e a má interpretação que isso acaba tendo (Luz, outro conto que me tocou bastante — este é o meu segundo favorito do livro); e Acidental, a mais curiosa história de mãe e filha que eu já li em um conto desta década. A partir desse ponto do livro, alguns elementos começaram a não me entreter tanto. Primeiro em Segundas Chances, que tem uma premissa realista e necessária, mas pelo que se propõe tratar, acaba desviando-se demais, palmilhando caminhos que só funcionariam bem em uma premissa mais livre como a de O Futuro Parece Bom. E isso infelizmente segue-se para Quem Vai te Receber em Casa, relação que pode até parecer mais dramática para alguns leitores dado o caráter fantasioso do enredo.

Daí para frente temos uma linha de aventuras consideravelmente diferente se comparada à linha da primeira parte do livro. Não são histórias ruins, longe disso, mas emanam um poder menor do que as suas antecessoras, com exceção, talvez, de Glória. E aqui devo confessar que a minha maior decepção veio com o conto-título do livro. Eu já havia ouvido falar muito bem dele e, logo na primeira parte, quando a aplicação da Matemática como fator final do entendimento humano se estabeleceu, minha curiosidade dobrou. Minha animação com o conto foi plena até o seu final, que de maneira muito rápida ganhou uma aura anticlimática, embora muitos leitores certamente irão gostar desse tipo de encerramento dado o tom em constante mudança ao longo da trama. Já As Meninas da Buchi, a fábula mitológica O Que é Um Vulcão? e o derradeiro Redenção possuem bons momentos, lembram aqui e ali partes dos contos de abertura, mas nunca chegam ao mesmo patamar, o que desequilibra um pouco o livro.

À parte divergências e preferências, O Que Acontece Quando um Homem Cai do Céu é uma obra imaginativa, bem escrita e fortemente indicada para quem quer ter contato com “algo diferente”. A prosa de Lesley Nneka Arimah é fortemente realista, chamativa e jamais se isenta de seu meio histórico-cultural, mesmo com elementos de fantasia e sci-fi em cena. É um prazer ver uma escritora desse porte chegar ao mercado. Que venham mais quedas do céu pela pena imperdoável de Arimah!

O Que Acontece Quando um Homem Cai do Céu (What it Means When a Man Falls From the Sky) — Estados Unidos, 2017
Autora: Lesley Nneka Arimah
Editoria original: Riverhead Books, 2017
No Brasil: Editora Kapulana, 2018
Tradução: Carolina Kuhn Facchin
Capa: Mariana Fujisawa
Páginas: 167

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.