Crítica | O Que Aconteceria Se… a Guerra Civil Tivesse Acabado de Formas Diferentes?

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estrelas 3

Obs: Há spoilers da saga Guerra Civil.

Com uma estrutura um pouco diferente dos O Que Aconteceria Se… tradicionais, a Marvel Comics, não muito depois do fim de Guerra Civil, tratou de apresentar dois cenários alternativos para o desenrolar da narrativa em um one-shot de quase 50 páginas. O resultado, apesar de sempre interessante, como costumam ser histórias alternativas dessa natureza, é estranho e oscilante tanto nos roteiros quanto nas artes, feitas por equipes diferentes em cada uma das duas histórias principais e também no preâmbulo, intervalo e epílogo.

No lugar de colocar o Vigia diretamente apresentando-nos realidades alternativas, o que vemos é o Tony Stark do Universo Marvel normal (Terra-616) em Arlington, diante do túmulo simbólico do Capitão América, remoendo tudo o que aconteceu. Nesse momento, um estranho completamente de preto aproxima-se do herói e é esse personagem misterioso que mostra a Stark duas possibilidades diferentes para a Guerra Civil, uma de viés negativo, outra positivo.

A primeira delas é O Que Aconteceria Se O Capitão América Tivesse Liderado Todos os Heróis Contra o Ato de Registro? Nela, que é a principal da publicação, a premissa básica é que, mesmo antes das conversas sobre o famigerado Ato de Registro de Super-Humanos terem se intensificado, o Homem de Ferro estava morto em razão da injeção da fórmula Extremis. Sem Stark, coube a Steve Rogers tentar, sozinho, impor a visão dele de mundo, completamente contrária à interferência governamental sobre os heróis.

what_if_civil_war_capaSem uma oposição, todos os heróis acabam se bandeando naturalmente para o lado do Sentinela da Liberdade, em ato de desobediência à nova lei. Com a ausência do Homem de Ferro, cabe então à máquina governamental lidar com o problema e essa responsabilidade recai sobre o pior nome possível: Henry Peter Gyrich. Personagem clássico da editora, Gyrich é um burocrata que simplesmente odeia super-heróis e sempre fez de tudo para, de uma forma ou de outra, regulá-los e reprimi-los. Assim, renasce o programa Sentinelas que são então usados em massa para lutar contra os heróis. Claro que a desgraça logo se abate sobre os heróis e a guerra começa a escalar, com Sentinelas comandados por humanos e um Capitão América ainda mais aguerrido.

A visão dessa primeira história é fortemente pessimista e com final trágico. Mas ela funciona bem não só em termos de desenvolvimento do personagem – Gyrich em especial – e de história, como também em termos filosóficos, pois demonstra a importância de debates e conversas equilibradas, sem radicalismos e intolerâncias de um lado ou de outro. As consequências que vemos nessa “Terra alternativa” se dã unicamente porque um lado fechou-se completamente ao outro, sem conciliação possível, apesar de todos os pesares. A desgraça era inevitável.

O que essa primeira história tem de bom no roteiro, ela não tem na arte de Gustavo Trigo. Seus traços são pesados e fortemente caricatos, com heróis com rostos disformes e sempre com fisionomia raivosa, além de alguma desproporções quase robliefeldianas, bastando, para isso, ver o Capitão América com uma versão da armadura do Patriota de Ferro. Com o tom sério do roteiro, essa primeira história teria se beneficiado de uma pegada mais sóbria, talvez até com o mesmo traço belíssimo usado no preâmbulo.

Quando a primeira narrativa acaba, a conclusão de Stark conversando com o estranho de preto é que ele então, no frigir dos ovos, agiu corretamente ao fazer o que fez. Esse é o gancho, então, para a segunda narrativa, que é curta, pois começa no momento em que, em Guerra Civil, o Homem de Ferro e Capitão América quase fazem as pazes, logo antes do clone do Thor entrar em cena. Na variação, intitulada O Que Aconteceria Se O Homem de Ferro Tivesse Perdido a Guerra Civil?, os heróis efetivamente se reconciliam e o clone de Thor, completamente descontrolado, serve como o elemento de união das duas facções.

O tom da história é bem mais leve e positivo, esperançoso mesmo, e a arte de Victor Olazaba funciona bem ao não só emular esse espírito, como também ao lidar com uma enorme quantidade de personagens em pouquíssimas páginas. Ao final, vemos Stark novamente entrando em desespero pelo que poderia ter sido, mas acabou não sendo e o estranho indiretamente revela-se como sendo o Vigia, em uma escolha narrativa que serve para manter o suspense sobre a identidade misteriosa, mas que, na prática, não faz sentido algum.

Essas duas realidades alternativas claramente poderiam ter sido mais bem trabalhadas e o resultado pareceu apressado e pouco uniforme. De toda forma, vale o esforço da leitura.

Guerra Civil: O Que Aconteceria Se… (What If? Civil War, EUA – 2008)
Roteiro: Ed Brubaker, Christos N. Gage, Kevin Grevioux
Arte: Gustavo Trigo, Harvey Tolibao
Arte-final: Gustavo Trigo, Sandu Florea, Victor Olazaba, Scott Koblish
Cores: Jelena Kevic Djurdjevic, Edgar Tadeo, Guru-eFX, Jay David Ramos
Letras: Joe Caramagna
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: fevereiro de 2008
Páginas: 49

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.