Crítica | O Que Aconteceria Se… os Vingadores Nunca Tivessem Existido?

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estrelas 2,5

spoilers! Leia as outras críticas para a série O Que Aconteceria Se… aqui.

Jim Shooter (roteiro) e Gil Kane (argumento, juntamente com Shooter) criam a Terra-776 e nela ambientam essa mediana aventura com a possibilidade de os Vingadores jamais terem existido, tomando como guia os acontecimento da revista Vingadores #2 (1963). O desentendimento entre o Hulk e Homem de Ferro, Homem-Formiga (depois, Gigante), Vespa e Thor naquela edição, seguido da batalha e da “fuga” do Hulk ao final, aparecem aqui como motivação para uma quebra do grupo recém-criado. Sem o Gigante Esmeralda, a sensação de unidade cai (exceto para o Homem de Ferro) e então não existe mais Vingadores.

Depois de uma eletrizante jornada na Terra-774, abordando uma outra concepção mental para o Hulk, era de se esperar que a edição seguinte da série What If… se desvencilhasse do Golias e o colocasse apenas na segunda linha da trama, o que não acontece. Diante de tantos pontos a serem considerados e consequências para as mudanças de uma quebra dos Vingadores, o roteiro de Jim Shooter opta por focar na debandada do Hulk e mantém o Verdão nos holofotes, fazendo-o se encontrar com Namor e cogitar alguns planos de dominação, exatamente como na Terra-616. Ocorre que, talvez para compensar a grande tragédia do final — é facilmente compreensível que o texto tenha esperado para dar o máximo de impacto na morte do Homem de Ferro –, o autor se prende a uma única linha de mudanças e acaba se mostrando bem pobre em imaginação para as consequências.

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Um leitor mais experiente talvez tentasse justificar esse padrão narrativo ressaltando o propósito de “homenagem aos roteiros truncados e fechados de Stan Lee“, o que não deixa de ser verdade. Pelo menos nesse início de série, O Que Aconteceria Se… sempre lança mão de um clássico Marvel, reproduzindo até mais coisa do que deveria deste “evento original”, para então modificar algo em seu conteúdo e brincar com as alterações de timeline vindas daí, tendo o cabeçudo Uatu, o Vigia, como narrador dedo-duro desses novos fatos.

Mas se pensarmos que a homenagem é mais interessante quando feita em temática e não necessariamente na forma, notamos o quanto esse aprisionamento dos personagens de uma Terra paralela a coisas praticamente idênticas às da “nossa Terra” coloca um ponto de interrogação na escolha do autor. Isso não tira a diversão da leitura, mas, a rigor, há mais pancadaria e observações vazias aqui do que qualquer outra coisa. Não fossem os primeiros efeitos da separação dos Vingadores e a morte de Tony no final, o resultado deveria ser ruim, não apenas mediano como foi.

Os desenhos de Gil Kane e a arte-final de Klaus Janson caíram como uma luva para o grande número de batalhas que a revista traz. O melhor momento do duo é na representação de luta do Homem de Ferro contra o Hulk e Namor, em Gibraltar. O uso do cenário e a capacidade de ação dos três heróis em cena garantem ótimos quadros. O início da edição também merece destaque, mas eu sou chato com “recriações”, então minha tendência é considerar apenas os desenhos para as coisas novas, exclusivas da edição presente, e deixar de lado os quadros redesenhados de histórias passadas do Universo Marvel.

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O melhor momento da arte em toda a edição.

O leitor também encontrará no roteiro uma série de momentos sexistas incluindo Janet, alguns deles nos fazendo checar a data de publicação para ver se é mesmo de 1977 e não de 1901. Eis aqui alguns desses momentos.

__ Hey, a Vespa ainda está aqui! Não se esqueça de mim!

__ Quieta, Jan! Isso é sério.

__ Certo! Para quê ficar aqui mesmo, se aquele “sonho” do Thor se foi… (suspiro)

__ Jan, por favor!

O contexto do início dessa conversa é ótimo, porque eles estão considerando quem pode ajudar na luta seguinte. Os heróis esquecem completamente a Vespa, não adicionando seus serviços nem por educação à possibilidade de batalhas. Mas tem mais.

__ Agora nós somos apenas Henry Pym, o bioquímico e Janet, a herdeira despreocupada, Homem de Ferro!

Isso porque a Vespa é uma das fundadoras dos Vingadores e já tinha provado o que podia fazer em batalha. Mas para o senhor Shooter, ela era apenas uma herdeira ao lado de um bioquímico. É tão ridículo que me fez rir. E por último, essas duas pérolas:

__ Henry Pym! Você não está vendo que isto não combina com a minha sombra de olho?

E ainda…

__ Eu gostaria que Tony tivesse consultado meu estilista… Isso não harmoniza nada com minha silhueta.

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Ótima aplicação de cores e dinâmica de movimentos. Mas vejam que Gil Kane estava na vibe de desenhar bundas para cima…

Com um desvio brusco na parte final do enredo — ‘só’ porque Namor quase matou Rick Jones — e um bom e trágico final, apesar de um desenvolvimento cheio de amarras para tornar o último momento mais poderoso, O Que Aconteceria Se… os Vingadores Nunca Tivessem Existido? é a mais pobre realidade alternativa da série até agora. Mesmo que a qualidade se assemelhe bastante à do alternativo Quinteto Fantástico, aquela história de Roy Thomas não perde pontos na teia de imaginação, mas na construção do roteiro. Aqui na trama dos vingadores, o texto de Jim Shooter sofre dos dois males. No fim das contas, não é uma história terrível, mas todo mundo sabe o incômodo que é ler um roteiro morno, cheio de coisas que poderiam ser, mas não são.

Em uma saga de realidades alternativas, isso ganha ares irônicos… e parece ainda pior.

O Que Aconteceria Se… os Vingadores Nunca Tivessem Existido? (What If… The Avengers Had Never Been? / What If? Vol.1 #3) — EUA, junho de 1977
Roteiro: Jim Shooter (roteiro), Gil Kane (argumento, juntamente com Shooter)
Arte: Gil Kane
Arte-final: Klaus Janson
Cores: George Roussos
Letras: Denise Wohl
Capa: Gil Kane, Joe Sinnott, Irv Watanabe

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.