Crítica | O Que Aconteceria Se… Outra Pessoa Tivesse Se Tornado o Homem-Aranha?

Homem Aranha Plano Critico O Que Aconteceria Se

estrelas 3

spoilers! Leia as outras críticas para a série O Que Aconteceria Se… aqui.

Como se não bastasse já ter utilizado o Homem-Aranha como isca na primeira edição da série What If…, a Marvel voltou, seis revistas depois, com uma trama onde o manto do Teioso não era vestido por Peter Parker, mas sim por diferentes pessoas, em diferentes Terras. Embora eu ainda preferisse algo que mostrasse outros heróis da editora ou mesmo uma narrativa mais ousada envolvendo o Aranha, não deixa de ser interessante ver como Don Glut levou adiante a hipótese do título de maneira inteligente, fazendo com que seus personagens tivessem destinos tocantes, fossem vítimas de diferentes fatalidades e encarnassem, quase como se levados por uma onda do destino — e às vezes, apenas a partir de um certo ponto de seus curtos períodos usando o manto –, os ideais do herói que conhecemos na nossa Terra.

A primeira parte da revista é uma apresentação truncada de Uatu, o Vigia, que repete para nós os eventos que deram a Peter Parker os poderes de Homem-Aranha. É como um lembrete do “caminho para o grande momento” que se repetirá em mais três ocasiões ao longo da história.

Na Terra-78127, Flash Thompson se torna o Captain Spider. Na classificação geral das tramas dos Universos paralelos elencados aqui, esta é a segunda melhor das três aventuras. O roteirista não precisou de muita coisa para fazer a saga andar, porque Flash Thompson segue o típico papel de bully e irresponsável quando ganha os seus poderes, fator que marca definitivamente sua trajetória como um herói que um dia já matou, mesmo sem querer, uma pessoa, antes de vestir um manto. A história flui bastante no desenvolvimento, depois de um começo de bastante marasmo e diálogos bobos. O impasse da trama está no final, com o acúmulo de vilões e a derrota completamente boba do Capitão Aranha pelo Abutre. Mesmo com um enredo fraco, essa parte do volume tem a melhor arte da drama.

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Flash Thompson, o Captain Spider.

A morte de Flash Thompson foi uma escolha moralmente correta do roteirista, mas talvez o personagem poderia se beneficiar se tivesse sua vida prolongada. Tudo bem, ele matou uma pessoa, mas a passagem de um babaca de Ensino Médio para alguém que resolve se tornar um herói mascarado é algo grande. Com um texto que explorasse mais esse lado, é possível que conflitos e reflexões urbanas típicas do Homem-Aranha da Terra-616 viessem à tona e trouxesse algo novo para esta versão.

A terceira história, disparadamente a pior de todas, se passa na Terra-78227, e nela temos Betty Brant como Spider-Girl. É difícil falar desse conto. Ele é ruim em tantos aspectos que fica difícil elencar o que é pior. A única coisa que “salva” partes do texto é a semelhança com eventos da nossa Terra, que ganham novas cores e atores, impressionando pela novidade, não pela qualidade da história na qual estão inseridos. De todas as coisas relacionadas à esta Terra, a mais bizarra é o estúpido uniforme que desenharam para a coitada da mulher. Sério, não dá para acreditar. Ok, estamos nos anos 1970, as personagens nos quadrinhos são, na maioria das vezes, um objeto bonitinho para ser exibido e chamar a atenção do público masculino ou para ser salva por heróis e outros fortões, mas isso aqui rompe os limites do bom senso.

A impressão que eu tenho é que estamos vendo um Peter Parker travesti soltando sua teia “destruidora mesmo” pela cidade. Olhem a página abaixo e vejam se não parece isso. O que eu achei interessante nessa realidade é que Parker se torna a paixonite nerd de Betty e ajuda a moça a seguir com sua “carreira” de super-heroína e ainda a segurar a barra que é trabalhar como secretária de JJJ, também destilando ódio contra a mascarada e procurando todo furo jornalístico que diga que ela é uma ameaça para os cidadãos. A localização dessa postura na penúltima história também serve a um propósito de conexão, pois o conto seguinte colocaria o Editor do Clarim Diário em um outro nível de aceitação sobre isso.

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Betty Brant, a Spider-Girl. Ou seria o Peter Parker travesti da Terra-78227?

A quarta história, que se passa na Terra-78327, nos traz o Coronel John Jameson (sim, o filho de J. Jonah Jameson) como Spider Jameson (é muito Jamerson para uma história só!). Esta é a melhor história das três, mesmo com alguns probleminhas de ritmo, diagramação e Deus Ex Machina no final. Como já dito, JJJ é colocado em um patamar diferente em relação aos heróis. Seu filho, um Coronel astronauta, é mordido por uma aranha radioativa e desenvolve poderes especiais. Ele segue treinando e é visto pelo pai, que fica espantado e maravilhado com as habilidades do filho, resolvendo “investir” na carreira de herói do rapaz, incentivando-o a desistir do Programa Espacial e combater o crime. É a “galinha dos ovos de ouro” no quintal de quem sempre quis vender jornal com notícias chamativas. Mas infelizmente isso não tem um bom fim.

Parece que todos os bons diálogos da revista se concentraram nesse conto, assim como a explanação geral da ideia. O que incomoda, na verdade, é o sacrifício do jovem herói vir em uma ação tão besta e desnecessariamente complicada. É risível a parte em que há uma explosão (e das grandes!) e, no quadro seguinte, JJJ ainda consegue pegar o filho com vida, falando as suas últimas palavras. É risível. Mas ainda assim é o melhor conto do volume. Para vocês terem uma noção da qualidade dos outros.

O final triste e a estátua para o Spider, tocam o leitor. Diferente da morte de Flash Thompson, na outra Terra, temos aqui um herói de verdade, com espírito de entrega e que, justamente por isso, tem sua morte mais sentida. E assim como penso que a extensão da vida de Thompson possivelmente beneficiaria a história, vejo que a extensão da vida do Spider Jamerson traria uma relação melhor dele com Peter Parker e talvez tornasse a culpa e o sentimento do pai ainda maiores no final. E não digo isso porque quero destacar o luto de JJJ, mas porque essa seria apenas a consequência de uma boa história com um final para se lamentar.

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John Jameson, o Spider Jamerson.

O final traz uma reflexão que serve como um spoiler do Vigia para nós. Ele nos mostra que nas três Terras que perderam seus Teiosos, dois por morte e um por desistência, a consequência final seria a mesma: Peter Parker conseguiria fazer um soro e, ele mesmo, se tornaria o Homem-Aranha. “Estava destinado a ser“. A conclusão parece forçada, totalmente entregue ao destino — o que não me agrada nem um pouco — mas consegue ter impacto porque é o futuro de realidades que já conhecemos. A opinião sobre o significado desse “o que vem depois“, mesmo que não muito boa, não chega exatamente a ser negativa. O mais legal é que a resposta à pergunta-título terminaria com Parker sendo Homem-Aranha do mesmo jeito, e isso me faz voltar ao princípio do texto, quando citei a falta de ousadia do roteiro, que bem poderia ter matado Parker em uma das Terras, só para variar.

No cômputo geral, O Que Aconteceria Se… Outra Pessoa Tivesse Se Tornado o Homem-Aranha? é uma história interessante pelas três hipóteses em Terras diferentes. A nossa conclusão é que “Homem-Aranha é um fato-identidade cósmico e poderoso” que sempre chegará ao corpo de Peter Parker. É um desfecho quadrado, mas visto em seu montante, é um bom desfecho.

O Que Aconteceria Se… Outra Pessoa Tivesse Se Tornado o Homem-Aranha? (What If Someone Else Had Become — the Amazing Spider-Man? / What If? Vol.1 #7) — EUA, fevereiro de 1978
Roteiro: Don Glut
Arte: Rick Hoberg
Arte-final: Sam Grainger
Cores: George Roussos
Letras: Rick Parker
Capa: Gil Kane, Joe Sinnott

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.