Crítica | O Que Aconteceu Com Baby Jane?

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estrelas 4

Na década de 30, com o surgimento do star system, o interesse do público aumentou pelos artistas que protagonizavam as películas e não apenas pelos filmes em si. Com isso, a vida social dos atores e detalhes por trás das produções ganharam cada vez mais audiência. Dentre todas as histórias de bastidores, uma das mais icônicas envolveu a rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford, iniciando-se publicamente em 1935, quando as duas atrizes apaixonaram-se pelo mesmo ator, Franchot Tone. No amor, Crawford levou a melhor e casou-se com Tone, contudo, profissionalmente, o ano foi melhor para Davis, uma vez que, ela venceu o Oscar de melhor atriz por Perigosa, contracenando justamente com o marido da rival. Aliás, reza a lenda que na cerimonia, enquanto Bette subia ao palco para receber sua estatueta, Joan falou em voz alta que o vestido da vencedora parecia um pijama.

A partir daí, a rixa entre elas tornou-se pública, alcançando o auge durante as gravações de O Que Terá Acontecido com Baby Jane? (1962). Na época, pessoas da produção confirmaram que Joan pediu uma dublê para as cenas em que as duas protagonistas lutavam, temendo ser realmente agredida. No entanto, uma única cena precisaria ser gravada sem dublês e Bette aproveitou para chutar a cabeça da companheira de cena, sem hesitar. Como vingança, Crawford colocou uma cinta ergonômica quando precisou ser arrastada por Davis em uma sequência, obrigando-a a fazer muito mais esforço.  

No entanto, apesar do longa ter ganhado fama pela disputa entre as duas atrizes, se deixarmos todas as histórias de bastidores de lado, temos aqui uma obra que merece ser apreciada por si só, sendo um marco no subgênero do terror psycho-biddy, cuja característica são histórias com mulheres mais velhas com surtos psicóticos ou em extremo perigo.

O filme conta a história de Jane Hudson (Bette Davis), uma artista que, quando criança, ficou famosa e conhecida como “Baby Jane”. Depois de um acidente, ela caiu no ostracismo e, já adulta, vivia trancafiada na casa que dividia com a irmã Blanche (Joan Crawford), ex-atriz que precisou largar a promissora carreira depois de perder movimento das pernas. Destinada a voltar aos palcos, Jane vai tentar retomar a personagem que a fez famosa — nem que para isso precise passar por cima de algumas pessoas bem próximas.

O grande mérito do roteiro, escrito por Lukas Heller, está na sutil e crescente sensação de desconforto presente na obra. Se, no início, o relacionamento entre as duas irmãs é apresentado como algo apenas conturbado, com o decorrer da projeção, o nível de incômodo e choque sobem exponencialmente, resultando em um clímax extremamente tenso. Uma das estratégias do roteirista para alcançar isso foi justamente focar na maldade de Baby Jane, porém, apresentando-a aos poucos. A vilã começa apenas agredindo verbalmente sua irmã, passando pelo simples abandono e atingindo as agressões físicas e psicológicas, no terceiro ato. Para isso, o filme opta por um ritmo bastante lento que cansa um pouco durante o segundo bloco, recuperando a vitalidade da trama apenas no terceiro.

Ademais, não apenas o relacionamento das duas irmãs é bem construído, como o longa é um belo estudo de personagem, principalmente de Baby Jane, explorada como uma pessoa bizarramente infantil, mimada e orgulhosa. Aliás, a obra possui um ótimo trabalho de figurino, que traz a protagonista quase sempre vestindo roupas infantis para a sua idade, com vestidos que remetem à infância. Além disso, há um interessante jogo de espelhos, utilizado para aumentar a dualidade da vilã e destacar sua visão destorcida da realidade.

Baseado na premissa do filme, a direção de Robert Aldrich cria com eficiência uma constante sensação de confinamento, enquadrando as personagens várias vezes com grades à sua frente ou persianas ao fundo, estabelecendo muito bem a geografia da casa como um local fechado, principalmente pelos takes que mostram a largura da escada que separa Blanche da saída. Além disso, o diretor trabalha bem o potencial das sombras (algo que ficaria claro em A Morte num Beijo, outro trabalho seu), utilizado-as em maior intensidade nas cenas envolvendo Baby Jane, para ressaltar sua obscuridade e vilania.

Outro mérito do diretor é o interessante uso de adereços cênicos para representar o estado de suas personagens, não é a toa que o animal de estimação de Blanche seja um pássaro preso em uma gaiola e que a direção de arte evoque justamente essa gaiola através do puxador de mãos, acima da cama da cadeirante; e que a boneca de Jane apareça tantas vezes em cena, ressaltando a visão infantil e idealizada que ela tem de si mesma. Para completar, Aldrich dosa muito bem os close-ups em seu esquema visual, inserindo-os apenas em momentos-chave da trama, aumentando a carga dramática das cenas, optando por distanciar as personagens do público na maior parte do tempo com planos médios, uma estratégia inteligente, visto que ambas são bastante dúbias e a intenção do filme não é que o espectador crie um vínculo com elas.

Mas é mesmo nas atuações de Bette Davis e Joan Crawford que o longa alcança os seus melhores momentos, potencializando o relacionamento conturbado das duas irmãs proposto pelo roteiro. Apesar de suas rixas atrás das câmeras, as duas têm bastante química e entregam cenas memoráveis juntas. Aliás, não deixa de ser engraçado como as duas interpretações são opostas, mas igualmente brilhantes. Enquanto Crawford transmite em Blanche ares de uma mulher amável, pacífica e bondosa; Davis insere mais camadas em Baby Jane, criando uma personagem cruel, imatura, iludida, mimada e com claros distúrbios psicológicos, juntando tudo isso em um dos trabalhos mais impactantes de sua carreira.

Obviamente, a disputa entre Davis e Crawford dá um charme especial para a obra, ainda mais porque suas personagens também possuem um relacionamento tenso. No entanto, o filme merece ser visto independente disto, porque é ótimo em sua proposta e marca a carreira de suas atrizes como um de seus melhores trabalhos. Aliás, se a rivalidade entre as duas atrizes tem uma função realmente especial, ela é incentivar que novas gerações de cinéfilos conheçam suas filmografias e verdadeiras pérolas do cinema, como O Que Aconteceu com Baby Jane?.

O Que Aconteceu com Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?) — EUA, 1962
Direção: Robert Aldrich
Roteiro: Lukas Heller (baseado na obra de Henry Farrell)
Elenco: Bette Davis, Joan Crawford, Victor Buono, Wesley Addy, Julie Allred, Anne Barton, Marjorie Bennett, Anna Lee, Maidie Norman, Dave Willock, William Aldrich, Russ Conway, Maxine Cooper, Robert Cornthwaite
Duração: 134 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.