Crítica | O Que Está Por Vir

lavenir

estrelas 5,0

Vencedor do Urso de Prata (e nomeado ao de Ouro) em no Festival de Berlim de 2016, O Que Está Por Vir é o novo filme dirigido por Mia Hansen-Løve, que mostrou ao que veio logo em seu longa-metragem de estreia, Tout est pardonné (All is Forgiven), que, infelizmente, não chegou ao circuito brasileiro (como muitas outras obras, como de praxe). Através de uma temática mais que contemporânea, que aborda não só o cenário geopolítico de nossa atualidade, como a ideologia ocidental em voga nos últimos anos, o longa é, acima de tudo, levado pela sua protagonista, demonstrando como uma personagem bem escrita e interpretada é o suficiente para engajar qualquer espectador.

Isabelle Huppert, que roubou totalmente nossas atenções esse ano através de Elle, interpreta Nathalie, uma professora que tem de lidar com constantes protestos e greves estudantis em relação ao aumento da idade mínima de aposentadoria na França (como não se identificar com esse cenário, não é mesmo?). Tendo de chegar ao ponto de discutir para dar aula, o que é uma ironia, já que ensina filosofia, o que daria justamente base para tais protestos, ela se vê cercada de todos os lados: pela sua mãe doente, pelo seu marido que a trai e as mudanças da editora de seus livros, que visa alterar seu material em virtude das baixas vendas. Com sua vida virada de cabeça para baixo, entramos, junto com ela, em uma jornada intimista sobre o que realmente importa na vida.

Antes de mais nada, permitam-me esclarecer: esse não é um feel good movie. Não é um Comer, Rezar e Amar, sobre alguém com dinheiro que entra em crise existencial e busca uma resposta para o sentido da vida. O Que Está Por Vir é uma obra sobre os problemas que todos nós, invariavelmente, enfrentamos em diferentes pedaços de nossas vidas, com pequenas diferenças, é claro. Há uma dose de naturalismo surpreendente no filme de Hansen-Løve e a diretora conduz sua ideologia de forma muito inteligente, não soando como uma doutrinação e sim uma exposição de argumentos, como em uma verdadeira dissertação que não cai no extremismo.

Huppert, como sempre, está magnífica e não poupo adjetivos para descrever seu trabalho. Através de suas expressões e linguagem corporal entendemos tudo pelo o que a protagonista passa, sem que ela precise recorrer a expositivos diálogos. Da lágrima que começa a se formar no canto do rosto, ao riso que simboliza sua entrega à situação na qual se encontra, a atriz transmite uma naturalidade não menos que incrível, ao ponto que enxergamos a personagem como se, de fato, existisse. Evidente que o roteiro, assinado pela diretora, sabe com quem trabalha e não força um didatismo desnecessário, ele sabe que iremos sentir o que a protagonista sente e esse é o ponto que nos cativa de imediato na projeção.

Tamanha é a força do protagonismo de Huppert que a direção não precisa apelar para closes constantes a fim de ampliar o drama passado por Nathalie. Dos planos mais fechados aos médios, ela rouba totalmente as cenas – sabemos onde está o foco ali e, aos poucos, nos entregamos à narrativa nos colocando no lugar dela. Hansen-Løve ainda é corajosa ao trazer uma personalidade tão forte diante de assunto tão polêmico que assola – sua posição em relação aos protestos não é a de favorecer ou ir contra e sim demonstrar o que é necessário para um engajamento político de verdade. Acima de tudo enxergamos a liberdade de expressão nesse filme  e a filosofia desempenha, em segundo plano, um papel importantíssimo, ressaltando a necessidade do estudo para a conquista da independência, caso contrário somente repetiremos discursos de terceiros, sem realmente os entender.

No fim, O Que Está Por Vir é mais um tour de force de Isabelle Huppert, definitivamente uma das mais talentosas atrizes vivas, que nos presenteou com duas obras de destaque esse ano. Através desse filme maduro, com um naturalismo que nos envolve plenamente, Mia Hansen-Løve traz mais um acerto para sua jovem e promissora carreira, que definitivamente nos irá entregar muitas preciosidades ao longo dos anos. Uma obra que certamente merece ser vista por todos, lidando com questões extremamente pertinentes à realidade que nos envolve, sem cair nos extremos praticados pelos diferentes lados de nossa sociedade.

O Que Está Por Vir (L’avenir) — França/ Alemanha
Direção: Mia Hansen-Løve
Roteiro: Mia Hansen-Løve
Elenco: Isabelle Huppert, André Marcon, Roman Kolinka, Edith Scob, Sarah Le Picard,  Solal Forte
Duração: 102 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.