Crítica | O Que eu Mais Desejo

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estrelas 4

Nós somos irmãos. Somos unidos por um fio invisível.

Ryu

Não é segredo para ninguém a forte dose de lirismo e poesia que acompanha o cinema japonês. Podemos destacar como elementos mais recorrentes a relação com a matéria natural, sempre presente no cotidiano das pessoas e captada pela câmera de forma sutil e bela; a tradicional organização familiar; a infância um tanto madura para os olhos do ocidental; e a forte ligação com o trabalho. Juntos, esses elementos compõem filmes que nos tocam profundamente e que conseguem, exatamente por sua aparente simplicidade, enganar os mais desatentos, que acabam comprando a aparência, e se esquecem daquilo que o filme procurou lhes dizer.

O Que eu Mais desejo, novo longa-metragem de Hirokazu Koreeda, é um desses belos exemplos que podemos trazer do lírico e poético cinema japonês, especialmente nos filmes que trabalham as relações humanas no mundo infantil. Até hoje sou visitado pelas imagens do maravilhoso Bom Dia, de Yasujiro Ozu, uma obra que plasmou muitíssimo bem a infância no Japão pós-guerra, especialmente com a invasão da TV no país. Em O Que eu Mais Desejo, também temos uma história de dois irmãos, mas estes estão separados geograficamente. Com o divórcio dos pais, Ryu e Koichi (Ohshiro e Koki Maeda, também irmãos na vida real), moram cada um numa extremidade da ilha de Kyushu. Embora tenham muitos desejos, o que eles realmente querem é voltar à família que tinham, estar juntos novamente. E vão usar de diversas artimanhas para consegui-lo.

O que nos impressiona logo no início são as relações das crianças com os adultos, e também entre si. Ora muito infantis, ora muito adultas, essas relações, diálogos e desejos formam o corpo do roteiro, e antes que o público perceba, as preocupações são postas em segundo plano, e partimos para contemplar as atitudes e as sutis mudanças dos protagonistas e das personagens coadjuvantes. Ao final do filme, percebemos que a viagem de trem e o desejo que moveu todo um plano para que isso acontecesse foi uma espécie de ritual de passagem, o primeiro encontro desses pequenos com o mundo pouco amigável que os aguarda na vida adulta.

O roteiro do próprio Koreeda vai no sentido oposto ao que ele escreveu para Ninguém Pode Saber (2004), um dos seus melhores filmes. Aqui, não temos grandes surpresas na relação do mundo adulto com o mundo infantil, e o processo de amadurecimento é quase natural, acontece aos poucos, como resultado de eventos marcantes e lições de vida obtidas durante o tempo que acompanhamos a história.

O trabalho da direção é sutil, sempre com uma câmera calma e contemplativa, muito beneficiada pela composição multifacetada das personagens, que apresentam visíveis mudanças no decorrer do filme, e que são plasmadas de forma diferente conforme as mudanças vão acontecendo. O grande erro do diretor (e isso é absolutamente relativo, uma vez que trabalhamos com percepção de tempo) foi alongar essa experiência por pouco mais de duas horas. Penso que algumas situações foram desnecessariamente constituídas de lentidão para servir ao propósito geral do filme, mas se olharmos bem, passaríamos normalmente pelo filme sem a (longa?) incursão das experiências dos adultos, como no caso do avô, que se defronta com novas tendências do mercado e se recusa a mudar a preparação de um doce tradicional.

Nos momentos em que trabalha a infância, o filme apresenta um ritmo perfeito na montagem, e a direção é realmente pacífica. Até o movimento dos atores pelo espaço cênico é econômico. Já a direção de atores é muito precisa. O elenco infantil é maravilhoso e o elenco adulto é claramente orientado para não se sobressair às crianças. A fotografia é de um colaborador assíduo de Koreeda, Yutaka Yamasaki. O trabalho do fotógrafo não supera o que ele realizou em Ninguém Pode Saber ou Still Walking, mas mesmo assim é muito belo, com composições plásticas de grande importância para a trama geral. Não devo dizer que sou um grande entusiasta da trilha sonora, mas em um momento ou outro ela funciona bem, e num cômputo geral, atende aos propósitos do filme.

Produto de um país em constante reconstrução e de alta constituição tecnológica, O Que eu Mais Desejo é quase uma negação da robotização da infância e a prova de que as relações fraternas possuem um grande poder, superando tempo e distâncias. Embora o filme apresente alguns momentos fracos (em roteiro e composição técnica), o produto final é definitivamente positivo e certamente vai encantar a muitos espectadores. Vale a pena conferir.

O Que eu Mais Desejo (Kiseki / I Wish, Japão, 2011)
Direção: Hirokazu Koreeda
Roteiro: Hirokazu Koreeda
Elenco: Koki Maeda, Ohshirô Maeda, Ryôga Hayashi, Cara Uchida, Kanna Hashimoto, Rento Isobe, Hoshinosuke Yoshinaga, Hiroshi Abe, Yoshio Harada, Isao Hashizume
Duração: 128min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.