Crítica | O Que Fazemos nas Sombras

estrelas 4

O Que Fazemos nas Sombras (2014), longa assinado pela criativa dupla de diretores neozelandeses Jemaine Clement (que interpreta Vladislav) e Taika Waititi (que interpreta Viago) é um dos poucos filmes sobre vampiros dentro do gênero comédia que consegue fazer um trabalho muito bom com a mitologia dessas criaturas e ainda tem o mérito de adicionar parte do submundo do horror, como Lobisomens, Bruxas e Zumbis.

O roteiro, também escrito pelos diretores, localiza os personagens na Nova Zelândia em pleno século XXI e o motor da história parte de uma equipe de filmagens que conseguiu acesso à casa dos vampiros e estão fazendo um documentário sobre eles, meses antes de um famoso baile de máscaras para os seres das sombras. Temos então um horror cômico que em sua forma é um falso documentário (mockumentary), uma perfeita escolha de estrutura para o filme, que lida bem com o baixo orçamento. A despeito disso, os efeitos especiais e visuais são interessantes em sua tosquice, primeiro, porque dialogam com o formato documental e segundo, porque representam da maneira mais crua e impessoal possível o Universo dos personagens.

Uma das preocupações que os diretores-roteiristas tiveram foi a de brincar com todos os clichês conhecidos a respeito dessas criaturas da noite, desde o fato de não poderem ver crucifixos, de terem a capacidade de hipnotizar pessoas, de terem que ser convidados para entrar em algum lugar e, a melhor parte de todas, comportarem-se ou personificarem famosos vampiros do cinema, a começar pelo erguer-se de Viago, no início do filme, aludindo a Drácula de Tod Browning (1931) ou mesmo pelo tipo de vampiro que cada um representa, elemento que dá ao texto uma camada de conflito entre amigos de diferentes épocas, amigos com personalidades e histórico diferentes vivendo e uma casa da Nova Zelândia. Não só toda a situação é hilária como também recebe bom tratamento visual e mesmo dramático por parte dos cineastas.

Viago (379 anos) é uma espécie de guia para a equipe de filmagem e serve como norte para o roteiro, pelo menos na primeira parte do filme, porque depois as entrevistas nos familiarizam com os outros vampiros e temos várias cenas deles se divertindo à noite, procurando um bom pescoço para sugar. Viago possui forte inspiração no Louis de Brad Pitt em Entrevista com o Vampiro, e essa inspiração se torna ainda melhor quando vemos interagir com outros vampiros, como Petyr (8000 anos) que é inspirado no Conde Orlok, de Nosferatu (1922); Vladislav (862 anos), que é inspirado no Drácula de Gary Oldman em Drácula de Bram Stocker (1992); Deacon (183 anos), que é inspirado no Drácula de Bela Lugosi do já citado Drácula de 1931; e Nick (recém-transformado), que é um reminiscente [de fato vampiresco] do Edward, de Crepúsculo (2008).

Através de uma direção de arte que prima pela mistura de diversos estilos de decoração do século XIX e XX e de uma fotografia sombreada, com pouca luz focal e enquadramentos principalmente em planos médios e americanos, vemos este mundo dos vampiros com o mais instigante interesse. O humor é preciso e muito bem aplicado aos personagens e na maioria das cenas, com exceção do bloco dos lobisomens, o mais fraco da fita. Existe uma ligação interessante do roteiro para a inserção desses lupinos na trama e descobrimos isso de maneira confraternizadora no final. Mesmo assim, o caminho seguido até aquele ponto (que ainda acrescenta um tom romântico um tanto… destoante) não é tão bom quanto o tratamento dado ao cotidiano dos vampiros.

Mesclando mitos, recorrências cinematográficas e figuras de vampiros originárias de diversas épocas — cujo contato com a modernidade é imperdível — O Que Fazemos nas Sombras é um criativo exercício sobre o mundo dos seres da noite. Um filme que realmente traz algo novo e trabalha muito bem com coisas já gastas do gênero. Uma pena que poucas pessoas conheçam essa maravilha.

O Que Fazemos nas Sombras (What We Do in the Shadows) — Nova Zelândia, EUA, 2014
Direção: Jemaine Clement, Taika Waititi
Roteiro: Jemaine Clement, Taika Waititi
Elenco: Jemaine Clement, Taika Waititi, Jonny Brugh, Cori Gonzalez-Macuer, Stu Rutherford, Ben Fransham, Jackie van Beek, Elena Stejko, Jason Hoyte, Karen O’Leary, Mike Minogue, Chelsie Preston Crayford, Ian Harcourt
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.