Crítica | O Que Será de Nozes?

estrelas 2

O argumento central de O Que Será de Nozes? é bastante simples e com os dois pés na comédia de ordem fabular. Com a aproximação do inverno e a escassez de comida, uma comunidade de esquilos e outros animais do Liberty Park adotam medidas sérias para tentar encher o “celeiro” até o final do outono, uma tarefa cada vez mais difícil – pelo menos até um carrinho de nozes aparecer em uma das esquinas do parque, onde o egoísta Surly (Will Arnett, na dublagem original) e seu melhor amigo, o rato Grayson (Brendan Fraser, com uma única fala) já estavam prontos para atacar e se empanturrarem de comida.

O carrinho de nozes, no entanto, é só o ponto de partida para a jornada desses animais em busca de alimento, jornada que em dado ponto do filme é emparelhada com uma trama de gângster (a ambientação nos anos 1950 ajuda a criar essa atmosfera), detalhe que o roteiro tenta espelhar a todo custo no mundo dos esquilos.

Em termos de concepção cinematográfica, a animação é pincelada com a memória temática do esquilo pré-histórico de A Era do Gelo, dos pombos de um certo curta da Pixar, de semelhanças dramáticas com Os Sem-Floresta e desengonçada tentativa de estender a obra do próprio Peter Lepeniotis, o diretor do longa, que, em em 2005, estreava na direção com o curta Surly Squirrel, do qual O Que Será de Nozes? é a versão estendida.

É claro que existem muitas diferenças entre Squirrel e Nozes, mas a base e o desenvolvimento dos personagens, bem como a relação com a dramédia gângster e o toque de amizade entre os protagonistas são todos derivados da estreia do diretor. A essa relação, também podemos acrescentar o simpático teaser Nuts & Robbers, lançando quando Nozes ainda estava em fase de produção. Nele, vemos a tentativa de um assalto a Banco e a presença cômica de Surly e Grayson, praticamente ‘secando’ as nozes dentro do carro dos bandidos e contribuindo para a frustração do roubo, exatamente o que acontece – de forma mais intricada – no longa-metragem.

O grande problema de O Que Será de Nozes?, escrito a oito mãos, é a separação episódica dos eventos, ligados por uma ideia estruturada de forma interessante no início mas que aos poucos se dissipa, dando lugar ao desenvolvimento isolado de ações que se arrastam sem fôlego algum até o final do filme. Ou o corte final deveria ser mais curto ou o roteiro deveria adotar um outro tom, expandindo a concepção de um personagem ou outro, amadurecendo relações postas aqui de forma medíocre ou dando maior sentido à vilania, que recebe um destaque a princípio muito bom mas acaba se perdendo e ajudando a construir o caráter bobo do filme. A guinada desnecessária de concepção na reta final também tem um papel fundamental nisso.

Mesmo que no sentido técnico (gráfico, fotografia, montagem interna) o filme seja aceitável e tenha cenas realmente notáveis – principalmente as que exploram o silêncio do rato Grayson e sua amizade com Surly, de longe os melhores personagens do filme – o desencontro narrativo e a mudança brusca de tom para cada esquete cênico acabam por empobrecê-lo em demasia. E como se não bastasse, o diretor ainda caiu na armadilha de usar inadvertidamente o sucesso Gangnam Style, do Psy, que serve como chamariz pop para o longa mas que aparece na hora menos propícia do filme e fecha-o dando a entender uma realidade nada condizente com o roteiro.

O público infantil provavelmente irá se deliciar com a fita e os adultos presenciarão momentos divertidos e até emocionantes, mas esse lado parcialmente positivo da projeção não faz de O Que Será de Nozes? um bom filme, o que nos deixa com uma pulga atrás da orelha, já que o roteiro não disfarça a tentativa de transformar a obra em uma franquia. Levando isso em consideração, o título brasileiro da obra faz ainda mais sentido e endossa o nosso lamento. Tomara que não precisemos repeti-lo no futuro.

O Que Será de Nozes? (The Nut Job) – Canadá, Coreia do Sul, EUA, 2014
Direção:
Peter Lepeniotis
Roteiro: Lorne Cameron, Peter Lepeniotis, Robert Reece, Daniel Woo
Elenco (vozes originais): Will Arnett, Brendan Fraser, Liam Neeson, Katherine Heigl, Stephen Lang, Maya Rudolph, Jeff Dunham, Gabriel Iglesias, Sarah Gadon, James Rankin, Scott Yaphe
Duração: 85 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.