Crítica | O Que Vocês Fizeram a Solange?

estrelas 2,5

Esqueça qualquer cuidado com os elementos mais simples da dramaturgia. Tal como outros filmes do gênero, o mais importante a ser observado em O Que Vocês Fizeram com Solange? é o desenvolvimento da linguagem audiovisual e o estabelecimento de um “clima” que nos prende, mesmo que os personagens não sejam bons, tampouco as suas necessidades dramáticas, conflitos, trajetórias, além dos comuns desfechos, geralmente apressados, com muito sangue esguichando e pouquíssima preocupação com a verossimilhança interna e externa.

Como apontado, não são estes os elementos que fizeram do giallo um gênero de sucesso, capaz de ganhar projeção hollywoodiana com os famosos filmes de psicopatas mascarados. Até chegar ao filme, uma produção de 1972 relançada com restauração recentemente, achava que já havia visto de tudo. Psicopatas vestidos de palhaço, papai noel, máscara de hóquei, capa preta e máscara da morte, cupido, mineiro, dentre outros, mas pela primeira vez vi uma relação do figurino associada a figura de um padre.

Em O Que Vocês Fizeram a Solange? o esquema é este. As testemunhas alegam que a figura que está a ceifar estudantes de um colégio para garotas utiliza uma roupa semelhante aos trajes de um padre, além das famosas luvas pretas de couro, elemento mais comum do giallo. Telefonemas misteriosos, gritos e sussurros, bem como cenas de violência simulada regem os 103 minutos deste filme irregular, mas com alguns momentos interessantes.

Em seu argumento, as mulheres são brutalmente assassinadas e todos os elementos deste tabuleiro são postos para agir na narrativa: as vítimas pouco inteligentes, que se arriscam mesmo diante da presença de um psicopata pelas ruas, o detetive durão que deseja caçar e ganhar a briga com o ceifador de garotas, mas acaba sendo enganado constantemente, através de pistas falas e reviravoltas absurdas.

Dirigido por Massimo Dallamano, responsável por assinar o roteiro, em parceria com Bruno di Geronimo, a trama é levemente inspirada no romance The Clue of New Pin, do escritor inglês Edgar Wallace, conhecido por ser um mestre das narrativas policiais cheias de mistérios e suspense. Com trilha sonora de Ennio Morricone, o filme também conta com a ótima edição de Antonio Sicilliano e Clarissa Ambach, responsável por unir a música de um dos mestres da trilha sonora com os enquadramentos curiosos de Dallamano, tendo como destaque o seu eficiente uso do ponto de vista (subjetiva) em algumas cenas de ação envolvendo a execução de crimes por parte do psicopata obcecado por matar aquele grupo de garotas.

Curiosamente, o filme é um dos representantes do giallo que menos carrega na violência. Tudo bem que a explicação sobre o local escolhido pelo psicopata para apunhalar as suas vítimas funciona como um soco no estômago do espectador, tamanha a brutalidade e a referência ao sexismo nosso de cada dia, mas o que se pode observar é a sugestão, pois pouco sangue é esparramado e as cenas de assassinato são truncadas através do uso de raccords.

Por falar em sexismo, durante vários momentos, a câmera ocupa uma postura voyeur, determinada a enquadrar a imaginação dos homens e colocar as mulheres constantemente como objetos de seus mais audaciosos fetiches. Brutal, mas higiênica no que tange aos momentos de pico dos crimes executados em cena, a produção conta com a participação da atriz estadunidense Camille Keaton, do cultuado, polêmico e também sexista A Vingança de Jennifer, produção que ganhou uma refilmagem intitulada Doce Vingança, material cultuado por muitos apaixonados por filmes de terror.

O Que Vocês Fizeram a Solange? (Cosa Avete Fatto a Solange?) – Itália/Alemanha/Reino Unido, 1972
Direção: Massimo Dallamano
Roteiro: Massimo Dallamano, Bruno di Geronimo
Elenco: Fabio Testi, Camille Keaton, Claudia Butenuth, Gunther Stoll, Joachim Fuchsberger, Karin Baal, Cristina Galbó, Leonardo Pescarolo,
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.