Crítica | O Questão: Terra Envenenada (1987 – 1988)

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estrelas 3,5

Ainda seguindo o modelo de histórias isoladas, o começo deste arco Terra Envenenada traz duas histórias que funcionam em si mesmas, novamente, adicionando características à personalidade do Questão, sua relação com Tot e a volta ao trabalho de Vic Sage, o repórter. Nenhuma das duas são grandes histórias, mas também não são ruins. Dennis O’Neil foca unicamente na aparência de cotidiano agitado de Sage e sua vida dupla, a cada revista olhando para um problema, uma rua, um bairro, um crime ou grupo de criminosos diferentes, escolha que tem suporte na vida real, mas na estrutura dos quadrinhos modernos parece estranho, nos fazendo lembrar das tramas fechadas da Era de Ouro e Prata.

Mas não é só isso. Para O Questão, funcionaria melhor uma sequência de arco inteiro, visto que estamos lidando com um herói que cresce, torna-se cada vez mais difícil de se ler e vai mudando sua forma de ver o mundo e a cidade onde mora a cada aventura e podridão local que enfrenta. Em certos aspectos, Hub City se parece com a Gotham variada que o autor nos mostrou em Xamã e Venom: em cada lugar escuro existe algo muito errado acontecendo e alguém precisa fazer alguma coisa. Para O Questão, a dualidade do querer e ter meios para fazer é um problema frequente, já que ele não tem muitos recursos disponíveis.

A história com o Sr. Volk, que abre o arco, apresenta uma mescla de misticismo, relações totêmicas entre um homem e os lobos e uma confusa ação de negócios na cidade, que acaba envolvendo Myra Connelly (a pessoa que realmente está administrando a cidade, uma vez que seu marido, o prefeito Wesley Fermin, só sabe beber, falar de Roosevelt e condenar os comunistas por tudo) e Sage, que é convidado por Myra para investigar um possível caso. A história a princípio é excelente — padrão de praticamente todas as edições de Terra Envenenada — mas se perde bastante quando traz para o centro das atenções o fator místico/totêmico sem maiores explicações e em um ambiente onde a mágica e os poderes sobrenaturais não são comuns. Não há problema nenhum em haver um padrão espiritual na história. O impasse é que este padrão destoa por completo do que tem sido este volume do Questão até o momento.

As primeiras páginas das edições #7 a 9.

As primeiras páginas das edições #7 a 9.

Em Mikado (Edição #8), o autor faz uma relação com a absurdamente famosa ópera cômica em dois atos de Arthur Sullivan e W. S. Gilbert, composta em 1885. Deste cenário operístico vem uma sequência de assassinatos também dignos de espetáculo, não apenas pela crueldade, mas por todo o ritual, todo o modus operandi que um certo homem mascarado cumpre ao assassinar “pessoas culpadas” pela cidade. No todo, a edição tem um tratamento final muito melhor que a anterior, posto que não apela para questões sobrenaturais. Ao contrário. O enredo é marcado por um discurso existencialista e sociológico evidenciando a ação dos justiceiros sociais, sua alegada boa vontade e simplicidade de seus atos no cumprimento da justiça, seguindo a ordem: “alguém cometeu um crime e não foi punido. Já que a justiça nas mãos do Estado não fez o criminoso pagar pelos seus atos, eu o farei“.

Na edição #9 acontece o sequestro de Tot e a saga avança por uma linha dramática única, fazendo sentido até para a edição final do bloco, que, a rigor, não tem a ver com a história do sequestro. O autor usa e abusa da falsa percepção das coisas, das drogas e alucinações para criar perigos “impossíveis” para O Questão. Até certo ponto, essa estratégia funciona, não só porque existe um apelo nessas impossibilidades, mas porque a arte de Denys Cowan e finalização de Rick Magyar são sensacionais, seguindo os passos de Zen e a Arte da Violência, alternando momentos de luta do protagonista em quadros vazios e diagramação inteligente nas partes com bastante texto.

No entanto, esse bom lado da arte e do apelo dramático do texto não são o bastante para dar base à resolução final do autor ou mesmo à construção do vilão da história, Hector Gomez (El Beato), um “monstro humano” que tinha um reator nuclear e buscava não só virar santo através da alquimia como também transformar argila em ouro. É ridículo só em pensar que O’Neil tenha considerado esse tipo de ponto final para o sequestro de Tot. Pelo menos todo o cenário de Santa Prisca é excelente e as ações do Questão são muito boas, dignas de um dos bons filmes de James Bond.

As primeiras páginas das edições #10 a 12.

As primeiras páginas das edições #10 a 12.

A arte fica mais cheia na edição final, que dá título ao arco, falando de uma história cruel sobre especulação imobiliária em um terreno condenado por conter compostos químicos (temática recorrente na realidade e bastante retratada nos quadrinhos). A história termina de maneira desalentada, pessimista mesmo, tirando de cena os culpados e deixando o Questão mais uma vez com um peso humano nas mãos. No todo, esses elementos que o autor trabalha são essenciais para manter o público atento e preso à história. Em nenhum momento temos um texto chato, mas em compensação, há várias passagens que nos faz questionar a sanidade de Dennis O’Neil e lamentar que ele tenha dado rumos tão Deus Ex Machina para histórias que, mesmo chegando ao fim com um saldo bastante positivo, poderiam ser ainda melhores.

O Questão: Terra Envenenada (The Question – Volume 2 – Poisoned Ground – #7-12) — EUA, agosto de 1987 a janeiro de 1988
Roteiro: Dennis O’Neil
Arte: Denys Cowan
Arte-final: Rick Magyar
Cores: Tatjana Wood
Letras: Gaspar Saladino
Capas: Denys Cowan, Bill Sienkiewicz
Editoria: Mike Gold

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.