Crítica | O Rei Amarelo em Quadrinhos

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Em 2014 estreava a primeira temporada da série True Detective, que contava a história de dois detetives que desvendaram um complexo assassinato nos anos 90. Anos depois, ambos são obrigados a voltar ao rastro do assassino, já que outro crime parecido surgiu, reabrindo o caso. Ao longo da investigação, várias pistas da trama fazem referência a um tal “Rei de Amarelo”. Pronto, isso, aliado ao sucesso da série, foi suficiente para atiçar a curiosidade do público acerca do livro O Rei de Amarelo, escrito por Robert William Chambers. Com o redescobrimento da obra, novas impressões ganharam o mercado e o tema virou objeto de interesse em várias outras mídias, inclusive nos quadrinhos.

Publicado originalmente em 1895, o livro é na verdade uma coletânea de contos que compõe o mesmo universo, todos fazendo algum tipo de referência ao Rei de Amarelo. O Rei de Amarelo, por sua vez, é o título de uma peça de teatro; quem ler o seu texto é vítima da tragédia e da loucura. O interessante é que Chambers jamais revela o texto integral da peça ou explica em detalhes os elementos malditos da obra. Há uma ou outra transcrição de pequenos trechos, uma breve descrição do Rei, algumas menções e só. Nada muito claro.

E é este livro que serviu de inspiração para a editora Draco criar O Rei Amarelo em Quadrinhos, uma publicação composta por oito contos baseados no universo “amarelo”, todos escritos e desenhados por autores nacionais. Este volume é, na verdade, o que inaugura a trilogia de terror temático da editora, que conta ainda com O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos e termina com Demônios da Goetia em Quadrinhos.

Observação importante: apesar de eu utilizar, em alguns momentos do texto, a expressão mitologia “amarela” ou algo equivalente, fazendo referência ao conjunto de contos escritos por Robert Chambers, é válido ressaltar que o autor, na realidade, aproveitou (e extrapolou) vários termos criados pelo escritor Ambrose Bierce. Um exemplo disso é “Carcosa”, já citada por Bierce num conto de 1891.

Referência ao terror cósmico de Lovecraft PLANO CRITICO O REI AMARELO

Referência ao terror cósmico de Lovecraft.

O amarelo faz referência à degradação moral, insanidade e decadência humana. Tais temas permeiam os contos e se manifestam de formas diferentes, nem sempre explícitas, assim como o próprio Rei Amarelo. Na verdade, esta é uma característica presente no livro que foi reutilizada no quadrinho. Às vezes, elementos relacionados à mitologia “amarela” estão diretamente ligados a terríveis acontecimentos (como o livro, o símbolo amarelo, Carcosa, Hastur ou a figura do Rei). Porém, em outros casos, o Rei Amarelo se faz presente mais como uma influência negativa, sobre a qual o leitor não possui total conhecimento. O que podemos perceber são seus efeitos nefastos sobre as pessoas.

Agora falando exclusivamente do quadrinho. Por exemplo, nos contos Taxidermia Anímica e O Rei dos Ratos, os acontecimentos estranhos começam (ou são intensificados) após a leitura de um livro pelos protagonistas, o que configura uma influência explícita de um elemento da mitologia “amarela”. Já em A Boneca ou em Caninos, tal influência é muito mais sutil, não havendo inclusive nenhuma menção textual ao Rei Amarelo ou algum outro elemento relacionado. Nestes casos, só podemos supor que tais ações ocorram em nome ou sob influência do Rei. Ou seja, há uma parte da história que o leitor não conhece, que colabora naturalmente para um clima de mistério mais denso. Além disso, acaba dando aos autores liberdade para trabalhar em abordagens diferentes do universo tradicional de Chambers, já que o próprio autor deixa aspectos da obra original em aberto.

Adicionalmente, perceba que mesmo quando há uma influência explícita que desencadeia o tormento, é comum haver outros elementos que causam estranheza e não são completamente explicados. Em Maldita Rotina vemos o famoso quadro do menino chorando, do italiano Giovanni Bragolin. Levando-se em consideração as lendas urbanas que envolvem a obra, será que o quadro já constituía algum tipo de ameaça antes mesmo do livro aparecer na história? Os finais em aberto fazem parte da obra original de Chambers e também foram utilizados nesta adaptação.

Por falar em abordagens diferentes, em Fantasmas na Máquina, há um aspecto de modernidade muito bem trabalhado pelo autor. Na história, Tessie, uma modelo fotográfica, vê sua vida desmoronar depois de ler e postar numa rede social a foto de um certo livro. No entanto, o mal que a oprime usa suas redes sociais como meio para a ruína da personagem. Além de muito bem construída, a história contém ainda uma crítica totalmente cabível aos tempos atuais, nos quais a vida virtual adquire uma importância muito maior do que a vida real. Maldita Rotina também cumpre bem o papel de traduzir a peça maldita para a atualidade, contando a história de um advogado que é vítima da loucura após estudar o livro-caixa de uma empresa em processo de falência.

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Vale ainda ressaltar duas outras histórias presentes na coletânea. A Rainha de Amarelo, que conta com roteiro bastante criativo e apresenta uma versão no mínimo interessante para as circunstâncias que envolvem a morte de Edgar Allan Poe. E também Caninos, que faz uma releitura sombria (e, justamente por isso, próxima da fábula original) e muito bem amarrada da clássica história da Chapeuzinho Vermelho.

Dentre todos os contos, somente os dois últimos eu acredito que poderiam ter sido levemente mais ajustados para ficarem no mesmo nível dos demais. Taxidermia Anímica fala sobre um jovem ajudante de taxidermia que sonha em ser ator e é convidado para participar de uma peça chamada O Rei de Amarelo. A narrativa se divide entre a rotina do rapaz e um sonho estranho que se repete com frequência. Em dado momento o teor lúdico toma conta da história e a conexão com a realidade, que tornava o conto crível e plausível, se perde, culminando num final espetacular demais para o tom da história. Já em Medíocre há uma ótima premissa, que nos mostra um crítico que leu o livro O Rei de Amarelo e o considera ruim. Para ele “a mediocridade é amarela” (haha). É uma história engraçada, irônica e que faz bom uso da metalinguagem como recurso narrativo, mas que termina se levando um pouco a sério demais.

Por fim, quero destacar a impactante arte de capa, desenhada por João Pirolla. Foi ela que me chamou atenção para a obra, que mais tarde me levou ao livro de Chambers e à série True Detective. Trata-se de um desenho com estilo realista, de aspecto brutal e perturbador, que com certeza sintetiza a insanidade da mitologia “amarela”. Talvez seja uma descrição pessoal demais, mas foi o que me abriu as portas para Carcosa. Com desenhos em preto, branco e amarelo, O Rei Amarelo em Quadrinhos é um excelente quadrinho de terror mesmo para quem não conhece a obra original.

O Rei Amarelo em Quadrinhos (Brasil, 2015)
Editora: Draco
Roteiros: Pedro Pedrada, Tiago P. Zanetic, Mauricio R.B. Campos, Airton Marinho, Erik Avilez, Tiago Rech, Rafael Levi, Raphael Salimena
Desenhos: Pedro Pedrada, Lucas Chewie, Péricles Ianuch, Marcos Caldas, André Freitas, Victor Freundt, Samuel Bono, Raphael Salimena
Capa: João Pirolla
Organização: Raphael Fernandes
164 páginas

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.