Crítica | O Rei da Comédia

estrelas 4,5

Quem nunca sonhou em ser famoso? Quem nunca flagrou-se falando sozinho, fingindo estar cedendo uma entrevista ou aparecendo em um programa de televisão? Sonhar é normal e ajuda-nos a estipular nossos objetivos futuros. No entanto, como diz a velha frase, quem muito sonha esquece de viver a realidade, por isso, é importante saber dosar o quanto pensamos sobre o presente e futuro. Baseado nisso, imagine alguém que, de tanto sonhar, cria uma realidade diferente em sua mente, alcançando um nível de loucura em que suas idealizações realmente existem. Martin Scorsese, em O Rei da Comédia, convida-nos justamente a conhecer a psique de um sujeito assim, através de mais uma história com forte estudo de personagem em sua valiosa carreira.

O longa conta a história de Rupert Pupkin (Robert De Niro), aspirante a comediante obcecado por se tornar um rei da comédia. Certo dia, ele encontra seu ídolo, Jerry Langford (Jerry Lewis), e pede para fazer uma participação no talk show dele. Quando Pupkin percebe que não conseguirá a oportunidade, ele não desiste e começa a mostrar o lado mais doentio de sua obsessão na busca de conseguir o que almeja.

Além de abordar vários temas bíblicos em seus filmes, Martin Scorsese sempre foi um especialista em produzir intensos estudos de personagem, como, por exemplo, o de Travis Bickle, em Taxi Driver, e Jake LaMotta, em Touro Indomável. A estratégia do diretor não é diferente em O Rei da Comédia e o roteiro, escrito por Paul D. Zimmerman, mergulha fundo na psique de Rupert Pupkin. Baseado nisso, o grande mérito do roteirista está na sutil construção dos transtornos do protagonista. Se, no início, Pupkin parece ser apenas um fã apaixonado e empenhado em ser um comediante profissional, como seu ídolo; com o decorrer da história, ele mostra-se uma pessoa transtornada, iludida e capaz de criar uma realidade paralela em sua mente. Portanto, a genialidade do longa de Scorsese está em subverter a expectativa do público sobre a abordagem do longa, fazendo uma trama que, aparentemente, envolve apenas o fanatismo de um fã, tornar-se uma obra verdadeiramente perturbadora.

Para despertar esse incômodo, Scorsese é preciso em criar cenas que, de tão constrangedoras, causam um genuína inquietação em quem assiste, como, por exemplo, na sequência em que Pupkin leva uma ex-colega de escola para a casa de Jerry, alegando ser amigo do comediante, e, quando o dono da casa escancara algumas verdades na frente da moça, é inevitável não sentir vergonha pela humilhação que o protagonista passou na frente dela.

Devido a essas situações, o espectador não sente raiva ou medo de Pupkin, mesmo sendo um sujeito visivelmente perturbado, mas sim pena, ou seja, a graça está em rir dele e não com ele. Aliás, se o protagonista causa algum temor em quem assiste é por ser assustadoramente patético, algo destacado com maestria por Scorsese, através de sequência propositalmente longas, destacando como o protagonista humilha-se para tentar falar com Jerry, como em sua ingênua espera nos escritórios do apresentador. Além disso, a trama insere ainda mais profundidade à Pupkin quando mostra, em seus sonhos, como alguns traumas de infância influenciaram para o surgimento deste distúrbio, como na cena em que ele imagina Jerry convidando seu ex-diretor pedindo desculpa por toda a humilhação que sofreu no período colegial, dizendo “você estava certo e nós errados”.

Aliado ao ótimo roteiro, Scorsese utiliza com maestria as cores em sua direção, seja através do figurino ou direção de arte, aplicando o vermelho para representar perigo ou a insanidade dos personagens, repare como Masha presenteia Jerry com um suéter vermelho quando sequestra-o; e o roxo simboliza Jerry, o que para Pupkin significa a “cor” a ser buscada, perceba como ele milimetricamente senta-se na frente de uma pilastra roxa e, quando a recepcionista diz que não é mais necessário esperar ali, o aspirante a comediante faz questão de permanecer no local.

Obviamente, se a peculiaridade de Pupkin funciona, é graças a uma excelente interpretação de Robert De Niro, construindo um personagem visivelmente ingênuo, iludido e com alguns maneirismos que destacam seu distúrbio, como a constante mania de ajeitar a gravata. Contudo, a escolha de elenco mais inteligente feita por Scorsese foi a de Jerry Lewis, uma vez que o personagem é basicamente uma representação do ator, no entanto, isso não significa que Lewis não precisou atuar, pelo contrário, ele é perfeito em demonstrar o cansaço do apresentador com a fama, sua solidão e leve falta de paciência para lidar com os fãs.

Se não bastasse o grande desenvolvimento dos personagens, O Rei da Comédia ainda possui uma eficiente abordagem sobre o quão fútil pode ser idolatrar alguém e como a incessante busca por pela fama é prejudicial. Aliás, há diálogos aqui que poderiam tranquilamente ser transferidos aos dias atuais, como na cena em que uma senhora pede gentilmente para Jerry falar com seu sobrinho ao telefone e, quando o apresentador nega, ela agressivamente deseja-lhe que adquira câncer (lembrando muito a conduta de algumas pessoas pelas redes sociais).

Em um término parecido com o de Taxi Driver, testemunhamos na sequência final de O Rei da Comédia a idealização de Pupkin sobre o que ocorreria após o crime que cometeu, imaginando-se um escritor e apresentador de sucesso, resultando na genial cena de conclusão em que o animador de platéia de seu ilusório talk show repete insistentemente “senhoras e senhores, este é Rupert Pupkin”, representando a fissura doentia do personagem em ser reconhecido, algo exemplificado pelas palavras de seu monólogo, “mais vale ser rei por uma noite, do que um idiota a vida toda”. Em uma época em que as redes sociais facilitam a divulgação de conteúdo, tornando alcançável o sonho de tornar-se uma celebridade, qualquer semelhança entre a ideologia de Pupkin e a postura de alguns pelas redes é mera coincidência.

O Rei do Comédia (The King of Comedy) — EUA, 1983
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Paul D. Zimmerman
Elenco: Robert De Niro, Jerry Lewis, Diahnne Abbott, Sandra Bernhard, Shelley Hack, Cathy Scorsese, Tony Randall, Martin Scorsese, Ed Herlihy
Duração: 109 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.