Crítica | O Rei Dave (2016)

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estrelas 5,0

Para qualquer cinéfilo que se preze, experimentos formais em filmes são sempre bem-vindos, pois dão a quem realiza e a quem assiste a oportunidade de explorar possibilidades narrativas, de ver e ouvir uma história contada de maneira diferente em uma mídia com linguagem já bem estruturada; de incentivar cada vez mais a criatividade e, com isso, a evolução do cinema.

Um dos experimentos mais interessantes, em todos os pontos de vista que se possa considerar, é a quebra da “barreira da edição”, cuja alternativa seria a exploração de um cenário, com atores em cena, filmados no decorrer de um certo tempo, sem cortes, apenas com elementos de montagem dentro do plano, tais como a obediência às marcações, tráfego ordenado e, nesse caso, milimetricamente pensado dentro de um espaço (mise-en-scène).

Em Festim Diabólico (1948), Alfred Hitchcock já brincava com essa fórmula, e mesmo não tendo tecnologia para fazer um único plano, editou o filme de forma a parecer que possui mesmo um único plano, modelo que alguns longas como Irreversível (2002), Enter the Void (2009) e Birdman (2014) também usaram.

Mas o grande salto de dificuldade ocorre quando falamos, de fato, de um único plano-sequência. Não de maneira displicente e em louvor à forma em detrimento da história, como é o caso de Time Code (Mike Figgis, 2000). A questão do único plano não está só no incrível esforço e interessante proposta de realizar um filme sob essa tag, mas em fazer com que a proposta tenha sentido e seja usada como um dos elementos do filme, não apenas como uma casca charmosa para exibição. Quem fez isso de maneira mais coerente pela primeira vez foi Béla Tarr, em seu Macbeth (1982), mas o primeiro produto realmente bem acabado desse experimento e condizente com toda a sua proposta (além de grande excelência no resultado final) veio apenas em 2002, pelas mãos de Aleksandr Sokúrov, em Arca Russa. O Rei Dave (2016) faz parte desse time de filmes e tem o alemão Victoria (2015) como parte da mesma safra de intenções.

Todavia, o que separa positivamente O Rei Dave de todos esses longas é a incorporação de outros testes formais ao plano único, além da inovadora forma de utilizar o tempo e o direcionamento narrativo nesse fluxo contínuo. O filme, escrito e protagonizado por Alexandre Goyette, que adaptou o roteiro de sua própria peça de teatro, tem um motor bastante simples, mas não começa a partir dele. As sinopses dizem que é uma história de vingança de Dave contra um rapaz que dançou com sua namorada e foi… digamos… mais saliente do que deveria com ela. Mas a coisa não é nem de longe tão simples. E o filme é muito mais do que “apenas uma jornada de vingança”.

Para começar, a condensação do teatro com o fato de termos um único plano foi feita com perfeição por Goyette e pelo diretor Daniel Grou (Podz), que utilizaram nove quilômetros de cenário para contar a saga de Dave, que acontece em um espaço de 10 dias e segue o personagem a pé, de carro, ônibus, metrô; com cenas no presente, passado e futuro, e enfrentando obstáculos que vão de briga com gangues, fuga e acidentes, até um incêndio. Como se não bastasse, o filme tem a quarta parede quebrada a partir de seu 5º minuto, quando o protagonista fala direto para a câmera e segue assim até o último (e belo, doloroso) take, de modo que o público tem a descrição, a explicação, os diálogos, as confissões e planos de Dave como se estivesse naquele cenário ou como se o personagem estivesse ao nosso lado, no cinema, contando suas aventuras.

O resultado é tremendo. A atuação de Alexandre Goyette é algo para se aplaudir de pé, pois se ajusta perfeitamente a cada nuance, lugar, pessoas, reações, e sempre trata o espectador como um amigo, jamais deixando de fazer suas observações sacanas ou emotivas sobre alguma coisa. Nós entendemos o drama de hombridade do personagem e sua neurose para “defender a honra” e a si mesmo, e estamos com ele em todo o trajeto, não só ouvindo a sua versão dos fatos, mas também vendo a coisa toda se construir. Como não há cortes, o roteiro se aproveita para dizer muito sobre Dave nesse jogo de verdade e mentira através do discurso e do julgamento dos ato pelo público.

O Rei Dave é um filme pioneiro até dentro da classe ainda pequena de bons filmes feitos em um único plano. A alternância temporal, o espaço de tempo transcorrido e o espaço físico que o protagonista percorre tornam o esforço ainda mais admirável, e isso fica melhor quando entendemos que tudo está a favor do roteiro, dos personagens e da atmosfera fugaz da vida de Dave, que também entendemos como nossa, em um desalento e cumplicidade de olhar, na última cena, capazes de nos fazer testemunhas inertes ou culpados de alguma coisa ali acontecida. O filme tem a capacidade de nos cansar (no bom sentido) e de nos fazer sentirmos sozinhos, como o protagonista, mesmo estando cercado de pessoas no cinema, como ele estava cercado de pessoas no metrô. Um experimento que ultrapassa a tela e consegue muito mais do que divertir e impressionar. Consegue tocar o espectador de muitas formas.

O Rei Dave (King Dave) — Canadá, 2016
Direção: Daniel Grou
Roteiro: Alexandre Goyette (baseado em sua própria peça)
Elenco: Alexandre Goyette, Mylène St-Sauveur, Karelle Tremblay, Moe Jeudy-Lamour, Mathieu Baron, Jhonattan Ardila, Sabrina Baribeau, Lise Roy, Jade-Mariuka Robitaille, Jean-François Beaupré, Marie-Lyne Joncas, Alain Nadro, Philippe Boutin, Micheline Bernard
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.