Crítica | O Rei do Deserto

estrelas 4

O diretor e ator William S. Hart é de uma geração de pioneiros do cinema que começaram a trabalhar nessa nova arte quando já eram homens e mulheres maduros. Aos 43 anos, Hart estreou como ator no curta-metragem Ben Hur (1907). Um hiato de sete anos o separa dessa primeira experiência e uma prolífica (porém relativamente curta) carreira no cinema, especialmente estabelecida no western, cujo pontapé inicial foi Bad Buck of Santa Ynez (1914), obra que marca o retorno de Hart à atuação e sua estreia na direção.

De 1914 a 1925, Hart dirigiu 53 filmes e atuou em mais algumas dezenas, tanto sob sua própria direção, quanto sob direção de outros cineastas. O seu último filme foi O Rei do Deserto, obra que retrata a “Cherokee Strip Land Rush” e que teve um forte impacto sobre o longa ganhador do Oscar em 1931, Cimarron, e também na versão desse filme lançada em 1960, dirigida por Anthony Mann e Charles Walters.

Em 1939, a distribuidora novaiorquina Astor Pictures relançou O Rei do Deserto nos Estados Unidos e resolveu tirar William S. Hart, então com 75 anos, da aposentadoria. Para o relançamento, foi filmada uma introdução de oito minutos onde o ator comenta brevemente sobre o contexto histórico que pontua o filme, a “Land Rush”, a relação entre o vaqueiro e o colono, e, por fim, rememora seus tempos de ator e diretor, quando, ao fim da introdução, afasta-se da câmera visivelmente emocionado.

Tanto no discurso introdutório de Hart quanto no roteiro de O Rei do Deserto há uma curiosa ironia histórica. Em primeiro lugar, temos a Marcha para o Oeste empreendida pelo governo dos Estados Unidos desde o início do século XIX, onde as terras eram tomadas dos índios. Algumas dessas terras foram arrendadas a famílias para que criassem rebanhos, dando origem aos grandes ranchos que tanto vemos nos westerns além da figura histórica do cowboy. O lucro para os fazendeiros vinha da venda da carne, leite, couro e dos famosos rodeios. As cidades dessas regiões tinham muitas semelhanças com as vilas que conhecemos do Velho Oeste, uma organização que será mantida e refigurada pelos colonos dessa fase da História.

No governo dos presidentes Benjamin Harrison (1889 – 1893) e Grover Cleveland, em seu segundo mandato (1893 – 1897) a demanda por uma política de “novas terras” para os colonos se tornou pauta grave no Senado, o que impulsionou Harrison a reformular a política dos arrendamentos e dar aos colonos as terras dos Cherokees, em Oklahoma, agora nas mãos dos vaqueiros, uma política assegurada por Cleveland, o presidente seguinte. É nesse pequeno caos histórico que O Rei do Deserto se passa.

A história tem a graça e simplicidade dos westerns vintistas. Don Carver (William S. Hart) é um vaqueiro que vê com amargura a decisão do governo em dar as “terras do gado” aos colonos. A primeira parte do filme mostra uma grande resistência do protagonista em se registrar para ter uma terra demarcada quando a corrida começasse, tomando para si a metáfora do título original do filme, Tumbleweed. O tumbleweed é a parte superior de alguns tipos de cardo, que quando a planta amadurece e seca, se solta das raízes e é levado pelo vento. Sem nada que o prendesse à terra, Don Carver via a vida como uma diáspora, assim como aquela empreendida pelos tumbleweeds. Tudo isso, no entanto, começa a mudar quando a bela Molly (Barbara Bedford) aparece acidentalmente em sua vida.

Há uma ligação entre elementos familiares e cenas de comédia e ação no platô do western tão bem realizadas no longa, que o espectador se esquece de que está vendo um filme mudo. As intrigas e principalmente o destaque para o valor do homem no Velho Oeste, fosse ele vaqueiro ou colono, são destacadas ao longo de toda a obra, tendo um elenco masculino bem escalado para isso, mesmo com um ou dois canastrões em cena.

O Rei do Deserto, assim como O Cavalo de Ferro, Aliança de Aço e tantos outros westerns de cunho histórico, mostra, sem querer, as contradições da organização política e social na História dos Estados Unidos. O filme nos traz uma ranch story clássica de qualidade, sem estereótipos racistas em relação aos índios e que sofre apenas na última cena, com um abrupto e inexplicável término. Todavia, embora não deixemos de notá-lo, não lhe damos assim tanta importância. O melhor de O Rei do Deserto já tinha sido bem apresentado, desenvolvido e quase resolvido. O ponto final foi apenas um mal detalhe.

O Rei do Deserto (Tumbleweeds) – EUA, 1925
Direção:  King Baggot, William S. Hart
Roteiro: Hal G. Evarts, C. Gardner Sullivan
Elenco: William S. Hart, Barbara Bedford, Lucien Littlefield, J. Gordon Russell, Richard Neill, Jack Murphy, James Gordon, George F. Marion, Gertrude Claire, Lillian Leighton
Duração: 80 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.