Crítica | O Rei do Show

“I am brave, I am bruised
I am who I’m meant to be, this is me”

O sonhar é algo definitivamente atrelado a muitas obras cinematográficas por aí, de animações da Disney a dramas violentíssimos. Sem sombra de dúvidas, como diz a citação de Paulo Coelho, nossos sonhos são as letras do livro que nossa vida está escrevendo. Sonhar, porém, é um privilégio que muitos não têm, que muitos não conseguem arrancar de tanta miséria e dificuldade. Em decorrência do evento que foi o Pânico de 1837, é muito provável que o sonho de P.T. Barnum (Hugh Jackman) nunca tivesse sido abrir seu próprio circo, seu show de horrores, e dar alguma dignidade humana ao próximo. Tudo isto foi consequência do anseio do empresário em colocar dinheiro em seu bolso. Se o sonho é um desejo que o coração faz, como Cinderela aponta, o desejo de Barnum foi movido por moedas; moedas estas que não só garantiram sua riqueza, como seu nome estampado para além da história. Esse magnífico showman então ganha uma biografia musical que muito deve ao antigo – e por muitos já batido – sonho imensurável que atende ao heroico protagonista, destinado a ser maior do que as características que compõem o seu passado e o seu presente.

Em um primeiro degrau de perspectiva, o filme se sustenta inteiramente nessa linha de raciocínio, que ganha doses mais significativas de camadas ao passo que desconstrói esse rei do show. É interessante vermos a chama da luta de classes ser um obstáculo para P.T. O homem, apesar da ascensão social, não recebe o prestígio da elite, e, portanto, procura ir de encontro a espetáculos mais palpáveis para a mentalidade da alta sociedade americana do século XIX. Nesse caminho, porém, é confrontado pela chama da ganância em oposição à necessidade  inicial que o levou a criar esse show de horrores, baseado essencialmente em mentiras. Mas mentiras que provocam, ao menos, sorrisos verdadeiros. Um lamento, porém, que nessa adaptação da vida de Barnum, a qual sugere fortes licenças poéticas tomadas, o aspecto cinematográfico caia em caminhos convencionais, ainda mais no que se refere ao romance entre o personagem de Hugh Jackman e a sua esposa Charity (Michelle Williams). É claro que na escalada profissional de Barnum o relacionamento dele com a mulher seria afetado, assim como em inúmeras outras obras. Sem trazer um senso de novidade, o filme descobre um paralelo com aquelas clássicas e desnecessárias injustiças do acaso amoroso. A resolução de toda a problemática é apática, sendo um claro sinal de um ponto A que vai para um ponto B sem nenhum esmero da narrativa desse roteiro de Jenny Bicks e Bill Condon em preparar uma trajetória diferente de simplória.

Em outro plano, a personagem Jenny Lind (Rebecca Ferguson), enquanto potencializa o filme com sua enorme presença, esbarra na necessidade da obra em se ater aos clichês, que o filme, por algum momento, sinalizou que não ia se ater. A tensão sexual entre P.T. e Jenny vai sendo construída progressivamente, mas se esvai do nada, enquanto poderia ser ela um agravante dos demônios que possivelmente atingiram Barnum em sua vida. Daria-se assim mais credibilidade à figura do astro como um homem, acima  de tudo, passível de erros. No mais, se sustenta um herói dos fracos e oprimidos, obviamente branco e boa pinta, uma dissonância com a figura dessa personalidade na vida real (nenhum pouco atraente), que mais funciona pelos propósitos mercadológicos do que pela sustentação de um embate verdadeiro e relevante para com uma sociedade de padrões. No propósito de romancear toda essa esfera narrativa e não mostrar, portanto, ousadia, Hugh Jackman fornece uma atuação amável, que senão crível, magicamente atrelada à capacidade do cinema de escapar dos problemas sérios e fornecer, no caso, uma experiência sobre sonhos e esperança, ambos fornecidos, porém, na forma mais passiva possível.

O que mais se sobressai em O Rei do Show, por outro lado, acaba por ser as discussões sociais atemporais que são trazidas à tona pelo roteiro da obra. O romance entre Phillip Carlyle (Zac Efron), sócio de Barnum, e Anne Wheeler (Zendaya), acrobata de circo, surge como uma das grandes surpresas do filme, evidenciando o confronto provocado pela elite branca. Diferentemente de qualquer outra “aberração”, tanto Anne quanto seu irmão são meramente negros; a cor da pele, contudo, faz ambos serem relegados ao escuso. No meio de mulheres barbadas e homens-lobo, a etnia ser vista como algo tão horrorizante quanto estas características únicas (lembre-se que o homem em sua ignorância tende a temer o desconhecido, o novo) é produto de um tempo que definitivamente não encontrou um fim por completo. De qualquer forma, o longa-metragem termina sendo, sem fazer esforço algum para ser, um ode à diversidade. Para isso, o filme dirigido por Michael Gracey encontra um forte apoio no elenco carismático, o que muito se refere a própria natureza das diversas caracterizações desses personagens imensamente especiais.

Porém, reiterando um ponto anterior, em momento algum vemos a narrativa buscar evoluir e desenvolver esses indivíduos, nem mesmo como parte de um coletivo. O foco é claramente P.T. Barnum, embora soe como um desleixo por parte de um filme que possui canções sobre heterogeneidade não tratar sobre as tantas dessemelhanças que presenciamos em tela. Até mesmo Lettie Lutz (Keala Settle), uma mulher com barba, e Charles Stratton (Sam Humphrey), um anão conhecido como General Tom Thumb, não ganham papéis maiores que artificiais alavancas narrativas ao showman. A poderosa This Is Me, performada pela estonteante voz de Settle, poderia servir como um propósito narrativo mais interessante se o núcleo das chamadas – preconceituosamente, é claro – “aberrações” fosse abordado devidamente. No mais, a estrutura de todas as músicas seguem um mesmo comando, o qual funciona certeiramente dentro dos ambientes que se propicia a explorar, embora peque substancialmente na repetição cansativa da fórmula, a qual desgasta ideias sonoras extremamente válidas.

Nesse espetáculo, todas as músicas são hinos que sustentam a mesma mensagem sobre sonhos e aceitações. As letras das canções perdem a decente qualidade do trabalho dos mesmos compositores de La La Land, ao serem extasiadas por novas sequências e diferentes músicas, que invocam o mesmo senso de grandiosidade e a mesma sensação de um épico musical. Todavia, se a trilha sonora original da obra não encontra os caminhos mais adequados para contar a história pretendida, todos os segmentos musicais são excelentemente bem coreografados. A sequência de Rewrite the Stars, entre Anne e Phillip, denota um controle de câmera do diretor, o qual brinca bastante com as infinitas possibilidades do cenário, levando o espectador a um cinema imageticamente extraordinário. Ademais, outra que consegue se desvencilhar da usualidade das demais canções é The Other Side, a qual, além de uma melodia chiclete (assim como as demais músicas) também apresenta um novo Zac Efron, mais habilidoso musicalmente que o apresentado em High School Musical.

Por fim, a fotografia de Seamus McGarvey é belíssima, com uma paleta de cores vívida aliada a uma estética extremamente vistosa, que às vezes se perde na falsa computação gráfica que preenche alguns cenários. O mesmo não pode ser dito dos figurinos, exuberantemente impecáveis. O Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus encerrou suas atividades sete meses antes de O Rei do Show estrear nos cinemas americanos. Se a vida real, infelizmente, não consegue mais se aventurar pelas terras pioneiras de Barnum, o cinema revive magicamente as proezas inacreditáveis desse revolucionário circense. Nesse show, sua história contada é permeada por números musicais energéticos, um carisma apaixonante e uma espirituosidade inerente à capacidade que artistas têm e tiveram de superar as adversidades que o mundo fomentou durante séculos e séculos. A questão é que O Rei do Show não consegue trabalhar o circo e o show de horrores sem adentrar tendas óbvias, de pouca memorabilidade, a qual intensifica-se por um caráter genérico que tira muito da graça do maior espetáculo da Terra.

O Rei do Show (The Greatest Showman) — EUA, 2017
Direção: Michael Gracey
Roteiro: Jenny Bicks, Bill Condon
Elenco: Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Rebecca Ferguson, Zendaya, Austyn Johnson, Cameron Seely, Keala Settle, Sam Humphrey, Yahya Abdul-Mateen II, Cameron Seely, Daniel Everidge, Paul Sparks, Gayle Rankin, Shannon Holtzapffel, Will Swenson
Duração: 105 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.