Crítica | O Reino na Ilha dos Macacos

estrelas 3,5

Publicada pela Marvel Comics, a revista Planeta dos Macacosiniciada em 1974, nos trouxe, ao longo de suas vinte e nove edições, as adaptações de todos os filmes da franquia lançados até então. Em paralelo, cada edição, em geral, trazia uma história original, começando com a ótima Terror no Planeta dos Macacos, cuja trama foi desenvolvida até o cancelamento da revista. Uma dessas histórias exclusivas é O Reino na Ilha dos Macacos (em tradução livre de Kingdom on an Island of the Apes), roteirizada por Doug Moench, principal roteirista dessa publicação da Marvel, que nos entrega uma mistura do Planeta dos Macacos original, com A Máquina do Tempo e as lendas Arturianas.

Derek Zane, um cientista de Nova York constrói uma máquina do tempo e, após ser rejeitado pela sua namorada e pela NASA, decide abandonar o seu tempo presente e viajar para o futuro, especificamente o ano no qual, segundo sua teoria, o astronauta George Taylor (protagonista do primeiro filme, interpretado por Charlton Heston) e sua tripulação foram parar, acidentalmente, em sua viagem pelo espaço. Ao chegar em seu destino, Zane acaba se deparando com um grupo agressivo de símios e, ao escapar deles, encontra com uma estranha sociedade medieval, claramente inspirada nas lendas do rei Arthur.

A principio, a trama soa como uma mera cópia do filme original, com leves alterações em sua premissa, como a inclusão da máquina do tempo, a qual, naturalmente, dialoga com a obra de H.G. Wells. Essa nossa percepção, claro, muda totalmente quando o protagonista se encontra com um gorila chamado Gawain, que o leva para a corte do rei Arthur (outro símio, claro). Desse ponto em diante, o roteiro de Moench assume uma veia consideravelmente mais sarcástica, nos entretendo através dos pensamentos do personagem central, que, de início, considera tudo aquilo uma loucura, tecendo comentários sobre cada um daqueles com quem se encontra, incluindo a jovem Andréa e o orangotango de nome Lancelot.

É impressionante como a narrativa se altera completamente desse ponto em diante. Até Derek se encontrar com Gawain, o roteiro tendia, perigosamente, para a repetição do primeiro filme, com balões de narração recheados de metáforas desnecessárias sobre os sentimentos do personagem principal, chegando ao ponto que uma página inteira é preenchida pelo que ele sentia após sua namorada terminar com ele. Além disso, a ameaça representada pelo grupo agressivo de símios fora apresentada de maneira exageradamente genérica, não acrescentando absolutamente nada de novo para a franquia.

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A ficção científica, então, flerta com o épico medieval e a fantasia, revigorando a história consideravelmente, com cada capítulo nos entregando um novo perigo, cada um bem diferenciado do outro, como o duelo de justas ou Derek ajudando a defender o castelo de Arthur, acontecimento que marca o clímax da revista, encerrando o arco de maneira cíclica, condensada e surpreendemente simples, visto que o embate final é resolvido brevemente, trazendo ação na medida certa.

Evidente que essa agilidade é fruto da curta duração da história, cujo tamanho, provavelmente, foi definido como sendo o de duas edições pela editora. Essa necessidade de apressar determinados pontos da trama transparece na forma como a arte e o texto dialogam entre si. Embora bastante detalhado, o traço de Rico Rival evidentemente se apoia nos balões narrativos, os quais nos contam das ações do personagem principal, como em um livro em primeira pessoa. A fluidez da leitura, por vezes, é quebrada em razão do excesso de texto escrito, que, em determinados pontos, chega a dispensar a imagem. Felizmente tais deslizes se tornam mais raros conforme progredimos a leitura.

Dito isso, O Reino na Ilha dos Macacos se configura como uma obra não muito atrativa em seu primeiro terço. Quando o seu lado fantasioso/ medieval, contudo, começa a aparecer, somos rapidamente cativados pela audácia do roteiro de Doug Moench, que, no fim, nos entrega uma história bastante original, a qual, surpreendentemente, consegue unir, de maneira orgânica, Planeta dos MacacosA Máquina do Tempo e as lendas do rei Arthur.

O Reino na Ilha dos Macacos (Kingdom on an Island of the Apes, EUA – 1975)
Roteiro: Doug Moench
Arte: Rico Rival
Capas: Greg Theakston, Bob Larkin
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: junho e julho de 1975
Editora no Brasil: Não publicado no Brasil
Páginas: 88

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.