Crítica | O Relatório Minoritário, de Philip K. Dick

estrelas 5,0

Escrever sobre uma obra literária depois de assistir sua adaptação cinematográfica não é uma experiência que particularmente agrada a este crítico. O caminho inverso parece mais natural, mais aceitável, por alguma razão qualquer que é difícil de explicar. No entanto, não foi possível assim fazer com O Relatório Minoritário, tendo em vista o alto gabarito do filme de Steven Spielberg, lançado em 2002. Já tendo-o assistido algumas vezes, é difícil desvencilhar-se da invasão das imagens quando da leitura do conto de Philip K. Dick.

Mesmo assim, vale o esforço, pois o conjunto da obra do famoso escritor de ficção científica americano é fascinante por sua capacidade de plantar sementes de ideias em relativamente poucas páginas, como foi o caso em Podemos Recordar para Você, Por um Preço Razoável, base de O Vingador do Futuro, escrito em econômicas 26 páginas. O Relatório Minoritário não fica atrás, ainda que seja um conto mais robusto, mais desenvolvido, de quase 50 páginas, em que o autor lida com uma fascinante hipótese: e se fosse possível prever crimes antes de eles serem cometidos?

É este o conceito que, sem perder tempo, aprendemos na história, quando somos apresentados ao “careca, gordo e velho” John Anderton (viram como é estranho assistir ao filme, ter em mente Tom Cruise, e deparar-se com esta descrição?), chefe da Divisão Pré-Crime de Nova York, que usa precogs – humanos com poderes especiais – para prever crimes que, ato contínuo, são impedidos pela força policial, com o encarceramento dos futuros criminosos. Anderton, logo quando o jovem Ed Witwer chega à divisão para inspecioná-la, recebe a notícia de que ele mesmo assassinará alguém chamado Leopold Kaplan, alguém que ele jamais conheceu. A partir daí, o desconfiado e inseguro Anderton sai em uma desesperada investigação para descobrir o que exatamente aconteceu, pois, para ele, é mais do que evidente que ele jamais cometeria crime algum.

Uma das mais impressionantes características das obras de Philip K. Dick é como ele consegue explicar conceitos complicados sem ser expositivo, usando o ritmo da história para naturalmente passar ao leitor o necessário para a compreensão da situação. Em O Relatório Minoritário, o catalisador da ação – a descoberta, por Anderton, de que ele mesmo cometerá um crime – acontece quase que imediatamente e isso é usado para nos transportar para esse mundo futurista em que é natural aprisionar futuros criminosos depois que uma tríade de humanos geneticamente alterados chega a uma conclusão por maioria (daí o “relatório minoritário” do título). Não existem pausas para explicações, não existem personagens cuja presença é justificada unicamente para que ele faça as vezes do leitor, com as indagações corretas nos momentos certos. Muito ao contrário, a narrativa foge do caminho mais fácil e ganha, com isso, uma grande fluidez, algo difícil de se alcançar em circunstância normais, sendo ainda mais complicado em uma história tão curta.

No entanto, Dick é mestre em fazer o leitor sentir-se confortável estabelecendo situações extravagantes como se fossem as coisas mais normais do mundo. Claro, ele desafia o leitor e não deixa que ele jamais seja tutelado por textos banais, cheios de apostos e momentos “chocantes”. O Relatório Minoritário é, em última análise, um conto noir que se desenrola em um futuro com características bem específicas. Sem dúvida alguma, para um leitor da segunda metade do século XXI, a descrição do futuro do conto soará anacrônico, com menções a assentamentos humanos em outras galáxias e o uso de carros voadores no mesmo parágrafo em que a comunicação via rádio é mencionada e cartões perfurados são descritos. A estranheza que isso causa, porém, faz parte do charme da história para os leitores atuais e nem de longe atrapalham ou impedem seu aproveitamento pleno.

A moralidade das ações da Divisão Pré-Crime, que age antes que o crime seja cometido, é fortemente questionada ao longo do trabalho e, de certa forma, essas críticas têm relevância maior ainda no dia de hoje, em que pessoas são condenadas socialmente pelo “massacre” das redes sociais sem que nem tenham chance de defesa ou em que nações são atacadas quando apenas um grupo pequeno não necessariamente relacionado com o estado, oferece perigo. Mas a moralidade intrínseca ao questionamento que dá base ao conto ainda é o mais fascinante, já que somos indagados se seria correto impedir algo que não aconteceu ainda, e, mais ainda, se haveria algum tipo de “conflito ético” caso um dos acusados de crime futuro fosse alguém envolvido justamente nessa prevenção.

A circularidade da trama, a facilidade de leitura ajuda pela excelente tradução de Ludimila Hashimoto e a contemporaneidade das colocações que Philip K. Dick faz colocam este conto entre suas melhores obras. Um trabalho mais do que recomendado de um dos grandes nomes da ficção científica.

O Relatório Minoritário (The Minority Report, EUA – 1956)
Autor: Philip K. Dick
Editora original: Leo Margulies, H.L. Herbert (Fantastic Universe)
Editora no Brasil: Editora Aleph (2012, como parte da compilação Realidades Adaptadas)
Tradução: Ludimila Hashimoto
Páginas: 48

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.