Crítica | O Resgate do Soldado Ryan

estrelas 4,5

“Bendito seja o Senhor, minha rocha, que adestra as minhas mãos para a peleja e os meus dedos para a guerra.”

Contém spoilers.

O cineasta Steven Spielberg sabe tratar a Segunda Guerra Mundial com muita personalidade, transformando o evento em um dos cenários mais constantes na sua filmografia. Além de Império do Sol, uma obra com tantos prós quanto contras possíveis de bastante destaque, mesmo com um charme inexorável, o diretor nos trouxe o majestoso A Lista de Schindler, uma de suas grandes obras-primas, retratando de forma dolorosa a história de um alemão que salvou a vida de mais de mil judeus, empregando-os em sua fábrica. Alguns anos após ser aclamado pela crítica especializada e pelo público, Spielberg retornou para tal conflito, mas com uma diferença de tom gigantesca, deixando aquele íntimo melancólico para trás e abrindo as portas para uma intensa brutalidade, definição mais do que apropriada para os minutos iniciais de O Resgate do Soldado Ryan, filme que nos introduz, em um primeiro momento, ao cinema de guerra na sua melhor forma, mais visceral. A sequência inicial do desembarque na praia de Omaha, na França, é perfeita. Somos dignificados a assistir quase meia-hora de situações brutais e ásperas, promotoras de um senso de perda muito forte, que casa com o fato deste ser um retrato fidedigno do que realmente acontecera no fatídico Dia D. Ainda não fomos apresentados aos personagens, não nos importamos com eles sob um viés formal, mas, mesmo assim, Spielberg faz com que cada baixa seja impactante. A câmera é deslocada para o meio do confronto e o público sente o pesar da situação, como provavelmente nunca sentira anteriormente.

Diante da humanidade em seu cenário mais vil, um homem caminha à procura de seu braço (exatamente neste nível), enquanto algumas pessoas morrem afogadas; outras, pisoteadas. Há uma ironia trágica, amarrada a uma cena em particular, que reacende o fato da sorte e o azar estarem tão entrelaçados. Dentro do mar da praia, o filme fica confortavelmente desconfortável; um paradoxo pungente. Os tiros deixam de serem ouvidos, os gritos de horror somem, mas somos apresentados a uma atmosfera claustrofóbica inquietante; um trabalho de som formidável. É no meio desse caos que nos encontramos com o Capitão John Miller (Tom Hanks), protagonista da obra, mas sem nenhum tipo de introdução formal ainda feita. O ator dá ao público uma performance sólida, que permite expor alguns efeitos imediatos causados pela guerra. Após essa ilustração extremamente gráfica do que acontecera, o filme avança, ao mesmo tempo que desacelera, saindo do meio do combate armado. Uma quebra de ritmo importante para acalmar os corações pulsantes dos espectadores e prepará-los para mais desolações. É uma construção interessante, sem ânsia desesperada em nos levar ao argumento principal do filme, mas conduzindo-nos com paciência e sabedoria. Ao mesmo tempo, os realizadores têm o intuito de fugir de uma visão fetichista da violência, anestesiada e desgastada. Dessa forma, ambos os objetivos são alcançados com maestria.

Resquícios do abrupto começo continuam a permear o filme até atingir o seu ápice, o qual, embora não seja tão vigoroso quanto aquela monstruosa introdução, é, no mínimo, satisfatório. Em comparação, em termos de motivação, o terceiro ato já está preso a uma construção sólida de racionalidade. Chegando finalmente à trama do filme, temos uma história que, como apontada pelo título da obra, gira em torno do soldado James Francis Ryan (Matt Damon). Após seus três irmãos morrerem na guerra, uma missão é criada com o propósito de resgatar o soldado, que está desaparecido, e levá-lo para casa. Encabeçada pelo Capitão John Miller, sobrevivente da invasão à Normandia, a equipe responsável pela missão passará por conflitos internos e externos em busca desse soldado. Afinal, valeria a pena salvar a vida de apenas um homem em troca de outros oito? Com discussões importantes, a narrativa nos envolve em meio a personagens memoráveis, desenvolvidos para serem afeiçoáveis, humanizados e não mero retratos de uma guerra sem rosto; uma realidade extremamente doentia e desumana. A narrativa, porém, não é isenta de problemas, sendo uma delas a curva acentuada de tom nos seus últimos minutos.

Um dos principais infortúnios da conclusão está no fato de que o os últimos minutos da peça são absurdamente piegas, munidos de algumas manipulações de emoções, indo de encontro ao sentimentalismo forçado. O emocionante discurso do veterano frente ao cemitério de heróis de guerra acaba recaindo para o melodrama barato, sem encontrar paralelo algum com todo a dramaticidade mais encorpada do resto do longa. Fora isso, o roteiro de Robert Rodat traz contradições miseráveis. A exemplificar, se é apresentado um arco envolvendo um prisioneiro alemão capturado pelo grupo de Tom Hanks, no qual o Cabo Upham (Jeremy Davies) indaga que o certo a se fazer diante de tal problemática é poupar a vida do homem, visto que ele se rendeu. De ambos os lados, as motivações são bem exploradas e fortemente justificáveis. Mediante bastante discussão, o soldado é então liberto e o grupo segue com a missão. A citada reviravolta seria um desdobramento louvável, que mostraria o outro lado do conflito, mesmo que por alguns minutos, humanizando os antagonistas do filme: os famigerados nazistas. A esperança restante é jogada por água abaixo quando o personagem retorna para o combate e mata um dos membros do esquadrão principal. Em consequência a esse desperdício, Cabo Upham, o mesmo que antes havia pedido para que a vida desse homem fosse poupada, mata-o em desilusão, mesmo com uma nova rendição. De um lado, o cinismo da guerra, mas de outro, a antagonização barata.

Por fim, além da interpretação magnífica de Tom Hanks, o longa-metragem tem um resto de elenco inegavelmente estelar, parte de um processo de empatia fenomenal do público em relação a esses combatentes, não meras presenças superficiais, mas também distantes de uma exposição barata com o intuito de, convenientemente, fabricar apego. O Resgate do Soldado Ryan não é um trabalho medíocre da guerra quando levada-a para a dimensão de seus envolvidos; temos um filme que pega várias figuras e as embasa da forma correta, sem trazer digressões narrativas para se apresentar backgrounds. Tudo está no conforme da história. Os personagens não sofrem muito desenvolvimento, mas possuem personalidades únicas que os tornam passíveis de compaixão pelo público. Barry Pepper está muito bem, possuindo alguns momentos épicos relacionados a recitações de versos religiosos, enquanto Edward Burns traduz de forma certeira um conflito interessante sobre a importância da missão. Por incrível que pareça, até Vin Diesel está bem, mesmo que os méritos dessa qualidade devam ser direcionados mais para o roteiro que oferece-lhe um excelente papel, do que para a interpretação em si do ator.

O destaque do pelotão, entretanto, vai mesmo para Jeremy Davies, que transporta o espectador para a zona de guerra e transmite a covardia do seu personagem de forma espetacular. Uma das melhores cenas do filme introduz visceralmente o agoniante pavor, covarde e humano, símbolos de um trabalho à beira do impecável. No mesmo passo, a fotografia de Janusz Kaminskit acinzentada não deixa de aproveitar belíssimos planos de horizontes, constantes pela jornada do grupo, casando perfeitamente com a trilha sonora do excelentíssimo John Williams, que arremata com esse trabalho mais uma indicação ao Oscar. O Resgate do Soldado Ryan, enfim, oferece um pontapé inicial brutal e verossímil, essencialmente perfeito. O público embarca em uma jornada crua movida por um esquadrão crível e relacionável, assim caracterizado devido às interpretações eficientes de um elenco que se compromete por completo com o longa. Em um último momento, projeta-se também uma aproximação intrínseca à realidade inimaginável dos horrores da guerra, possuindo, pois, alguns interessantes pontos de reflexão sobre a natureza hedionda desses conflitos. Mesmo com alguns deslizes do roteiro, Steven Spielberg entrega uma obra fantástica que figura entre as melhores do gênero de guerra.

  • Publicado originalmente em 25 de janeiro de 2017.

O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan) — EUA, 1998
Direção:
Steven Spielberg
Roteiro: Robert Rodat
Elenco: Tom Hanks, Matt Damon, Tom Sizemore, Barry Pepper, Adam Goldberg, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Leland Orser, Jeremy Davies, Edward Burns, Paul Giamatti, Ted Danson
Duração: 169 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.