Crítica | O Resgate do Soldado Ryan

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estrelas 4,5

“Bendito seja o Senhor, minha rocha, que adestra as minhas mãos para a peleja e os meus dedos para a guerra”O soldado Daniel Jackson recita enquanto atira em alemães com o seu rifle. 

Steven Spielberg sabe tratar a Segunda Guerra Mundial com maestria. Além do incrível Império do Sol, o diretor nos trouxe A Lista de Schindler, uma das melhores obras sobre a guerra, retratando de forma dolorosa a história de um alemão que salvou a vida de mais de 1100 judeus ao empregá-los em sua fábrica. Alguns anos após ser aclamado pela crítica especializada e pelo público, Steven Spielberg retornou para tal conflito, mas com uma diferença de tom gigantesca. Saía a melancolia e o íntimo, e entrava a brutalidade e o intenso. A trama, agora, gira em torno do soldado James Francis Ryan (Matt Damon) que está desaparecido. Após seus três irmãos morrerem na guerra, uma missão é criada com o propósito de resgatar o soldado e levá-lo para casa. Liderados pelo Capitão John Miller (Tom Hanks), sobrevivente da invasão a Normandia, a equipe responsável por essa missão passará por conflitos internos e externos em busca desse soldado. Afinal, valeria a pena salvar a vida de apenas um em troca de outros oito homens?

A sequência inicial do desembarque na praia de Omaha, na França é perfeita. São 25 minutos inicias brutais, ásperos e desorientadores. Há um senso de perda muito forte, que casa com o fato de ser um retrato fidedigno do que realmente aconteceu no Dia D. Ainda não fomos apresentados aos personagens, não nos importamos com eles, mas mesmo assim Spielberg faz com que cada baixa seja impactante. A câmera é deslocada para o meio conflito e o público sente o pesar da situação. Enquanto um homem caminha à procura de seu braço (sim, é nesse nível), pessoas morrem afogadas por causa do peso do equipamento. Há uma ironia trágica amarrada a uma cena em particular envolvendo o capacete de um soldado que é sensacional. Dentro da água o filme fica confortavelmente desconfortável. Os tiros deixam de serem ouvidos, os gritos de horror somem, mas somos apresentados á uma atmosfera claustrofóbica inquietante. Tom Hanks dá ao público uma performance sólida que mostra alguns efeitos imediatos que uma guerra pode causar, justificando perfeitamente a mão trêmula do Capitão John Miller, no resto do longa.

Quando o filme desacelera e sai do meio do combate, o público fica aliviado. Há uma construção interessante de quebra de ritmo para nos levarmos ao argumento principal do filme, e para que a dor e a tragédia não fiquem desgastadas, ou pior, anestesiadas. Resquícios do abrupto começo continuam a permear o filme até atingir o seu ápice, que embora não seja tão incrível como a monstruosa introdução é, no mínimo, satisfatória. A fotografia de Janusz Kaminskit é acinzentada, mas que não deixa de aproveitar os belíssimos planos de horizontes. Ainda tem a trilha sonora do excelentíssimo John Williams, que arrematou outra indicação ao Oscar com esse filme. Infelizmente há um problema perceptível no longa-metragem. O filme termina com a bandeira americana vibrando. Mesmo brega, é um modo de se olhar para a situação. O infortúnio está no fato de que o final é ao todo piegas. O emocionante discurso do veterano acaba recaindo para o melodrama.

Fora isso, o roteiro de Robert Rodat que, pasmem, roteirizaria o filme O Patriota, em 2000, falha miseravelmente em se contradizer. Há todo um arco envolvendo um prisioneiro alemão capturado pelo grupo de Tom Hanks, no qual o Cabo Upham (Jeremy Davies) indaga que o certo é que se poupe a vida do homem, visto que ele se rendeu. É tudo muito bem feito considerando o porquê do resto dos membros estarem querendo que o alemão seja executado. De ambos os lados, as motivações são bem explorados. Mediante bastante discussão, o soldado é então liberto e o grupo segue com a missão. Seria um desdobramento louvável que mostraria o outro lado do conflito, mesmo que por alguns minutos, e humanizaria os antagonistas do filme: os terríveis nazistas. Seria, se não fosse o fato de que no final do terceiro ato o soldado alemão reaparece em cena ao lado do seu exército. Tudo é jogado por água abaixo quando ele mata um dos membros do esquadrão principal e o Cabo Upham, o mesmo que antes havia pedido para que a vida desse homem fosse poupada, mata-o em desilusão, mesmo tendo rendido-se novamente.

Além da interpretação magnífica de Tom Hanks, temos um elenco estelar. Os personagens não sofrem muito desenvolvimento, mas eles possuem personalidades únicas que os tornam passíveis de compaixão pelo público. Barry Pepper está muito bem possuindo alguns momentos épicos relacionados a recitação de versos religiosos. Edward Burns possui um conflito interessante sobre a importância da missão. Por incrível que pareça, Vin Diesel está bem. Os méritos vão mais para o roteiro que oferece-o um excelente papel, do que para sua interpretação em si. O destaque do pelotão vai para Jeremy Davies, que transporta o espectador para a zona de guerra e transmite a covardia do seu personagem de forma espetacular. Uma das melhores cenas do filme introduz visceralmente o agoniante pavor, covarde e humano. Também temos Adam Goldberg, como um soldado judeu, Giovanni Ribisi, como o médico do grupo e Tom Sizemore, como o sargento Horvath.

Tecnicamente impecável, O Resgate do Soldado Ryan oferece um pontapé inicial brutal, verossímil e perfeito, mas, além disso, têm uma jornada crua, mas viva, movidas por um esquadrão crível e interpretações efetivas de um elenco que se compromete por completo com o longa. O filme ainda mostra com uma aproximação á realidade imensa os horrores da guerra e possui alguns interessantes pontos para reflexão. Mesmo com alguns deslizes, Steven Spielberg entrega uma obra fantástica que figura entre as melhores do gênero.

O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan) — EUA, 1998
Direção:
Steven Spielberg
Roteiro: Robert Rodat
Elenco: Tom Hanks, Matt Damon, Tom Sizemore, Barry Pepper, Adam Goldberg, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Leland Orser, Jeremy Davies, Edward Burns, Paul Giamatti, Ted Danson
Duração: 169 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?