Crítica | O Resgate do Soldado Ryan

estrelas 4,5

“Bendito seja o Senhor, minha rocha, que adestra as minhas mãos para a peleja e os meus dedos para a guerra.”

O cineasta Steven Spielberg sabe tratar a Segunda Guerra Mundial com maestria. Além do incrível Império do Sol, o diretor nos trouxe A Lista de Schindler, uma das melhores obras sobre o evento, retratando de forma dolorosa a história de um alemão que salvou a vida de mais de 1100 judeus ao empregá-los em sua fábrica. Alguns anos após ser aclamado pela crítica especializada e pelo público, Spielberg retornou para tal conflito, mas com uma diferença de tom gigantesca. Saía a melancolia e o íntimo, e entrava a brutalidade e o intenso.

A trama do filme, como apontado literalmente pelo seu título, gira em torno do soldado James Francis Ryan (Matt Damon). Após seus três irmãos morrerem na guerra, uma missão é criada com o propósito de resgatar o soldado, que está desparecido e levá-lo para casa. Encabeçada pelo Capitão John Miller (Tom Hanks), sobrevivente da invasão à Normandia, a equipe responsável por essa missão passará por conflitos internos e externos em busca desse soldado. Afinal, valeria a pena salvar a vida de apenas um em troca de outros oito?

A sequência inicial do desembarque na praia de Omaha, na França é perfeita. São 25 minutos inicias brutais, ásperos e desorientadores. Há um senso de perda muito forte, que casa com o fato de ser um retrato fidedigno do que realmente aconteceu no Dia D. Ainda não fomos apresentados aos personagens, não nos importamos com eles, mas mesmo assim Spielberg faz com que cada baixa seja impactante. A câmera é deslocada para o meio do confronto e o público sente o pesar da situação. Enquanto um homem caminha à procura de seu braço (exatamente neste nível), pessoas morrem afogadas; outras, pisoteadas. Há uma ironia trágica amarrada a uma cena em particular envolvendo um soldado, sua sorte e seu capacete que é sensacional. Dentro do mar da praia o filme fica confortavelmente desconfortável em um paradoxo pungente. Os tiros deixam de serem ouvidos, os gritos de horror somem, mas somos apresentados a uma atmosfera claustrofóbica inquietante. No meio do caos, Tom Hanks dá ao público uma performance sólida que mostra alguns efeitos imediatos que uma guerra pode causar.

Após essa ilustração extremamente gráfica do que aconteceu no Dia D, o filme avança, ao mesmo tempo que desacelera, saindo do meio do combate armado. Uma quebra de ritmo importante para acalmar os corações pulsantes dos espectadores e prepará-los para mais desolações. É uma construção interessante para levar-nos ao argumento principal do filme, e para que a dor e a tragédia não fiquem desgastadas, ou pior, anestesiadas. Resquícios do abrupto começo continuam a permear o filme até atingir o seu ápice, que embora não seja tão incrível quanto a monstruosa introdução é, no mínimo, satisfatória. A fotografia de Janusz Kaminskit é acinzentada, mas não deixa de aproveitar belíssimos planos de horizontes, casando com a a trilha sonora do excelentíssimo John Williams, que arremata com esse trabalho mais uma indicação ao Oscar. O enredo faz uma curva acentuada nos seus últimos minutos, e isso não trata-se exclusivamente do término com a bandeira americana vibrando visto que, mesmo brega, é um modo de se olhar para a situação. O infortúnio está no fato de que o final é absurdamente piegas. O emocionante discurso do veterano frente ao cemitério acaba recaindo para o melodrama barato, o que não encontra paralelo algum com todo a dramaticidade encorpada do resto do longa.

Fora isso, o roteiro de Robert Rodat que, pasmem, roteirizaria o filme O Patriota, em 2000, falha miseravelmente em se contradizer. Há todo um arco envolvendo um prisioneiro alemão capturado pelo grupo de Tom Hanks, no qual o Cabo Upham (Jeremy Davies) indaga que o certo é que se poupe a vida do homem, visto que ele se rendeu. É tudo muito bem feito considerando o porquê do resto dos membros estarem querendo que o alemão seja executado. De ambos os lados, as motivações são bem explorados. Mediante bastante discussão, o soldado é então liberto e o grupo segue com a missão.

Seria um desdobramento louvável que mostraria o outro lado do conflito, mesmo que por alguns minutos, e humanizaria os antagonistas do filme: os famigerados nazistas. Seria, se não fosse o fato de que no final do terceiro ato o soldado alemão reaparece em cena ao lado do seu exército. Enfim, tudo é jogado por água abaixo quando ele mata um dos membros do esquadrão principal e o Cabo Upham, o mesmo que antes havia pedido para que a vida desse homem fosse poupada, mata-o em desilusão, mesmo tendo rendido-se novamente.

Além da interpretação magnífica de Tom Hanks, temos um resto de elenco estelar. Os personagens não sofrem muito desenvolvimento, mas eles possuem personalidades únicas que os tornam passíveis de compaixão pelo público. Barry Pepper está muito bem possuindo alguns momentos épicos relacionados a recitações de versos religiosos. Edward Burns possui um conflito interessante sobre a importância da missão. Por incrível que pareça, até Vin Diesel está bem, mesmo que os méritos devam ser direcionados mais para o roteiro que oferece-lhe um excelente papel, do que para sua interpretação em si. O destaque do pelotão vai para Jeremy Davies, que transporta o espectador para a zona de guerra e transmite a covardia do seu personagem de forma espetacular. Uma das melhores cenas do filme introduz visceralmente o agoniante pavor, covarde e humano. Também temos Adam Goldberg, como um soldado judeu, Giovanni Ribisi, como o médico do grupo e Tom Sizemore, como o sargento Horvath. Todos muito bem.

Tecnicamente impecável, O Resgate do Soldado Ryan oferece um pontapé inicial brutal e verossímil, essencialmente perfeito. Além disso, também oferece uma jornada crua, mas vívida, movida por um esquadrão crível devido às interpretações eficientes de um elenco que se compromete por completo com o longa. O filme ainda projeta uma aproximação intrínseca à imensa realidade dos horrores da guerra, possuindo alguns interessantes pontos a serem refletidos. Mesmo com alguns deslizes, Steven Spielberg entrega uma obra fantástica que figura entre as melhores do gênero de guerra.

O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan) — EUA, 1998
Direção:
Steven Spielberg
Roteiro: Robert Rodat
Elenco: Tom Hanks, Matt Damon, Tom Sizemore, Barry Pepper, Adam Goldberg, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Leland Orser, Jeremy Davies, Edward Burns, Paul Giamatti, Ted Danson
Duração: 169 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?