Crítica | O Retorno da Múmia

estrelas 4

Teria sido bastante improvável que A Múmia desse errado, em termos financeiros, quando lançado no finalzinho dos frutíferos anos 90. Com um pé no Spielberg aventureiro de Indiana Jones, o megalomaníaco Stephen Sommers reuniu habilmente e sem pudor todos os clichês que permeiam os mais básicos dos filmes de aventura, seja na concepção costumeira do bem vs. mal, no romance inevitável entre dois protagonistas carismáticos, no tom épico descompromissado de uma produção ambientada em ambientes exóticos, e na pomposidade técnica para encher e agradar os olhos do público, Tiro certeiro, e tanto o sucesso de A Múmia quanto a existência de sua continuação, O Retorno da Múmia, comprovam que a fórmula deu certo com o público.

E quando se fala em fórmula, se fala também de como Sommers se firmava como um saudosista da aventura clássica, que em meio a sua produção generosa em efeitos especiais e cenários grandiosos, busca flertar com uma ingenuidade e descomprometimento com grandes ambições que lhe permitem fluir e respirar de maneira orgânica enquanto entretenimento. Claro, para um filme tão objetivado no público menos exigente, há um grande números de concessões que, por vezes, se tornam difíceis de engolir. Mas como resistir a um senso de aventura tão honesto e carente no cinema atual, tão vertiginoso?

E resgatar os filmes de Sommers e seu saudosismo certamente é resgatar um cinema cada vez mais raro em seus objetivos de ser fiel ao desejo do público, por mais que O Retorno da Múmia passe longe do desejo em ser tão importante para este gênero. De qualquer forma, novamente está aqui toda a reunião de elementos que fizeram o bom gosto do original, aprimorados agora por uma direção mais experiente e um elenco cuja sintonia cresceu de forma satisfatória de um filme para o outro. É difícil não gostar de O Retorno da Múmia.

Desta vez, Rick (Brendan Fraser, seguro no papel) e Evelyn (Rachel Weisz, ainda mais linda), finalmente formados como casal e com um filho de dez anos na bagagem, Alex (Freddie Boath), novamente se vêem confrontados com o lendário sacerdote Imhotep (Arnold Vosloo), ressuscitado pela reencarnação de sua amada, Anck Su Namun (Patricia Velasquez), para enfrentar o temido Escorpião Rei (Dwayne Johnson) e assim tomar o controle de seu exército e dominar o mundo.

Você pode pensar: “de novo essa história?”. Sim, e, com isso, é divertidíssimo notar o fator de consciência da produção sobre sua trama amparada nos mais básicos dos clichês, e tirar proveito disso como uma amplificação do fator diversão. “Ah, já sei, irá dominar o mundo”, debocha Rick em determinado momento, numa clara alusão da produção ao seu descompromisso com maiores complexidades, preocupando-se unicamente em entregar ao público a montanha-russa merecida, e nisto, claramente o elenco parece se divertir tanto quanto o público de olho na tela. Um grande ponto à favor.

Claro que Sommers que não perde a chance de reeditar descaradamente os momentos mais marcantes da produção original, como a imponente tempestade de areia (aqui levada para o mar) ou os desdobramentos no clímax, o que certamente denota certo desinteresse em inovar no roteiro, por mais que haja reviravoltas curiosas. Para compensar, Sommers capricha nas cenas de ação, intensas e bem coreografadas (há um duelo sensacional entre duas personagens), além de manter sua habilidade em exibir e explorar a grandiosidade na direção de arte e dos efeitos especiais competentes, por mais que o Escorpião Rei pareça ter saído diretamente de algum videogame mal acabado. Alan Silvestri substitui bem Jerry Goldsmith na composição da trilha sonora e mantém a escala de grandiosidade da produção.

E no fim das contas, O Retorno da Múmia segura seus 120 minutos como uma produção de tirar o fôlego, muito bem resolvida dentro de seus clichês e obviedades, mas sempre honesta com seu público no que se refere a entregar o que há de melhor no entretenimento clássico. Que saudades de mais aventuras com esse espírito.

O Retorno da Múmia (The Mummy Returns) — EUA, 2001
Direção:
 Stephen Sommers
Roteiro: Stephen Sommers
Elenco: Brendan Fraser, Rachel Weisz, John Hannah, Arnold Vosloo, Oded Fehr, Patricia Velasquez,  Freddie Boath, Alun Armstrong, Dwayne Johnson, Adewale Akinnuoye-Agbaje,  Shaun Parkes
Duração: 130 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.