Crítica | O Rio e a Morte

estrelas 3

Santa Viviana é uma região do noroeste do México, alguns quilômetros ao sul do Estado do Arizona (EUA). Nessas chamadas “terras quentes” do Estado mexicano de Sonora, corre um rio, e é entre ele e a população de Santa Viviana que a morte terá lugar cativo. Após a negação do assassinato para seu protagonista em Ensaio de um Crime, Buñuel apresenta aqui uma realidade bastante diferente, onde um grande número de assassinatos ultrapassa gerações.

O enredo do filme é bastante familiar para os latino-americanos, que sempre estiveram às voltas com questão de defesa da honra através do derramamento de sangue. A matança para manter “limpo” o nome da família e a posição de macho valente frente ao povo local é uma postura que pode ser encontrada em qualquer momento da história da América Latina após as independências de suas metrópoles, em finais do século XIX. No Brasil, ainda hoje temos notícias de crimes passionais ou das mais diversas motivações cometidos por indivíduos que intencionavam “lavar/honrar o nome”.

No filme de Buñuel, essa postura também perpassa os anos. Filhos que sequer conheceram os pais deveriam continuar a linhagem de sangue deixada por estes, matando os seus adversários, perpetuando um ciclo sem perspectiva de ter fim. E aqui, um parênteses. Em 2001, Walter Salles dirigiu um excelente filme com essa mesma temática, Abril Despedaçado. E de maneira interessante, há uma certa ligação entre a obra de Buñuel e a de Salles, além do enredo similar. O destino dos protagonistas é praticamente o mesmo, guardados alguns detalhes. A nova geração, em ambos os filmes, parece ter maior propensão a seguir um outro caminho além da vingança.

Embora Buñuel seja mais conciliador que Salles no desfecho, O Rio e a Morte não deixa de ser cruel em praticamente toda sua duração. Mortes violentas e sem nenhum motivo grave fazem parte do cotidiano de Santa Viviana, e é perpetuada não só pelos filhos, mas mantém uma bizarra tradição popular, onde famílias parceiras e parentes das famílias em conflito ajudam a manter viva a lembrança dos antepassados mortos e cobram quase como um prazer pessoal o próximo assassinato por vingança.

O roteiro de O Rio e a Morte é a adaptação do romance de Miguel Álvarez Acosta, Muro blanco en roca negra. Por não conhecer o livro, não tenho como afirmar se as decisões narrativas de Buñuel e Alcoriza vieram do romance, mas de qualquer forma funcionaram muito bem no filme. O flashback, recurso usado com perfeição em Ensaio de um Crime, aparece aqui como o centro da história e serve mais de contexto para toda a vingança do que para mostrar o momento contemporâneo da nova geração de Santa Viviana. As relações entre o último Anguiano e o último Menchaca são apresentadas em praticamente dois momentos, um no hospital e outro quando Gerardo vai da Cidade do México até Santa Viviana para resolver de uma vez por todas esse estado de mortandade que assola o povoado por gerações.

O acerto de contas no final não é despropositado, ao contrário, parece um término interessante para as coisas, que se afunilavam para um final feliz. Certamente não sei se Buñuel, caso tivesse a total liberdade de escolher o destino das duas famílias rivais, escolheria o abraço conciliador, mas mesmo assim, a quebra do paradigma em frente às pessoas da cidade constituiu um avanço e mostrou novos tempos para os habitantes locais. Não se trata de um final típico buñuelista, mas é uma mensagem válida e em par com o que o roteiro vinha apresentando na reta final da história.

O Rio e a Morte (El Río y la Muerte) – México, 1955
Direção: Luis Buñuel
Roteiro: Luis Alcoriza, Luis Buñuel
Elenco: Columba Domínguez, Miguel Torruco, Joaquín Cordero, Jaime Fernández, Víctor Alcocer, Silvia Derbez, José Elías Moreno, Carlos Martínez Baena, Alfredo Varela
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.