Crítica | O Riso dos Outros

estrelas 4,5

Como podemos definir o humor? Em poucas palavras, acredito que seja a arte de fazer rir, uma espécie de dom fundamental para o convívio em sociedade, haja vista a amargura de uma vida sisuda e apenas atrelada ao que se convencionou chamar de “sério”. Agora, uma questão mais abrangente: como o humor deve ser produzido? Há limites ou para fazer o outro rir vale tudo?

Muita gente fala de humor na internet, na televisão e no cinema, aponta o boom de produções como Friends, The Big Bang Theory, Two and a Half Men, as sátiras da franquia Todo Mundo em Pânico, os programas CQQ, Pânico na TV, o canal Porta dos Fundos e o recente Frases de Mainha, no entanto, essas pessoas não podem esquecer que o riso sempre existiu, pois o humor não é uma prerrogativa da era da reprodutibilidade técnica.

No artigo O humor deve ter limites ou vale tudo em nome da liberdade de expressão?, de Leonardo Sakamoto, o articulista defende que “a censura é uma coisa abominável”, no entanto, afirma ser degradante quando os humoristas tecem comentários jocosos e preconceituosos tendo como “álibi” a liberdade de expressão. Para Sakamoto, tal postura não é vergonhosa apenas pelo conteúdo da piada, mas por causa da preguiça do autor em “não se esforçar na arte de fazer o outro rir”.

Tal questão é bastante atual e frequentemente circula pela internet. Um ótimo material para pensar o tema é o documentário O Riso dos Outros, dirigido e roteirizado por Pedro Arantes, da série de humor As Olivias, veiculada pelo canal Multishow e do bem sucedido Vida de Estagiário, da TV Brasil. Ao longo de 50 minutos, a produção conta com depoimentos de Danilo Gentili, Rafinha Bastos, o cartunista Laerte, o escritor Antônio Prata e o então deputado Federal Jean Wyllis.

Pedro Arantes trata, em seu roteiro, de “tags” como respeito à dignidade alheia, liberdade de expressão e os limites entre a comédia e a ofensa. Na época do lançamento do filme, exclusivamente na internet, o cineasta afirmou que “o humor politicamente incorreto é o velho humor que sempre ridicularizou deficientes, homossexuais, pobres, negros e mulheres”. Em sua concepção, bastante notável no documentário, a constante organização destes grupos, intitulados de “minorias” durante longo tempo, bem como as conquistas cada vez mais crescentes através de passeatas, leis e ONGS tornaram inaceitáveis determinadas posturas de grupos hegemônicos que os massacraram verbalmente por “eras”.

Por que está menos aceitável? Porque tais agrupamentos historicamente ridicularizados conquistaram direitos e saíram do “silenciamento”. Os grupos que reagem aos limites impostos pelo humor são os mesmos que oprimiram, através do riso e do escárnio, os grupos sociais reclamantes. Pedro Arantes, por sinal, deixa bem claro a sua postura ideológica, mas o que o torna fascinante é a forma como ele respeita a opinião alheia: mesmo ao lado “politicamente correto”, Arantes dá a voz aos que curtem o humor escrachado e sem limites, com o mesmo espaço referente ao que defende. Postura honrosa, pois poucos conseguiriam alcançar tal “nirvana ético”.

O que mais interessa no documentário é roteiro e a forma como o texto articula equilibradamente a discussão acerca dos limites do humor, entretanto, cabe ressaltar o excelente trabalho de edição de Olívia Brenga e a música de Daniel Tauszig, elementos responsável por tornar a experiência reflexiva bastante eficaz, o primeiro por relacionar as idas e vindas entre os votos favoráveis e contrários ao estabelecimento do humor e o segundo por manter ambos os lados interligados semioticamente.

O recorte do documentário é o humor stand up, plataforma que se popularizou com os trabalhos iniciais de Woody Allen. Ao passo que a narrativa avança, duas coisas são gritantes na radiografia do humor produzido no Brasil: a discrepância entre Danilo Gentili e Rafinha Bastos. Ambos são oriundos do mesmo campo discursivo, no entanto, enquanto Gentili aparente uma antipatia absurda, somada ao seu tom abobalhado, Bastos demonstra sagacidade e magnetismo em seu discurso, o que é às vezes é tentador, pois mesmo diante de piadas absurdas, o rapaz consegue demonstrar carisma (algo tão difícil para os defensores dos limites do humor).

Rafinha Bastos já respondeu a vários processos judiciais por conta da sua conduta indevida, ou de mau gosto, como alguns preferem. A sua fama foi catapultada justamente pelas pessoas que detratam o seu trabalho. Entre as suas principais polêmicas estão a ode ao estupro e a afirmação de que Wanessa Camargo estava tão “gostosa” enquanto grávida que ele “comeria ela e até mesmo o bebê”. No caso do estupro, a coisa ganhou maiores proporções.

Numa apresentação, Rafinha Bastos teria dito que “toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho”. A fala repercutiu na mídia e fez estardalhaço, principalmente pelo conteúdo final da afirmação, um absurdo que dizia “isso para você não foi um crime, mas uma oportunidade”.

Polêmicas à parte, o humor é um tema arbóreo e rizomático. Arbóreo porque é um sistema fincado de forma tão enraizada que ecoa no contemporâneo desde a antiguidade. Rizomático porque na era da reprodutibilidade técnica, espalha-se cada vez mais e alcança um número substancial de contempladores.

O Riso dos Outros — Brasil,2012
Direção: Pedro Arantes
Roteiro: Pedro Arantes
Elenco: Danilo Gentili, Rafinha Bastos, Laerte, Nany People, André Dahmer, Antonio Prata, Paulinho Serra, Marcelo Marrom, Cláudio Torres, Ben Ludmer, Fábio Rabin, Jean Wyllys.
Duração: 52 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.