Crítica | O Ritual (2011)

estrelas 3,5

“Não espere cabeças girando e sopa de ervilha jorrando”, exclama um personagem durante uma discussão sobre uma possessão assistida em grupo. Para o leitor, fica outra dica: esqueça Pazuzu. O domínio do mal desta vez está sob o comando de outra entidade: Baal. Baseado no livro The Rite: The Making Of a Modern Exorcist, de Matt Baglio, O Ritual é mais representante do subgênero “filmes de exorcismo”. O jornalista conviveu durante um tempo com clérigos especializados e resolveu escrever um livro sobre as suas experiências, o que coadunou neste filme acima da média.

A produção, diferente de muita coisa que foi realizada depois do clássico dos anos 1970, consegue manter-se num patamar de qualidade. A obra nos apresenta o mundo de um seminarista receoso em seguir o caminho do celibato. O personagem em questão é Michael Kovak (Colin O’ Donoghue). Ele trabalha nos negócios da família (funerária) e vive desolado pelo relacionamento frio com o pai e pela saudade da mãe, morta prematuramente enquanto ele ainda era uma criança. Diante da sua situação, adentra para o mundo dos seminaristas, mesmo com a fé pouco estabelecida.

Ao chegar em seu destino ele conhece um dos únicos exorcistas em atividade, o irônico Padre Lucas (Anthony Hopkins), um homem que vai ter duas funções em sua permanência na Itália: mentor e vilão. Assista e tire as suas próprias conclusões. Nesta jornada somos espectadores do velho embate entre as forças duais envolvendo o bem e o mal, a ciência e a religião, além do obrigatório ceticismo x fé, parte integrante para a receita fazer sucesso.

Além da ambientação belíssima, o que permite uma excelente direção de fotografia, cenografia e direção de arte, O Ritual conta com um ótimo elenco de apoio, o que ajuda o padre protagonista a ressair da sua extrema falta de “tempero” dramático: Toby Jones, Ciarán Hinds, Rutger Hauer e Alice Braga gravitam em torno dos protagonistas e completam os bons diálogos desenvolvidos.

A figura do demônio surge mais opressora que nos demais filmes pós-1970 justamente por trazer questionamentos filosóficos e propor situações desafiadoras, não apenas atreladas a maneirismos físicos e efeitos especiais. Seguindo uma linha realista, a trama é dirigida cirurgicamente por Mikael Hafstrom, mas descuidada nos momentos finais, na mesa de edição. Mesmo diante das qualidades apontadas, o filme peca pela falta de ritmo em alguns trechos. Há passagens que pedem uma boa edição, tamanha a letargia.

Alice Braga cumpre bem o seu papel e consegue manter-se bem localizada dentro da trama. Depois de Ensaio Sobre a Cegueira, Predadores e Eu Sou a Lenda, a atriz agendou O Ritual em sua programação e conseguiu cada vez mais se destacar internacionalmente. Hopkins, como sempre, dá um show de desempenho, não apenas por sua competência quanto ator, mas pelo roteiro de Michael Petroni, cheio de diálogos afiados.

Com seus 110 minutos, a trama nos mostra o quanto a temática ainda interessa ao imaginário popular, vide o sucesso de bilheteria e a quantidade de filmes dentro desta seara, a estrearem de 2010 para cá. Todos, por sua vez, subservientes e ainda inferiores ao melhor filme de exorcismo da história do cinema. A produção, no caso, vocês já sabem qual é, dispensa explicitações, não é mesmo, caro leitor?

O Ritual (The Rite) – EUA/ Hungria, 2011
Direção: Mikael Håfström
Roteiro: Michael Petroni
Elenco: Alice Braga, Andrea Calligari, Anikó Vincze, Anita Pititto, Anthony Hopkins, Arianna Veronesi, Attila Bardóczy, Ben Cheetham, Cecilia Dazzi, Chris Marquette, Ciarán Hinds, Colin O’Donoghue, Fabiola Balestriere, Giampiero Ingrassia, Maria Grazia Cucinotta, Marija Karan, Marta Gastini, Nadia Kibout, Rosa Pianeta, Rosario Tedesco, Rutger Hauer, Sandor Baranyai, Toby Jones, Torrey DeVitto
Duração: 114 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.