Crítica | O Sal da Terra (2014)

estrelas 4O filme de abertura do Festival do Rio 2014 nos traz uma visão única do planeta Terra, do ser humano e de um indivíduo exemplar. Seu nome é Sebastião Salgado, o renomado fotógrafo brasileiro, que já percorreu o mundo para compor suas fotografias sociais e agora, quarenta anos após o início de sua carreira, ele se volta para retratos da natureza selvagem. Wim Wenders, em seu documentário, nos aproxima do homem, de sua carreira, sua história, nos garantindo um íntimo olhar sobre os diversos trabalhos de Salgado.

Começamos nossa jornada pela vida de Sebastião através das imagens de Serra Pelada. Com narrações em off do próprio fotógrafo conhecemos a história por trás daquelas imagens estáticas em preto e branco. E o que já nos impressiona, desde então, é a memória do artista, que consegue compor uma história por trás de cada retrato. Vemos, então, em uma fusão, o rosto do homem, já idoso, falando conosco. E digo diretamente com o espectador pois seu olhar está em nós e não com a velha angulação dos documentários convencionais. Não há diálogo e sim constantes monólogos que variam entre a voz de Salgado, seu filho Juliano Ribeiro e Wenders, oferecendo-nos diferentes visões sobre diversos aspectos não só das fotos como da personalidade em questão.

O que facilmente poderia se perder em uma enfadonha e incessante narrativa, contudo, é realizada de forma surpreendentemente dinâmica. Ao invés de seguirmos estritamente a história de Salgado de forma linear, o diretor opta por uma montagem que oscila entre os trabalhos passados, com os mais recentes do fotógrafo, misturando o social com o ambiental, criando um diálogo aberto entre o passado e o presente. Dessa forma, fica claro de que forma as experiências vividas por Sebastião influenciam seu presente, moldando o homem que ele é hoje em dia. É notável a progressão da pessoa que vemos nos anos 1960-70 para a figura já sabia da atualidade, que presenciou desde a fome na África até o ecossistema dos Galápagos.

Wenders ainda consegue encaixar de forma orgânica a história pessoal do homem por trás do profissional, colocando suas crescentes dúvidas em relação ao ser humano, suas angústias, no meio da narrativa. Com isso nos identificamos ainda mais com Salgado, ao passo que as fotografias que nos são mostradas passam da admiração por aquela sublime sensibilidade até o choque, ao vermos as angustiantes imagens das zonas de guerra ou de extrema pobreza e miséria. A vida e a morte se mesclam neste documentário, que, no fim, termina com uma mensagem positiva, como a própria trajetória do artista em questão.

O longa-metragem, todavia, conta com seus leves deslizes no que se diz respeito à sua duração. Com cento e dez minutos de duração, a obra sofre com uma leve quebra de ritmo ao seu decorrer – nada que, de fato, chegue perto de estragar o filme, mas que nos causa um certo cansaço e acaba diminuindo o impacto almejado. Outro fato que gera um pequeno desconforto é a forma romântica com que Wenders retrata a trajetória de Sebastião, soando como uma grande propaganda que falha em exibir as dificuldades ao longo do caminho. Sim existe uma abordagem mais emocional definindo a obra, mas não podemos deixar de sentir que todo esse encanto está disfarçando os aspectos árduos da vida do fotógrafo.

Felizmente, essas pedras no caminho não conseguem tirar nossa admiração por Sebastião Salgado, um verdadeiro artista que demonstra, a cada contração do diafragma, o poder da fotografia. Em seu documentário, Wim Wenders compõe uma verdadeira homenagem a esse grande artista, nos trazendo uma ótima via para conhecermos em maiores detalhes o trabalho e a vida desse ilustre ser humano.

O Sal da Terra (The Salt of the Earth – Brasil/ Itália/ França, 2014)
Direção:
 Wim Wenders, Juliano Ribeiro Salgado
Roteiro: Wim Wenders, Juliano Ribeiro Salgado, David Rosier, Camille Delafon
Elenco: Sebastião Salgado, Wim Wenders, Juliano Ribeiro Salgado
Duração: 110 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.