Crítica | O Segredo de Brokeback Mountain

estrelas 5,0

Dentre alguns conceitos sobre gênero e sexualidade traçados nas últimas décadas, podemos destacar a heterossexualidade compulsória, reflexão oriunda do ensaio de Adrienne Rich, intitulado “Compulsory heterossexuality and lesbian existence”, escrito em 1981 e publicado em 1986. No texto, a ensaísta aponta que a nossa sociedade é organizada por uma matriz heterossexual imposta, que não é natural, mas imaginária. Em O Segredo de Brokeback Mountain, drama dirigido por Ang Lee, lançado em 2005, esse conceito materializa-se nos protagonistas, em suas ações e na contextualização histórica.

No filme, Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger) são dois vaqueiros que se conhecem e se apaixonam enquanto realizavam trabalhos de pastoreio na belíssima Brokeback Mountain, em 1963. A produção nos apresenta o complexo relacionamento que perdurou por dezoito anos, o que marcou a vida de todos os envolvidos.

Em 1963 ambos são contratados por um rancheiro, interpretado por Randy Quaid. Enquanto um vigiava as ovelhas, o outro se responsabilizava pela alimentação e por vigiar a área. Certa noite o contato dentro de uma cabana leva ao ato sexual que encontrará ressonâncias posteriormente, com uma paixão avassaladora sem precedentes na vida dos dois. Eles insistem que não são gays, mas não conseguem resistir ao sentimento que brota de seus interiores, numa prova que o amor não tem sexo, cor, idade e nem raça, em suma, uma força da natureza, algo quase primitivo, infelizmente padronizado e organizado ao passo que as sociedades avançaram ao longo da história da humanidade.

Certo dia, o rebanho que vigiavam se mistura com outro, uma ovelha é atacada por um lobo e a situação profissional de desfaz. Eles se separam, mesmo que naquele momento haja algo de muito forte e doloroso, representado de forma singela para alguns, mas que pode ser refletido como algo forte e melancólico: através de um retrovisor de caminhonete, observamos o distanciamento entre os personagens, como se eles soubessem que mesmo diante das vontades, aquele sentimento era algo impossível de se concretizar, principalmente pela época.

Ennis, interpretado com maestria por Heath Ledger, casa-se com Alma (Michelle Williams, em ótimo desempenho). Do casamento nascem as suas duas filhas: Alma Jr e Jenny. Jack, também muito bem interpretado por Jake Gyllenhaal, casa-se com a cowgirl Lureen (Anne Hathaway), filha de um poderoso magnata do setor agrícola. Desta união nasce Bobby, único filho do casal.

Numa virada, tudo se modifica com o envio de um cartão-postal. A correspondência de Jack chega ao conhecimento de Ennis, que a recebe com muita alegria. Jack informa que vai passar pelo local e pergunta se o “amigo” quer vê-lo. Eles se reencontram, demonstram para si mesmos e para o público que o sentimento continua firme e forte. A partir daí, os desafios precisam ser vencidos, tendo em vista os numerosos obstáculos que surgiriam até o fatídico acontecimento que tornaria a relação de ambos algo situado apenas no plano da memória.

Ousado ao ofertar ao público um filme sobre homossexuais tendo dois atores do alto escalão hollywoodiano, símbolos da masculinidade absoluta, a produção é ainda mais controversa ao trazer dois personagens caracterizados pela imagem de um dos ícones mais representativos da história do cinema estadunidense: o cowboy, um dos agentes do gênero western, marco da memória cultural da terra do american way of life.

Ang Lee já havia flertado com a homossexualidade no interessante Banquete de Casamento, lançado em 1994. Em Tempestade de Gelo, de 1997, apresentou críticas ácidas ao núcleo familiar. Desta forma, o seu filme sobre Ennis Del Mar e Jack Twist parece refletir as ressonâncias culturais do cineasta com a movimentação intelectual sobre a temática entre os 10 anos de lançamento da comédia gay de 1994 e a adaptação do conto Brokeback Mountain, em 2004. As produções dialogam entre si e, por sua vez, completam-se.

No que diz respeito aos aspectos técnicos, há vários tópicos que precisam ser deslindados mais detidamente: a montagem, a cenografia, o figurino e a direção de fotografia. Ao longo dos seus 134 minutos, O Segredo de Brokeback Mountain revela o seu cuidadoso processo de reconstrução de uma época. Desta vez, uniu-se a uma excelente equipe de produção para entregar ao público uma belíssima reflexão, adornada por imagens fabulosamente construídas.

A direção de fotografia ficou por conta do experiente Rodrigo Pietro, reconhecido por seus trabalhos em Amores Brutos, 21 Gramas e Frida. Os figurinos que refletem de forma nada caricata o ambiente western, assinados por Laura Ballinger, representam muito bem o tempo e o espaço da narrativa. A montagem inicialmente foi assinada pela também experiente Geraldine Peroni, profissional que faleceu em 2004, cedendo espaço para o também excelente Dylan Tichenor. Marit Allen, diretora de arte que atuara com Ang Lee na equipe de Hulk, assinou o design da produção e também se destacou pelo excelente trabalho desenvolvido: os cenários são esplendorosos, tais como a exploração da ambientação natural enquadrada pelas câmeras que se movimentaram e captaram a fictícia Brokeback Mountain.

Quando estão nas montanhas, as rotinas dos personagens parecem angustiantes: família para liderar, amigos para fazer “média”, em suma, a representação diária de pessoas que não podem, por algum motivo, sair de dentro de seus armários. Essa mixagem de sensações torna-se mais crível ao passo que a cenografia trata de captar as melhores imagens, para na montagem, dialogarem com a execução da música do filme.

A trilha sonora, assinada pelo argentino Gustavo Santaolalla conquistou prêmios na cerimônia do Oscar e do Globo de Ouro, além de ter ganhado versões remixadas e tocadas à exaustão ao redor do planeta, geralmente em boates, reduto máximo da música eletrônica.  Metáfora para a situação apresentada pela diegese fílmica, a música cresce nos momentos de possível ascensão do amor e é bruscamente vetada nas cenas em que a agressão física e simbólica surgem para representar os problemas enfrentados pelos envolvidos na ciranda do preconceito e da intolerância, palavras-chave da narrativa.

O roteiro, baseado no conto homônimo de Annie Proulx, foi escrito numa era politicamente conflituosa para os homossexuais. Os Estados Unidos há poucos anos haviam saído do contraditório governo de Ronald Reagan, presidente que assim como Theodore Roosevelt, havia explorado bastante a mitologia acerca dos cowboys, símbolo máximo da masculinidade estadunidense. Há estudos que apontam a associação do presidente com a imagem dos cowboys, principalmente pela sua entonação e seu tom de voz, o que fez o povo de alguma forma confiar com mais firmeza nas palavras do desastroso líder político, haja vista a exploração muito sagaz de um símbolo do imaginário cinematográfico da nação.

No que tange aos aspectos do desenvolvimento de personagens, o roteiro é um produto muito bem realizado. “Eu sei que não sou queer”, esbraveja Ennis Del Mar, ao não admitir o fato de ser homossexual. Ele possui um pensamento culturalmente masculino e agressivo, não se emociona nem quando a sua filha lhe informa que vai casar, ou então, quando desfaz o relacionamento com Jack Twist. As fagulhas de sentimentalismo, quando aparecem, manifestam-se com requintes de violência, haja vista a construção do personagem com base nos parâmetros da heterossexualidade compulsória, com ações violentas apresentadas como o padrão para os traços culturais de masculinidade.

De natureza mais leve, Jack Twist também é um personagem forte, apesar de ser o elo mais frágil da relação, graças ao seu desprendimento em relação aos padrões sociais. Talvez por ele, ambos tivessem deixado tudo para trás e se entregado ao sentimento que brotava dos seus respectivos âmagos.

Vale ressaltar que a relação com os cowboys é metafórica. Não há a conquista do Oeste, a corrida pelo ouro californiana, a busca pela delimitação de fronteiras com o México, tampouco a colonização de indígenas. São detalhes que não fazem parte do filme, mas estão como resíduos da memória local. É tudo metafórico, eufêmico talvez pela “cosmética” das belas imagens, sem hipérboles que levariam ao caricatural, portanto, paradoxal ao apresentar sentimentos antagônicos, para logo depois, alinharem-se, deixando a antítese em prol da mais perfeita simbiose amorosa.

À guisa de curiosidade, o pôster da produção inspirou-se no premiado Titanic, de James Cameron, lançado em 1998. Por falar em prêmios, O Segredo de Brokeback Mountain foi indicado ao Oscar, ao Globo de Ouro, ao BAFTA e ao Screen Actors Guild Awards, nas principais categorias.  A produção circulou festivais ao redor do planeta e tornou-se alvo de famigeradas polêmicas na mídia, discussões ácidas que só fizeram aumentar o interesse do público em relação ao filme.

Banido em diversos pontos, a dupla de cowboys homossexuais causou desconforto em momentos distintos. Na China, a proibição foi explicada pelo órgão responsável. Segundo dados, o público restrito não justificava o lançamento comercial, sendo no mercado ilegal o espaço para a obra desaguar naquele local. Proibido nas Bahamas, o filme também encontrou problema nos Estados Unidos, sendo a polêmica envolvendo a rede de cinema de Larry H. Miller um dos principais tópicos midiáticos de discussão envolvendo a obra. Também dono de um time de basquete famoso, Miller também fazia parte de um núcleo protestante, mas teve que recuar de sua opinião pública ao ter um dos jogadores do seu time assumindo-se publicamente.

Em 2007, os pais da estudante Jessica Turner processaram a Secretaria de Educação de Chicago, revoltados pelo fato de uma professora ter exibido o filme durante uma aula. No Oriente Médio, a produção encontrou problemas para a exibição e tornou-se uma questão de ativismo político e na Itália, os cortes para a exibição deixaram de fora cenas consideradas subversivas, tais como o momento sexual dos personagens, bem como os seus beijos.

No documentário O Outro Lado de Hollywood, produção baseada no livro homônimo de Russo Vito, há um trecho interessante que afirma o seguinte problema: “Hollywood, a grande criadora de mitos, ensinou aos heterossexuais o que pensar sobre os gays, e os gays, o que pensar sobre si mesmos”. Com os cowboys de Ang Lee, o tema surge como reflexão, sem os estereótipos que cristalizaram a imagem dos gays nas mentes do público geralmente exposto ao lado negativo da cultura de massa, ou seja, a massificação de ideias controversas que produzem problemas sociais sem precedentes do lado de cá da tela do cinema.

Em um mundo assolado pelo vírus da homofobia, “praga” que geralmente apresenta a hipocrisia o preconceito e a intolerância como principais sintomas, filmes como O Segredo de Brokeback Mountain chegam para tentar trazer alguma reflexão para essa questão, afinal, após 10 anos de lançamento da obra, os problemas que gravitam em torno deste tabu ainda crescem vertiginosamente, concomitante aos filmes, livros e séries que insistem em trazer mais naturalidade ao tema. Por um lado, luta-se contra o preconceito, mas do outro, ainda há muita gente que precisa entender que o “amor é uma força da natureza”.

O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain) – EUA, 2005.
Direção:  Ang Lee.
Roteiro: Larry McMurtry e Diana Ossana, baseados no conto de Annie Proulx.
Elenco: Heath Ledger,  Jake Gyllenhaal, Randy Quaid, Michelle Williams, Anne Hathaway, Scott Michael Campbell, David Rabour, Anna Faris, Kate Mara, Roberta MaxWell.
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.