Crítica | O Selvagem da Motocicleta

estrelas 5,0

O contexto de O Selvagem da Motocicleta não poderia ser mais controverso. Se, por um lado, Francis Ford Coppola estava no auge de sua carreira — após os sensacionais O Poderoso Chefão (1972), O Poderoso Chefão: Parte II (1974), A Conversação (1974) e Apocalypse Now (1979) — Hollywood, por sua vez, vivia um impasse em suas produções cinematográficas, que sofriam uma transição da era clássica para as superproduções. Depois de grandes sucessos, era de se esperar que Coppola seguisse a linha dos megafilmes. Desta vez, todavia, o diretor nos surpreendeu em sua escolha. O Selvagem da Motocicleta foi produzido de forma ainda mais simples que seus antecessores, constituindo um dos projetos experimentais mais sólidos da carreira do diretor e uma obra extremamente intimista e reflexiva.

A fotografia em preto e branco (com pequenos detalhes coloridos, os quais abordarei posteriormente), a forte presença de simbolismos, discussões reflexivas e filosóficas e o foco nos diálogos e na fotografia e não no roteiro, levaram a película para uma direção oposta da de seus contemporâneos; não sendo, deste modo, tão bem recebido pelo público e pela crítica. Em suma, O Selvagem da Motocicleta ainda é daquelas produções que não agrada a todos — principalmente por aqueles que se importam muito em como a história se desenvolve e suas “reviravoltas”.

Rusty James (Matt Dillon), o protagonista, é o arquétipo de um adolescente da época: só vai para a escola para ficar com seus amigos, não dá atenção a sua namorada, Patty (Diane Lane), possui relações extremamente superficiais e não tem nenhum objetivo concreto em sua vida — exceto, é claro, liderar sua gangue, como forma de se mostrar superior e materializar sua ideia do que é o mundo. Entretanto, Rusty vive na sombra de seu irmão mais velho, o “Motorcycle Boy” (Mickey Rourke) que se tornou uma lenda em sua cidade por sua perspicácia e capacidade de liderar uma das principais gangues da região no período em que elas ainda predominavam. Tudo que Rusty deseja é, na verdade, ser seu irmão. Com um pai bêbado e desprezível (Dennis Hopper) e uma mãe que nunca conheceu, o protagonista encontra no irmão seu único exemplo; a pessoa que lhe é mais próxima que atingiu o maior patamar do que, para ele, é o sucesso. O “Motorcycle Boy”, contudo, desapareceu da cidade sem deixar nenhuma informação. Rusty ainda mantém a frívola esperança de voltar a ver aquele que é seu ídolo. De fato, o reencontro ocorre logo no início do filme (em uma cena espetacular de confronto entre gangues, com uma montagem perfeita). No entanto, tal reunião não ocorre da maneira que o mais novo esperava. O irmão volta diferente, e tenta romper, durante toda a obra, a visão que Rusty tinha dele, incitando-o a explorar o mundo afora.

A aura criada por Coppola não poderia ser desenvolvida de melhor forma. A fotografia em preto e branco, muito semelhante a um noir, remete não somente ao daltonismo do “Motorcycle Boy”, citado no próprio filme, como também esmiúça um espaço sombrio, delirante, que remete diretamente ao modo de enxergar o mundo de Rusty James. Também é interessante notar a incessante utilização de dois artifícios técnicos: a grande presença de sombras e fumaças, e a trilha sonora de Stewart Copeland (baterista do The Police), que é desordenada, excêntrica, enigmática e por vezes desconexa. Tanto um quanto outro recurso foram aproveitados com maestria pelo diretor, em alusão à percepção turbulenta, ilógica e vazia do “Motorcycle Boy”.

Um dos principais pontos do filme está na ambientação: uma cidade pequena, sem nome, em que tudo é tedioso, vazio e sempre o mesmo (talvez tenha esse sido outro motivo de Coppola ter optado pela fotografia em preto e branco). A visão daqueles que vivem na região, especialmente a do protagonista, é extremamente limitada, restrita a um mundo pequeno. Entra aí uma discussão existencialista, que toma base em questões como a liberdade e o que faz o indivíduo se colocar como um ser atuante de fato no mundo — afinal, a opção pela “não ação” de Rusty, de não fugir de seu mundo restringido, o torna somente um alguém em potência? Por fim, o que somos, quando tirados de nosso pequeno mundo? Quem, além de nós mesmos, nos impede de sermos livres?

A discussão é enaltecida pela principal simbologia de O Selvagem da Motocicleta. Em todo o filme, os únicos itens coloridos são peixes em um aquário. Em uma cena já perto do desfecho, a metáfora é revelada para os telespectadores. O “Motorcycle Boy” mostra para Rusty esses peixes, presos em um aquário. A justificativa dada para estarem confinados separadamente é porque, caso ficassem em um viveiro juntos, eles brigariam. O irmão mais velho acredita, então, que caso fossem soltos em um rio grande, não entrariam em conflito, visto que teriam a possibilidade de explorar todo um mundo — diferentemente do aquário, em que há a necessidade da violência pela restrição que se está envolta. Ademais, quando solitários, entram em um embate consigo mesmos. Com essa metáfora, Coppola conseguiu um feito para ser aplaudido: ela não soa forçada, se encaixa perfeitamente no contexto de Rusty James e é simplesmente genial.

Em meio à valorização das superproduções, que se estende até os dias de hoje, é de se esperar que O Selvagem da Motocicleta não fosse bem recebido por alguns. Os artifícios que tornam a obra admirável, tais quais a trilha sonora, a fotografia, os diálogos esplêndidos e a aura extremamente intimista, podem ser vistos como cansativos devido sua exaustiva exploração. Entretanto, esta pequena falha não retira toda a maestria da película. Mesmo sendo um projeto menor, a produção não deve ser esquecida, nem posta como inferior a despeito de outros filmes. Não somente por ser de Coppola; O Selvagem da Motocicleta merece um espaço na história do cinema, tanto pelas suas artimanhas técnicas executadas com virtuosa destreza, como também pela discussão que propõe acerca daquilo que somos como indivíduos.

O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish) — EUA, 1983
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola, S.E. Hinton
Elenco: Matt Dillon, Mickey Rourke, Diane Lane, Dennis Hopper, Diana Scarwid, Vincent Spano, Nicolas Cage, Chris Penn, Laurence Fishburne, William Smith, Michael Higgins, Glenn Withrow, Tom Waits, Herb Rice, Maybelle Wallace, Nona Manning, Sofia Coppola, Gian-Carlo Coppola, S.E. Hinton, Emmett Brown, Tracey Walter, Lance Guecia, Bob Maras, J. T. Turner, Keeva Clayton, Kirsten Hayden, Karen Parker, Sussannah Darcy, Kristi Somers
Duração: 94 min

GABRIEL TUKUNAGA. . . . Da Sala Precisa de Hogwarts ao Overlook de Jack Torrence, sempre fui fascinado por lugares inóspitos e indecifráveis — ainda que fictícios. Da paixão ao inexplorado, surgiu a incessante busca pelo lugar de pertencimento. Como não faço questão de resolver esse inconveniente agora, tornei-me um entusiasta que ainda tem a pueril esperança de mudar o mundo. Cinéfilo, admirador dos livros, da História e da política, ainda tento sondar e conhecer mais cada um desses itens que, felizmente, jamais poderão ser totalmente decifrados.