Crítica | O Sexto Sentido

estrelas 5,0

Atenção: Essa crítica – de um filme que tem 15 anos de idade!!! – contém inevitáveis spoilers. Se você por acaso não viu esse filme e, ao mesmo tempo, não sabe do twist que o roteiro contém, parabéns, você ou nasceu literalmente ontem ou viveu, até hoje, em uma caverna no interior do Brasil. 

Visão

O Sexto Sentido é uma armadilha sensorial, uma filme que prende o espectador do começo ao fim, oferecendo uma multitude de experiências visuais que são perfeitamente construídas por seu diretor e roteirista M. Night Shyamalan em seu primeiro filme de relevância e, também, o que marcaria sua carreira para sempre. Afinal de contas, depois dessa fita, todos os espectadores passaram a esperar, sempre, um grande segredo, um imaginativo twist.

E, geralmente, condeno filmes que são pensados para chocar com a surpresa. Deploro roteiros que são construídos para ter cenas completamente irrelevantes que só estão lá para gerar sentimentos de poucos segundos na plateia que, não demora, nem mesmo lembra do que assistiu. Mas O Sexto Sentido não é uma obra assim. Ela é muito mais do que o grande – e incrivelmente surpreendente – segredo que nos é revelado no minuto final.

Tentem voltar no tempo e lembrar da sensação de ver esse filme pela primeira vez, sem saber de nada. Mesmo que a narrativa não nos oferecesse a surpresa final, o trabalho de Shyamalan seria uma grande obra. Usando uma fotografia escurecida, muitas vezes tendendo para o monocromático, eles faz o espectador mergulhar em um tenebroso mundo a parte, em que o Dr. Malcolm Crowe (Bruce Willis), um psicólogo trata de Cole Sear (Haley Joel Osment), uma criança fechada em si mesma, com sérios problemas para fazer parte da sociedade em geral.

Mas essa relação literalmente médica do começo toma contornos sobrenaturais a passos largos, o que já revela um perspicaz plano mestre por parte de Shyamalan, que, espalhando pequenos pedaços de queijo aqui e ali, vai atraindo seus espectadores, de maneira inexorável, para uma ratoeira visual, daquelas que nos jogamos felizes.

Paladar

E é mostrando que sabe construir um filme para todos os gostos que o diretor/roteirista  se sobressai. Não vejam O Sexto Sentido pelo final. Assistam-no como um filme qualquer que acrescenta novas camadas narrativas na medida em que progride.

De uma lúgubre obra sobre o relacionamento médico/paciente, partimos para outro sabor completamente diferente: o suspense. E não um suspense qualquer, inorgânico, jogado ali apenas para gerar sustos. Há um tecido perfeitamente costurado que nos carrega de sequência para sequência, sem permitir que sequer pisquemos, mas sempre fazendo questão de mostrar a relevância. É o diretor apresentando uma maturidade impressionante para alguém, àquela época, com tão pouca experiência na Sétima Arte.

Olfato

Se existe um defeito no filme, ele está muito mais preso à necessidade que as pessoas têm de, a qualquer discreto aroma de mistério, descobrir com velocidade o segredo. Mas isso faz parte da natureza humana, ainda que também faça parte da natureza humana a vontade de estragar a experiência dos outros. Por sorte, ainda me lembro claramente do quão virginal fui assistir a essa obra, sendo pego completamente de surpresa por toda a estrutura da fita e, claro, por seu final arrebatador.

Aliás, esse é um daqueles filmes que deveriam ser vendidos com slogans do tipo “compre logo dois ingressos, pois você vai querer assistir novamente”. E é isso mesmo. Gostando ou não, qualquer espectador quererá voltar a mergulhar nas agruras do Dr. Crowe e do menino Cole, pois O Sexto Sentido é um dos poucos filmes com surpresas no final que exigem uma volta ao começo para apreciar o enigmático trabalho do diretor com outros olhos.

Tato

A narrativa da obra nos faz simpatizar com o Dr. Crowe logo de início, na sequência de abertura em que sua casa é invadida e ele sofre um atentado. Nesse momento, vestimos a pele do personagem e passamos a sentir – ou a não sentir – por seus poros. A introdução de Cole em seguida e o aprofundamento do mistério do garoto ser tão fechado como é nos transporta de Crowe para Cole e de volta para Crowe.

Somos inundados por sensações de quente e frio, de urgência e calma, de tristeza e alegria com uma facilidade enorme, como se Shyamalan estivesse nos dirigindo, nos manipulando, jogando baixo para alcançar seus objetivos que ele alcança com louvor. É difícil até parar para pensar na enormidade do que ele conseguiu alcançar com um trabalho que,, em um primeiro olhar, é despretensioso e comum.

Audição

Mas nada disso seria possível sem o acompanhamento da trilha sonora de James Newton Howard, em uma composição memorável. Reparem como somos enganados o tempo todo sobre o tom do filme também pela música, como somos levados a crer sobre a natureza comum da narrativa versus os elementos sobrenaturais que são introduzidos sem pressa, naturalmente. Reparem como a música usada na construção do suspense não se utiliza de motivos que marcam o momento do susto de maneira barata e previsível.

Tudo é uma construção sonora que acompanhar de maneira compassada exatamente aquilo que o diretor/roteirista coloca na tela. Se fecharmos os olhos, provavelmente concluiremos igualmente sobre a natureza – as naturezas – daquilo que estamos vendo/ouvindo.

Eu vejo pessoas mortas

E, então, assim, inevitavelmente, a grande peça final do quebra-cabeças vem e nós percebemos outra dimensão em cima de tudo que acabamos de assistir. O drama que se transformou em suspense, agora se converteu em uma tapeçaria de pequenos tijolos invisíveis, mas perfeitamente encaixados, que só conseguimos ver com clareza, lá no fundo de nossa mente, depois que descobrimos quem exatamente o garoto consegue ver. A relação de Crowe com Cole muda radicalmente e nós ficamos nos entreolhando, enganados.

Mas felizes. Muito felizes por termos sido ludibriados completamente. Por termos nosso tapete puxado sob nossos pés. Por termos visto um filme que não é nada disso que pensamos. E por termos – sim, termos – que assistir novamente para, aí sim, realmente percebermos que Shyamalan tinha um plano e que ele o executou à perfeição.

Crítica publicada originalmente em 02 de agosto de 2014.

O Sexto Sentido (The Sixth Sense, EUA – 1999)
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Bruce Willis, Haley Joel Osment, Toni Collette, Olivia Williams, Trevor Morgan, Donnie Wahlberg, Peter Anthony Tambakis, Jeffrey Zubernis, Bruce Norris
Duração: 107 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.