Crítica | O Shaolin do Sertão

O Shaolin do Sertão

estrelas 3

Nada como um bom investimento financeiro para fazer uma marca ampliar as suas possibilidades estéticas. Com a entrada da Globo Filmes e o apoio do Ministério da Cultura, a produção que resgata o valor das comédias populares (no sentido mais amplo da palavra) possui uma ligação muito próxima com Cine Holliúdy, projeto anterior do cineasta Halder Gomes.

Em O Shaolin do Sertão, o diretor se diverte ao dirigir o roteiro de L.G. Brandão, uma comédia recheada de humor pastelão e referências metalinguísticas, principalmente cinematográficas. Mas muito além da diversão, demonstra domínio da forma, mesmo que o roteiro não seja superior aos seus trabalhos anteriores.

O filme começa nos situando em 1982, em Quixadá, interior do Ceará. Durante esta época os lutadores de vale-tudo estavam em crise por conta da falta de opções de eventos para atuar. O eixo central é o padeiro Aluiso Li (Edimilson Gomes), um homem dividido por duas paixões em sua vida: os filmes de artes marciais e a doce Anésia Shirley (Bruna Hamamú), a filha do seu patrão. Para conquistá-la (uma das subtramas do filme) ele precisa de poder aquisitivo e driblar o adversário Armandinho (Marcos Veras), o pretendente engomadinho da moça.

Quando o prefeito (Frank Meneses), por motivos políticos, concede uma vaga para algum valentão da cidade enfrentar o brutamonte Tony Tora Pleura (Fábio Goulart) e defender a honra dos cearenses, Aluiso vê a oportunidade de realizar os seus sonhos. Com a conquista, vislumbra lutar tal como os seus personagens do mundo ficcional e tornar-se um bom partido a ponto de ganhar o coração de Anésia.

Para a sua evolução enquanto personagem heroico ele contrata Chinês (interpretado pelo cantor Falcão). A partir daí, uma jornada cheia de piadas é apresentada ao espectador, numa comédia divertida, mas muito, extremamente carregada de estereótipos. Além deste problema, há questões gritantes no que tange aos aspectos dramatúrgicos. A trama passeia por críticas ao coronelismo, transforma uma abordagem política em caricatura e outras gafes que não deixam a produção num patamar superior ao encantador Cine Holliúdy, espécie de versão brasileira do mágico Cinema Paradiso.

As vantagens de O Shaolin do Sertão é saber se relacionar com o seu público sem ser ofensivo. O filme possui, nas palavras do cineasta, elementos que vão do popular ao erudito. Como apontado em entrevistas, “reunião de expressões improváveis”. A sua iniciativa de dar fôlego ao cinema produzido no nordeste e focado em questões chamadas de “regionais”, termo atualmente questionável dentro dos circuitos acadêmicos e demais espaços intelectuais, deixa tudo mais louvável.

O filme rendeu bem e foi sucesso de recepção da crítica e do público, principalmente no Ceará. Em sua região, O Shaolin do Sertão desbancou Inferno, com Tom Hanks, forte concorrente, ficando em primeiro lugar nas bilheterias de estreia. Parece algo pueril, mas não é, principalmente se pensarmos o nosso histórico de ostracismo diante da realidade industrial face ao espaço das produções estrangeiras em nossas salas de exibição.

Ao longo dos 100 minutos o filme faz uma série de referências interessantes. Há remissão aos “clássicos” Rocky, um lutador, Karatê Kid, O Grande Dragão Branco, Operação Dragão e até mesmo ao aurático Os Pássaros, de Alfred Hitchcock. Divertido, mesmo que muito bobo ou nonsense em alguns momentos, O Shaolin do Sertão traz à tona os momentos gloriosos da chanchada, época de muitas sátiras de filmes estrangeiros, tais como Banana Mecânica, Bacalhau, A Baronesa Transviada, entre outros.

O Shaolin do Sertão Brasil, 2016 
Direção: Halder Gomes
Roteiro: L. G. Brandão
Elenco: Bruna Hamu, Dedé Santana, Edmilson Filho, Fábio Goulart, Fafy Siqueira, Falcão, Frank Menezes, Haroldo Guimarães, Igor Jansen, Karla Kareninna, Lailtinho Brega, Marcos Veras, Tirulipa
Duração: 100 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.