Crítica | O Show de Truman: O Show da Vida

estrelas 4

Em uma era de cultivo de reality shows e enorme força dos meios de comunicação de massa na sociedade, O Show de Truman, filme indicado a três Oscars e dirigido pelo australiano Peter Weir, aparece como uma reflexão cada vez mais atual, colocando o espectador em uma posição dialética — como aquele que vê, julga e sabe produzir o que está vendo — e mostrando temas transversais que vão do Mito da Caverna (Platão) e Utopia (Thomas More) até interpretações sociológicas que contemplam o poder e manipulação do cinema, rádio, televisão e mídias impressas sobre as pessoas.

Com roteiro escrito por Andrew Niccol, O Show de Truman nos conta a história de um reality show que tem como personagem principal um homem chamado Truman Burbank (Jim Carrey em boa interpretação, mais ou menos fora de sua zona de conforto), que desde criança tem sua vida observada por milhões de espectadores ao redor do mundo. Sendo o primeiro ser humano comprado por uma empresa e utilizado como matéria-prima para um programa de entretenimento, Truman vive uma vida praticamente perfeita, em uma cidade ideal que aparentemente está ali para fazê-lo feliz e se importar com ele, mas na verdade, todos estão interpretando um papel e ajudando um showrunner e seus investidores a ganhar muito dinheiro.

Utilizando-se da dinâmica básica da televisão em favor do filme, Peter Weir consegue grande agilidade na narrativa ainda em seus primeiros minutos e não deixa o roteiro de Niccol esgotar-se, apesar de algumas sequências e inserção de personagens do escritor não fazer assim tanto sentido ou ter grande valor para o andamento da história — percebam que aquelas duas entrevistas que aparecem no começo ou as interrupções de pessoas no programa são redundantes dentro do próprio texto, porque a presença de Christof e as diversas falhas de execução e transmissão do programa falam a mesma coisa com muito mais eficiência.

Ainda assim, a história não perde o seu gosto voyeur e obviamente joga nesse campo para atrair o público. A expectativa comum nos reality shows é estendida para o filme, onde as perguntas sobre o futuro de Truman ou como o espetáculo terminaria acabam sendo o mote de curiosidade que nos mantém atentos e isso demonstra uma grande criatividade de Andrew Niccol ao fazer uso de experiências externas (C. S. Lewis; Além da Imaginação) para dar corpo à história e competência de Peter Weir em usar honestamente as ácidas críticas do roteiro disfarçadas de entretenimento despreocupado, que, ironicamente — percebam o abismo dentro do abismo — acaba sendo a proposta do filme que vemos e do próprio mundo dele, posto que as críticas ao “Show de Truman” igualmente existem no “mundo de fora do programa”, dentro do filme.

O ótimo diretor de fotografia Peter Biziou soube trabalhar muito bem com diversos tipos de lente e projetores de imagens, seguindo a proposta geral da produção de que a dinâmica da TV não deveria se afastar da obra. Técnicas mais presentes no Primeiro Cinema como imagens em olho de peixe ou íris (angulando ou adicionando fades escuros nas bordas do quadro para destacar o centro) foram usadas na medida certa, assim como correções precisas de cores para a cidade fictícia de Truman e o mundo exterior a ela, que pouco vemos, a não ser pelos olhos dos espectadores.

Ao assistir O Show de Truman, percebemos que todos estão conectados ao personagem e ao show de alguma forma. Concordando ou não com os métodos de Christof, todos assistem ao programa, torcem pelo personagem (cada um com um interesse pessoal nele, que não deixa de ser um objeto semiótico de desejo), esperam dele alguma coisa. Percebam que a relação do espectador com as diversas mídias é apenas um aspecto da obra, uma vez que a mesma atitude pode ser observada no cotidiano, de pessoas que “assistem” às outras, cobram determinadas posturas dela, esperam que vençam provas, que sejam algo previamente organizado, escrito, acordado.

É como se Niccol e Weir transferisse o show para um cenário onde pessoas seguem uma vida que acreditam ser normal, obedecendo a regras que não foram convidadas para fazer e possibilitando o aumento de figurantes e agentes que darão continuidade e legitimidade a essas regras e posturas pré-estabelecidas. O Show de Truman acaba sendo a nossa própria vida, “assistida” de forma um pouco menos evidente (ou não?) pelas nossas instituições.

Com um enredo inteligente, apesar de não ser perfeito, e uma direção episódica (literal, simbólica e tematicamente), O Show de Truman tornou-se, merecidamente, um fenômeno cultural, com direito a estudos de diversas áreas acadêmicas, discussões acaloradas e um público que no mínimo se diverte muito durante sua exibição. Um show exibindo um show e criticando o show que as pessoas pagaram para ver, além de metaforizar a vida dessas pessoas também como parte de um show. Truman, nessa história toda, é tão real e tão fictício como qualquer um de nós. Nossa desvantagem é que raramente há trilha sonora emotiva e cameo de Philip Glass tocando um de nossos grandes encontros.

O Show de Truman: O Show da Vida (The Truman Show) — EUA, 1998
Direção: Peter Weir
Roteiro: Andrew Niccol
Elenco: Jim Carrey, Laura Linney, Noah Emmerich, Natascha McElhone, Holland Taylor, Brian Delate, Blair Slater, Peter Krause, Heidi Schanz, Ron Taylor
Duração: 103 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.