Crítica | O Silêncio dos Inocentes

estrelas 5,0

O dia 30 de abril de 1991 entraria para a história de uma determinada geração de cinéfilos brasileiros. Nesta data, o perturbador e magistralmente conduzido suspense O Silêncio dos Inocentes, adaptação do intrigante romance de Thomas Harris chegava aos cinemas locais. Dirigido por Jonathan Demme e com roteiro assinado por Ted Tally, a narrativa nos apresentou o psicopata mais sedutor da história do cinema: um homem mortal, perigoso, capaz de “matar” alguém apenas com as suas palavras silabadas.

No filme, um psicopata está aterrorizando uma cidade ao atacar mulheres com um determinado perfil. Buffalo Bill (Ted Levine), um perturbado homem que deseja customizar uma roupa feita de pele das suas vítimas. A polícia, ao investigar, vai contar com a astúcia da determinada Clarice Sterling (Jodie Foster, estupenda), personagem que não precisa enfrentar apenas o machismo oriundo dos policiais que a circunda, o risco da situação diante do psicopata, mas também terá de enfrentar os agonizantes desafios psicológicos, propostos por um importante colaborador da sua “situação problema”: o sagaz Hannibal Lecter (Anthony Hopkins, igualmente brilhante).

Considero complicado achar um problema em O Silêncio dos Inocentes. O filme é unanimidade no campo da crítica, citado como exemplo de uma boa realização cinematográfica nos manuais de roteiro, de linguagem audiovisual, nos prepotentes compêndios do tipo “1001 filmes para ver antes de morrer”, dentre outros. Começarei a minha análise estruturalista pelo roteiro.

Ted Tally conseguiu mapear os principais aspectos do romance de Thomas Harris. Clarice é uma mulher com o passado amargo. Dona de uma postura séria e compenetrada no trabalho, a personagem atua como discípula de Jack Crawford (o ótimo Scott Gleen), seu superior hierárquico na polícia. Sempre questionadora e sagaz, nos é bem apresentada logo na abertura, ao realizar exercícios físicos (corrida) com um olhar profundo e melancólico. A performance de Jodie Foster só reforça o poder deste magnífica personagem de ficção, tão brilhante quanto o assustador, mas sedutor e atraente Hannibal Lecter (Anthony Hopkins).

Com a sua retórica deliciosamente ministrada, seja em momentos de tensão ou nos diálogos mais ligeiros, o canibal, mesmo dono de uma personalidade assustadora, dificilmente consegue repelir o público, pelo contrário, a cada aparição faz os nossos olhos brilharem de encantamento. Posso afirmar, sem ressalvas, que esta seja talvez a dupla mais bem sucedida em parceria numa narrativa deste quilate (pelo menos com base nos filmes que eu vi ao longo dos últimos 25 anos). A cena do ataque aos policiais próximo aos momentos decisivos é orquestrada com planos e enquadramentos equilibrados, além da performance do ator, que demonstra serenidade e algo sublime diante do ato hediondo. Aliás, cabe ressaltar que parte do sucesso do filme está nesta postura instigante do psicopata. Ao divertir-se com os atalhos psicológicos fornecidos por Clarice Sterling durante o famoso quid pro quo dos diálogos mais impactantes, Hannibal posiciona-se com sadismo ao investigar o passado da personagem, bem como o seu sofrimento pelo falecimento do pai e toda a trajetória que a levou a ser policial. Os cuidadosos diálogos, que em outras mãos poderiam beirar ao histerismo, seguram o filme já bem equilibrado visualmente, outro ponto responsável por toda a canonização desta produção.

O Silêncio dos Inocentes possui o trunfo do excelente tratamento da coesão e da coerência. O diretor, o roteirista e o montador provavelmente foram pessoas sempre bem sucedidas na escrita. Craig Mckay, responsável pela montagem (a famosa cena final, da montagem alternada, um dos exemplos mais citados em minhas explanações sobre o assunto) ajusta organicamente os flashbacks, e organiza, detalhadamente, os trabalhos dos demais profissionais que compõem o filme.

No que tange aos demais aspectos técnicos, o figurino assinado por Colleen Atwood dá conta do recado: apresenta Clarice com roupas e maquiagem sem brilhos e excessos, transmitindo visualmente a personalidade discreta, serena e solitária da investigadora. A fotografia é calculada pormenorizadamente. Tak Fujimoto adorna os enquadramentos com o seu cuidadoso trabalho, principalmente ao construir uma das principais cenas do filme, a chamada “descida aos infernos” de Clarice no corredor repleto dos homens mais perigosos da localidade. Kristi Zea, responsável pelo design de produção é outra soma positiva ao filme: basta reparar nesse mesmo corredor bem fotografado, como os vizinhos de Lecter são apresentados de maneira fria e suja, ao passearmos por um cenário que fica entre o obscuro e o nojento.

Devido ao fato de ser professor de Cinema e Vídeo, sempre coloco a produção como obrigatória para os interessados em aprender sobre cinema, seja na composição dos quadros, na direção de arte ou fotografia, na eficiente montagem ou no roteiro que adapta o que há de melhor no romance de Harris e constrói dois personagens ambivalentes, igualmente cativantes. Assistir ao filme é como sentar diante de uma vigorosa e bem preparada aula de cinema. Jonathan Demme fez escola, foi copiado à exaustão, haja vista as demasiadas sessões do famigerado Super Cine, na Rede Globo, canal que geralmente exibia, nos idos dos anos 1990, filmes de grandes estúdios e telefilmes do gênero suspense, muitos desses, visivelmente, plágios sem o mínimo disfarce da química praticamente insuperável entre Anthony Hopkins e Jodie Foster.

Ganhador dos cinco principais prêmios da cerimônia do Oscar em 1992 (filme, diretor, roteiro, ator e atriz), feito só realizado anteriormente em Um estranho no ninho e Aconteceu naquela noite, O Silêncio dos Inocentes pode ser considerado um clássico moderno, um dos filmes na lista dos obrigatórios para cinéfilos, críticos, simpatizantes da linguagem cinematográfica ou o leigo que quer aprender algo sobre audiovisual, ou até mesmo, por diletantismo.

Assim como O Exorcista, é um dos raros casos de filmes de “terror” a participar de grandes premiações da indústria do cinema. Eu, particularmente, não consigo ver o filme na ótica do gênero terror, como muitos catalogam. Prefiro pensar num drama psicológico adornado por doses generosas de suspense. Visceral, brilhante, necessário e ainda assustador, O silêncio dos inocentes pode ter sido copiado numerosas vezes, mas dificilmente igualado.

O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, EUA – 1991)
Diretor: Jonathan Demme
Roteiro: Ted Sally (baseado no romance homônimo de Thomas Harris)
Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins, Ted Levine, Scott Gleen, Anthony Heald, Kasi Lemmons, Frankie Faison, Lawrence A. Bonney.
Duração: 111 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.